OPINIÃO

Crónica de Faro: O Sr. Simões, “Alfarrabista”

Faro
OPINIÃO | JOÃO LEAL

Pequenote, tal como eu, sempre de bata cinzenta, que os livros seus companheiros deitam pó, boina basca com carapito na cabeça, eis a traços largos o retrato visual do Sr. Simões, «alfarrabista», um beirão a quem a cultura, a ciência e a educação em terras algarvias, muito devem numa dívida cujo incomensurável valor nunca foi devidamente ponderada.


Carlos das Neves Simões, de 79 anos, nasceu em Nogueira do Cravo, aldeia do concelho de Oliveira do Hospital. Veio com a família, em boa hora assinale-se, para o Algarve, em meados da década de 60 do século passado. O motivo a abertura da Delegação de uma empresa de máquinas de escrever. Veio e por cá, repito para bem de todos nós, por cá ficou e está.


É mais um dos muitos casos de «farenses que não nasceram em Faro», mas que amam, vivem e servem esta terra. Facto aliás reconhecido pelo Município que em 7 de Setembro de2013 lhe conferiu a «Medalha de Mérito – Grau Ouro», na gratidão de todos os farenses, que se tem ficado mais por estes e outros gestos da sociedade civil, que não no apoio concreto que este homem de bem, interventivo (recorda-se a «Feira do Livro», por exemplo) e servidor, bem merecia, repito e perdoe-se-me a redundância, «para bem de todos».

Corria o ano de 1982 quando teve o gesto audaz de abrir a sua livraria alfarrabista, o que constituiu, desde logo, um poderoso auxiliar para a elaboração dos trabalhos académicos, a quantos frequentavam a concretizada Universidade, após décadas de insólita espera de que só a nossa gente é capaz. Vide o caso do «verdadeiro e necessário Hospital…».


Começou então uma obreira aventura e formando a que era a única «loja de alfarrabista», que alcançando os 8 metros de estantes com livros de e sobre o Algarve, numa área superior aos 120 m2, se firmava e afirmava. «Foi grande de mais para esta Região do País…», confessa-nos com um laivo irónico – triste, sem deixar de expressar na proeminência de uma desnecessária justificação – «Acredito que a melhor ferramenta que a Humanidade tem, nos dias de hoje, são os livros…».


Anos volvidos (28 de Julho de 2015) recebeu ordem de despejo da loja ali na Rua do Alportel, que era um dos mais activos centros da cultura e do saber da nossa região. Tempos passados e cumpridas as formalidades legais encerrou (2017) com um impacto que correu o País inteiro. É que o Sr. Simões alfarrabista e livreiro que tanto dera de si deu a quem o quisesse muitas centenas de milhares de livros. Muitos o quiseram e os levaram. Naquela manhã de um Sábado Estival, contando com a valiosa colaboração da APOS (Associação para a Valorização do Património Cultural e Ambiental de Olhão), duas horas bastaram para esvaziar as estantes e concretizava-se este acto do mais puro mecenato.

Hoje, em instalações na Praça Vieira Branco, todos os dias e às 3ªs e 6ªs feiras nas Arcadas da Praça da Liberdade (Pontinha) o «farense» Sr. Simões, um operário da cultura, continua de banca exposta a oferecer «à cidade e ao mundo» os seus preciosos livros.


Um testemunho único!

João Leal

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