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Crianças ganham “asas” para fintar barreiras na escola

Os alunos com deficiência motora ou mobilidade reduzida, que estavam impedidos de frequentar as aulas nos pisos superiores, já dispõem de elevador em três escolas de Albufeira. O último foi inaugurado na escola da Correeira, onde Ana Margarida só tinha estado no andar de cima – biblioteca, sala de música e laboratório – três vezes em três anos! A autarquia pretende assim eliminar os obstáculos e adaptar as escolas do concelho a todas as crianças e adolescentes.

 

11h00. A turma do 7ºB da escola Francisco Cabrita, em Albufeira, sai de sorriso aberto da sala de aula. Com a ansiedade e a alegria estampadas nos rostos, os alunos concentram todas as atenções numa colega em cadeira de rodas.

Chama-se Ana Margarida, tem 13 anos, e este é um dia muito especial para ela. Pela primeira vez, a menina entra no elevador construído pela autarquia para subir até ao segundo andar do edifício escolar.

“É a terceira vez em três anos que venho até cá acima. E foi preciso uma grande ajuda dos meus colegas e professoras dessas vezes”, conta, entusiasmada, logo que as portas do elevador abrem no primeiro piso. Do lado direito, as escadas continuam a impedir que Ana tenha acesso a algumas salas de aula. No entanto, do lado oposto, a aluna tem caminho livre para circular até à biblioteca, a sala de música e o laboratório de físico-química.

Até este dia, estes locais estavam fora do alcance da aluna – que apresenta uma deficiência motora e alta miopia, mas não tem quaisquer problemas ao nível da aprendizagem – por causa dos muitos obstáculos que tinha para ultrapassar, a começar logo por uma escadaria com mais de 30 degraus. “Agora tudo vai mudar com este elevador”, adianta, sem disfarçar a sua felicidade.

“O sorriso de uma criança vale muito!”

Apesar da sua deficiência, a pequena Ana Margarida mostra-se confiante, segura e feliz, principalmente agora que poderá aprender nas mesmas condições – e nas mesmas salas – que todos os outros alunos.
E, mesmo sendo a única aluna da escola que se desloca numa cadeira de rodas, num universo de 530 crianças, ela já revela uma sensibilidade e humanidade fora do comum: “Este elevador não vai servir só para mim. Há também muitos colegas meus que se aleijam e não conseguem andar durante umas semanas. Vai ser muito útil para eles também nessas alturas”, afirma.

O vice-presidente da câmara de Albufeira, José Carlos Rolo, sublinha as palavras altruístas da aluna. “Existem sempre várias situações temporárias de alunos que partem uma perna ou torcem um pé e têm dificuldade em deslocar-se na escola”, refere.

Frisando que a escola da Correeira é a terceira do município que já tem elevador para facilitar a acessibilidade da comunidade escolar, depois dos estabelecimentos de ensino de Ferreiras e Vale Pedras, o autarca garantiu que “a câmara vai continuar a eliminar os obstáculos e as barreiras arquitetónicas das escolas”.

No caso do elevador da escola Fernando Cabrita, a autarquia investiu 48 mil euros, dinheiro que José Carlos Rolo sabe que não será rentabilizado, “mas esse também não é de forma nenhuma o objetivo”. “A ideia é facilitar a acessibilidade das crianças e adolescentes nos estabelecimentos de ensino, para que todas tenham as mesmas oportunidades”, acentua, rematando que “o sorriso de uma criança vale isso e muito mais!”.

Autarquia também garante transporte

Para além dos elevadores, a autarquia de Albufeira também garante transporte gratuito a quatro crianças com elevado grau de incapacidade, através de uma carrinha adaptada que vai buscar os alunos às suas casas.

“Sem estes apoios, os pais destas crianças não teriam condições para as trazer até à escola”, evidencia o vice-presidente da câmara e responsável pelo pelouro da educação.

A Ana Margarida é uma das utentes deste serviço de transporte da autarquia, que vê assim a sua vida um pouco mais facilitada. No entanto, fora da escola, a pequena ainda encontra um grande número de obstáculos. “O principal problema é o estacionamento dos carros nos passeios e a falta de rampas em muitos sítios, desde as lojas aos restaurantes. É quase tudo inacessível para mim”, lamenta.

Ainda assim, a aluna está muito satisfeita com a inauguração do elevador na escola, que lhe vai permitir “voar” por quase todas as salas do edifício.

Nuno Couto/Jornal do Algarve
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