ENTREVISTA

Custódio Moreno: “Esta não é uma geração de coitados”

Aos 58 anos, a história pessoal de Custódio Moreno confunde-se com a história do organismo a que preside, a delegação algarvia do Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ). Nos 30 anos da delegação, fomos ouvir as opiniões deste professor, autarca, adjunto, diretor regional e militante socialista respeitado por gente de todos os quadrantes e matizes políticos. No seu discurso não faltam elogios a esta geração de jovens. Não são preguiçosos nem “coitados”, são exigentes e capazes, sustenta

Custodio Moreno

JORNAL do ALGARVE (J.A.) A sua história confunde-se com a história do IPDJ no Algarve

Custódio Moreno (CM) – Entrei no IPDJ como técnico, ainda no FAOJ, a 31 de setembro de 1988. Depois o facto de estar cá dentro e ter alguma atividade ligada à vida partidária, ser candidato à Junta [do Pechão], e pela minha experiência de trabalhar com jovens, em 1995 sou convidado pelo António José Seguro para ser delegado. Não havia telemóveis, estava em casa e o telefone tocou, era o secretário de Estado a dizer que queria ter uma reunião comigo.

J.A. – Qual a diferença entre o IPDJ de há 30 anos e o de agora?

C.M. – Há uma grande diferença logo nas duas minhas passagens por esta casa. Logo na minha primeira entrada isto era primeiro FAOJ, depois Instituto da Juventude e depois Instituto Português da Juventude, quando fui delegado, em 1995/96. Logo aí há uma grande diferença porque se eu tinha apenas uma “área de negócio” passei a ter duas. O que é o IPDJ? É o casamento entre as duas antigas delegações regionais, a da Juventude e do Desporto. Uma coisa é trabalhar com dezenas de associações, que há no Algarve no âmbito do associativismo juvenil. Mas em termos de clubes desportivos há mais de mil clubes! Na nossa plataforma temos registados quase 900.

J.A. – Isso envolve quantos associados?

C.M. – Só dirigentes associativos calculamos mais de 10 mil! Se falarmos de associados serão dezenas de milhares! Há associações com 300 ou 400 sócios. Se falarmos de associados serão dezenas de milhares! Há associações com 300 ou 400 sócios. Aliás os clubes desportivos e as associações juvenis continuam a ser verdadeiras células de desenvolvimento local, como nos anos 90.


J.A. – Então o que mudou?


C.M. –
Hoje trabalhamos com uma plataforma muito mais alargada. Agora não trabalhamos só com jovens, trabalhamos com jovens e dirigentes associativos até qualquer idade. A grande diferença é a mesmo que houve na sociedade: o digital, a tecnologia de informação. Hoje é impossível conceber uma associação sem computador. Hoje no Instituto ninguém se pode candidatar a um cêntimo sem ser em plataformas e candidaturas online. Não há candidaturas em papel. Logo aí há uma grande diferença. Nos anos 90 ainda podíamos com uma pasta resolver tudo, hoje o que é verdade de manhã à tarde já não é. As coisas evoluem a mil à hora. As associações só nestes 20 anos (estive 15 anos a primeira vez e agora já vou para cinco anos) continuam a ter os mesmos problemas. O que nós queremos é cada vez mais jovens a participar.


J.A. – Os jovens estão muito diferentes do que eram?


C.M. –
Eles continuam irreverentes, a saber aquilo que querem, a ter os seus projetos. Do ponto de vista da motivação, do envolvimento, poderemos até não andar muito longe. Agora do ponto de vista estrutural e organizacional as coisas mudaram muito.


J.A. – Para melhor?


C.M. –
Sim, há um nível de exigência que não havia. Hoje é impossível apresentar candidaturas em sede de relatório que não sejam com valor fiscal. As associações têm contabilidade organizada, um fiscal de contabilidade, têm que prestar as suas contas. Nos anos 90 havia muita associação com contabilidade de mercearia. Hoje é impossível ter técnicos numa associação desportiva que não sejam licenciados. Ou professores de educação física ou treinadores com licença desportiva. O nível de exigência cada vez é maior, o nível de participação não baixou, mas por outro lado as pessoas têm que estar muito melhor preparadas. “Eu tenho uma paixão pelo meu clube”. Pois, mas no século XXI isso já não basta.


J.A. – Nesse aspeto, o IPDJ tem um objetivo de formação…


C.M. –
É o principal objetivo, formar dirigentes associativos, prepará-los.


J.A. – Quer dizer, houve um alargamento etário do próprio instituto, que há 10 anos deixou de se dedicar apenas à juventude e, com o desporto, alargou o seu âmbito a outras faixas etárias.


C.M. –
Esta casa de 30 anos nos últimos 10 passou a ter outro tipo de responsabilidades. As coisas vão evoluindo com alguma dificuldade, mas hoje há uma grande descentralização e aposta nas direções regionais com competências próprias. A grande novidade deste Governo tem sido a nossa capacidade e competência para nas regiões podermos estar mais próximos do que mexe, mas também termos capacidade de resolução.


J.A. – Ao contrário do que às vezes se pensa deste tipo de organismos, o IPDJ é muito mais do que um distribuidor de subsídios, certo?


C.M. –
Por favor não olhem para mim como um “banco”. A importância do Instituto não está na capacidade de distribuir dinheiro, mas na capacidade de ser um facilitador, de disponibilizar um conjunto de ferramentas que começam desde logo na área legislativa. Temos um gabinete jurídico que criei agora e quando eu disse que tinha um advogado à disposição na área do direito desportivo e do associativismo ouve logo uns que torceram a orelha. Não pára, todas as semanas, de haver pedidos de aconselhamento e de acompanhamento. Por outro lado, a formação é essencial. O instituto acompanhar candidaturas aos fundos comunitários, por exemplo.


J.A. – O mundo associativo no Algarve está muito diferente do que era há 20 ou 30 anos?


C.M. –
É como a educação. É um processo lento, mas hoje o perfil do dirigente associativo é completamente diferente. Para já tem que ser uma pessoa que trabalhe com alguma facilidade. Hoje a primeira coisa que um dirigente tem que fazer para se relacionar com o instituto é registar-se na base de dados do IPDJ, a base de dados única. E pedem-se uma série de dados. Logo aí estamos a dizer “já não há coisas em papel”. Hoje ninguém comunica com uma associação por carta. Hoje os sócios recebem emails da sua direção. O típico cartaz que se faz e cola à porta funciona pouco. Ou se fazem mensagens nas plataformas ou por e-mail.


J.A. – Durante estes 30 anos houve uma altura em que deixou de ser diretor regional. E depois voltou a ser. É frustrante deixar um cargo desses, com tanto trabalho por fazer, por causa do fim de um ciclo político? Foi um interregno frustrante?


C.M. –
Gosto do que estou a fazer e não lanço ideias, projetos, para um dia. Fazemos uma sementeira. E já agora lhe digo que embora seja o Governo que lança as políticas de juventude e desporto, nós no IPDJ somos a “frente armada” e estabelecemos laços, é um trabalho de continuidade. Nós estamos nestes cargos sempre preparados para sairmos quando chega ao final de cada comissão. A minha termina em 2023. Independentemente de estar este Governo ou outro, podem não querer contar comigo. Estou em ciclos ligados às comissões de serviço e tenho noção de que na minha formação eu sou professor. Trabalho há 32 anos na função pública e só dei aulas quatro anos. Tenho sido sempre chamado para cargos destes. Estive como adjunto do presidente da Câmara de Olhão.


J.A. – E foi presidente da Junta de Freguesia do Pechão.


C.M. –
Vinte anos! Houve alturas em que estava em duas funções ao mesmo tempo. E estive quatro num órgão de gestão de uma escola. Sempre estive ligado à gestão. Aliás a minha licenciatura é de gestão. Fui professor e depois tirei uma licenciatura em gestão.


J.A. – Mesmo com estas coincidências entre entradas e saídas de cargos e ciclos políticos não se vê como um político? Ou vê?


C.M. –
Isso não. Estou numa situação em que há uma proposta governamental de políticas de juventude e desportiva. Nós estamos aqui para executar. Mas há uma coisa que eu gosto muito de fazer. Já se passaram 20 anos, 25 e ninguém celebrou essas datas. Celebrei os 30 porque é o sal e a pimenta. Nós podemos cumprir as políticas do Governo, mas dar sempre um toque pessoal. Quando saí do Instituto tinha 30 pessoas a trabalhar comigo. Quando cheguei em 2016 tinha seis! E neste momento JA temos quase 20 outra vez e são poucas. Trabalhamos sábados e domingos!


J.A. – Dentro desse triângulo de funções que JA exerceu – professor, autarca e diretor do IPDJ – o que é que faz com mais paixão ou é mais motivador?


C.M. –
Ponto 1: eu sou um homem de sorte. Porque na vida tenho feito sempre aquilo que gosto. Fui para professor porque queria ser professor, não porque não havia mais nada. Era uma paixão. Mas quando eu comecei, nos anos 80, estávamos muito confinados à sala de aula e às paredes da escola. Numa Junta de Freguesia temos outra paixão: estamos próximo das pessoas. Até quase a dormir eu tenho que ser presidente de Junta porque cada vez que eu encontro um freguês eu não digo “desculpe lá, mas eu agora não estou a ser presidente de Junta”. Isso é espetacular. Eu fui presidente de Junta com menos de 30 anos e nessa altura tínhamos mais problemas estruturais. Lá em Pechão fizemos a primeira loja do cidadão. E em relação ao Instituto, o associativismo tem um papel fundamental, desde o emprego, colocação das pessoas, dar oportunidade de verem cinema, praticarem desporto. Portanto, em qualquer uma destas funções tenho a sorte de ter contribuído para que a sociedade seja cada vez melhor.

IPDJ faro
Instalações do Instituto do Desporto e Juventude (IPDJ) em Faro


J.A. – O que é que diferencia um jovem de há 30 anos de um jovem de agora?


C.M. –
Os jovens são cada vez mais exigentes. Habituaram-se a ter respostas e a encontrar tudo rapidamente. Reúnem-se connosco e “é para já”. Aliás o IPDJ criou as “lojas.já”, temos o concurso “Música Já”. Este JA é “Juventude Agora”.


J.A. – Está longe de ser uma geração passiva, ou da preguiça…
C.M. –
Sim! Uma associação académica do Algarve, uma das que recebe mais apoio do Instituto, tem um presidente com 21 ou 22 anos! Tem 22 funcionários, dois centros de cópia e um orçamento global acima de 1 milhão de euros! Um jovem com 21, 22 anos tem que estar muito bem preparado para gerir 1 milhão de euros e pagar salários a 22 funcionários e fazer eventos da envergadura de uma semana académica, que envolve centenas de milhar de euros. Não são uns jovens que bebem ali uns copos, nada disso!


J.A. – Do ponto de vista da saúde, do exercício físico, do antitabagismo, houve uma evolução nestes 30 anos? Há uma geração-saúde em Portugal, no Algarve?


C.M. –
Sim, e essa é uma das preocupações do Instituto. E acrescento o nutricionismo e a obesidade. Temos o “cuida-te +”. Temos três psicólogos à disposição dos jovens, gratuitamente e fazemos campanhas. Haverá sempre jovens que fumam, mas eu penso que muitas vezes não passa de uma mera curiosidade. Aas próprias drogas foram evoluindo e hoje tudo acontece muito mais cedo, muito mais prematuro. Há uma geração como eu, como pai, que também percebemos isso, temos outro tipo de conhecimento, passámos pelas mesmas situações, que falamos mais abertamente. Uma sociedade com um nível cultural mais elevado está mais bem preparada. Ora há 30 anos atrás o nível de escolaridade era abaixo do que temos hoje. A universidade era só para os meninos dos papás ricos e hoje o acesso à educação é muito diferente…


J.A. – Há um caminho para desaparecer a chamada geração-canguru, os jovens que ficam até muito tarde em casa dos pais? Ou pelo contrário, está a aumentar?

C.M. – Vai desaparecendo. É muito lento, mas hoje cada vez mais os jovens perceberam que não há um emprego para a vida, aquela coisa antiga de se entrar numa carreira e não sair mais dali. Hoje nada está ganho. Não há uma juventude, há juventudes. Não há um perfil igual, de um menino que sai da universidade e entra num emprego. Não, há muitos que não querem! Da mesma maneira que não há um perfil em que todos têm que ir para uma associação. Há jovens que se afirmam na vertente artística, que fazem arte, exposições, música.


J.A. – O desemprego continua a ser maior entre os jovens. Como é que se pode combater.
C.M. –
Esta não é uma geração de “coitados”. As políticas dos jovens não são verticais, têm que ser transversais. Hoje o problema de emprego não é só até aos 25 anos, é até aos 45 ou 50. O problema da habitação não é para o jovem que está no início. Conheço pessoas a rondar os 50 anos ou mais com esses problemas. Não são problemas só dos jovens, tem que ser visto numa globalidade. Mal daquele que trabalha para os jovens. Nós não trabalhamos para os jovens, trabalhamos com os jovens. Não podemos fazer nada sem ouvir os atores principais, que são os jovens. Quando se quer fazer uma política de juventude tem que se ter disponibilidade para os ouvir e para trabalhar com eles.


J.A. – E há uma política de Juventude neste País?


C.M. –
Há. Vai ser agora revisto o Plano Nacional de Juventude, que tem um conjunto de medidas. O Instituto não faz mais nada do que o que está na Constituição. Na lei 70 regulam-se os direitos dos jovens. Mas também têm deveres. É isso que queremos, não é passar a ideia que há uma faixa etária que tem direito a tudo. Não, têm direitos e deveres, têm que participar.


J.A. – Preocupa-o alguma profusão de ideias mais extremistas entre a Juventude, designadamente de extrema-direita?


C.M. –
A comunicação social e as redes sociais funcionam muito melhor agora do que dantes. São muito mais rápidos a transmitir ideias. Sempre terá havido alguns grupinhos isolados que teriam essas ideias. Quando ouço alguém falar com os termos da xenofobia, que “são uns parasitas”, isso preocupa-me. E sobretudo quando vamos copiar modelos maus dos outros países. As pessoas hoje são muito influenciáveis nas redes sociais…


J.A. – No pólo oposto também há uma juventude mais cívica, ativa, preocupada. Esse tipo, esse nicho de jovens, tem vindo a aumentar?


C.M. –
Não é um nicho, é a maioria! A grande maioria dos jovens faz coisas bem feitas. O que dá notícia muitas vezes é quando um jovem parte um vidro de uma montra, mas no mesmo dia, à mesma hora, há jovens a distribuir alimentos aos sem-abrigo. A ir a casa dos idosos levar medicamentos. E essa notícia não é passada.


J.A. – O que sentiu quando ouviu aquela música dos Deolinda, que se transformou num hino para muitos jovens, “Que parva que eu sou”?


C.M. –
O que sinto é que os jovens hoje não papam tudo. Aqui está o caso de uma jovem [Ana Bacalhau] que pensa e reflete e deita cá para fora as ideias. Isso é um sinal de grande abertura do País e nós todos somos convidados a pensar. Se é preocupante? Pois é. Em muitas frases dessa letra tem coisas que são verdade e nos devem fazer refletir.

João Prudêncio

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