CULTURA

Um mar de arte têxtil

Vanessa Barragao

Inspirado no mar e nos recifes de coral, o talento que transborda das mãos de Vanessa Barragão foi herdado da sua família. Com influência dos seus avós, desde pequena que está muito próxima dos trabalhos manuais, principalmente do crochet e da costura. Depois de concluir o curso de Design de Moda, a jovem de Albufeira abandonou a área das roupas para se dedicar ao têxtil, produzindo tapeçarias únicas, feitas de forma sustentável e contra o desperdício. A sua arte já correu o mundo

Com 29 anos, Vanessa Barragão abriu as portas do seu atelier, em Olhos d’Água, no concelho de Albufeira, para dar a conhecer o seu talento e trabalho ao JA. Ao entrar pela porta do Studio Vanessa Barragão, destacam-se as cores dos materiais, os elementos da sua equipa empenhada no trabalho, as plantas e ainda a simpática receção da cadela, que está prestes a dar à luz. Tudo isto resulta num trabalho único e talentoso, que ali é feito com gosto, empenho e pensando sempre num futuro melhor para o nosso planeta, de mãos dadas com a natureza.


Desde pequena, Vanessa sempre gostou de trabalhos manuais, com influência dos seus pais e os seus avós, que os considera como artesões.


Na Faculdade de Arquitetura, em Lisboa, a jovem de Albufeira conclui o curso e mestrado de Design de Moda, mas o seu caminho não estava destinado ao vestuário.


“Foi durante o mestrado que percebi que não queria fazer roupas, mas sim têxtil”, começou por explicar Vanessa ao JA, sobre o início do seu percurso artístico e profissional.


A artista começou por fazer uma pesquisa sobre o processo da lã, “desde que sai da ovelha até que chega ao fio”, mas decidiu seguir por um trabalho onde fosse tudo “artesanal e ecológico”.


Começou por fazer tapeçarias, para a parede, e nunca mais parou. Poucos meses depois, vendeu a sua primeira peça em 2016 e ganhou “motivação para fazer mais”.


Enquanto fazia as primeiras peças, esteve três anos a trabalhar numa fábrica no norte do País, a desenhar tapetes, aprendendo técnicas que tem vindo a aplicar nos seus trabalhos.

Da internet para o mundo

A sua grande rampa de lançamento e divulgação é a internet. É através das suas páginas de Instagram e Pinterest que obtém mais feedback do público, mas também mais clientes, maioritariamente estrangeiros.


“Publico sempre o processo todo até à peça final. Acho que o facto das pessoas estarem sempre a ver esse processo faz com que fiquem interessadas e comprem peças”, refere ao JA.


Os seus clientes são desde profissionais a particulares, muitos deles do ramo da hotelaria e da decoração de interiores, que têm sempre um acompanhamento e atendimento personalizado.


“Há clientes que fazem sugestões e eu dou essa abertura, quando é para decoração, tentando ir de encontro às cores que a pessoa tem e que gosta”, explica, acrescentando que os futuros proprietários da tapeçaria vão recebendo mensagens e fotografias do andamento do processo de produção das peças.


Além da internet, a televisão e a comunicação social também contribuíram para ganhar alguma visibilidade, pois uma das suas peças está a “viver” na residência oficial do primeiro-ministro, António Costa, em São Bento.


Com várias imagens do primeiro-ministro português, com a peça de Vanessa por trás, a aparecer na comunicação social, a artista obteve alguma visibilidade dentro do mercado português.


“Nem toda a gente sabe que a peça é minha, mas muitas pessoas conseguiram reconhecer e mandaram-me mensagem”, confessa.

A tapeçaria exposta na residência oficial de António Costa. foto Luísa Faísca

Inspiração vinda do mar

Com orgulho no Algarve e na sua terra, Vanessa revela ao JA que a sua grande inspiração é o fundo do mar, além de fungos e cogumelos.


Aliada a esta inspiração, está o seu objetivo de lutar por um mundo melhor e mais sustentável, com a utilização de resíduos têxteis nas suas peças, para mostrar às pessoas o que está a acontecer no planeta.


“Os recifes de corais estão a desaparecer devido à poluição e ao aquecimento global. São seres muito sensíveis e basta uma mudança de dois graus na água para começarem a morrer. É isto que está a acontecer no nosso planeta: há muitos ecossistemas que estão a desaparecer devido à nossa forma de atuar com o meio ambiente”, conta.


Para Vanessa, a sua arte “é uma forma de chamar a atenção e consciencializar as pessoas para o que está a acontecer com os recifes de coral. Há muitas pessoas que nunca os viram e, agora, estão todos brancos e mortos”.


Vanessa tenta “puxar” o fundo do mar para as suas peças, à sua maneira, através das cores vibrantes que os corais deveriam ter, em contraste com o branco, “para que as pessoas entendam que isto está a acontecer”.

Os seus próximos trabalhos vão ser expostos nas feiras internacionais de Madrid e da Coreia do Sul, enquanto os agendamentos para a produção de peças estão marcados até ao próximo ano.

Desde o início desta aventura na tapeçaria, Vanessa já enviou peças para os Estados Unidos da América, Taiwan, Líbano, Brasil, Austrália, Singapura e para “quase todos os países” da Europa.

Produção amiga do ambiente

No seu atelier não há máquinas e os materiais com que se trabalha são considerados como lixo para outros.


“O material que usamos para as peças vem de fábricas, que consideram desperdício ou lixo. Limpamos tudo e armazenamos, para depois começar a trabalhar”, explica.

Até agora, já salvou cerca de seis toneladas de lã, vinda de fábricas do norte do País, através de parcerias que tem vindo a celebrar com empresas.


“Acabamos por estar a ajudar o meio ambiente e isso para mim é muito bom, porque dá sustentabilidade ao trabalho”, confessa.


Ao todo, já fez cerca de uma centena de peças, em vários tamanhos, “sempre diferentes e únicas”, uma vez que “é um bocado complicado replicar”.

“Os tamanhos variam, tal como as formas e vão sendo consoante o que o cliente quer. Vou sempre adaptando ao gosto do cliente”, acrescenta Vanessa.


Uma peça com um metro de diâmetro, por exemplo, com duas pessoas a trabalhar, poderá demorar entre uma semana ou duas até ser concluída.

Numa das paredes do seu atelier, está um trabalho em andamento. Terá como destino o novo Centro de Artes e Ofícios de Albufeira, que deverá ser inaugurado no verão deste ano. Esta peça, que tem cerca de três metros e meio de altura, está a ser produzida desde abril.


Nas outras duas paredes encontram-se outras duas peças em produção, uma para um cliente particular da região e outro que ficará exposto no restaurante “Alfarroba”.


“Para mim é importante ver os meus trabalhos expostos na minha terra, para dar a conhecer às pessoas daqui, que não me conhecem”, refere.

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Toda a família ajuda

No seu atelier trabalham seis pessoas, incluindo a sua irmã Telma, que vão inserindo na tela as cracas. As cracas, como Vanessa lhe chama, são as saliências de croché muito presentes nas suas tapeçarias, que são feitas em casa pelos seus avós.


“Decidi incorporá-las neste trabalho, porque foram eles que me fizeram despertar este gosto”, explica Vanessa.

As suas avós, na casa dos 80 anos, ficam a cargo dos crochés, enquanto o seu avô, com 91 anos, faz as raízes e outros trabalhos.


“Eles sempre gostaram disto, mas consideravam como um passatempo. Então, quando perceberam que isto estava a conseguir ser sustentável, ficaram contentes e orgulhosos e decidiram que queriam ajudar”, revela.


Para os seus avós, ver que “aquela parte foram eles que fizeram, fá-los sentir-se orgulhosos e de novo úteis, porque os idosos chegam a uma altura que só ficam a ver televisão e assim ficam motivados outra vez para viver”.

Para o futuro, ainda há a ideia de começar a trabalhar com lares. Para Vanessa, “os idosos são pessoas que sabem muito e que são úteis para trabalhar”.

“Queria fazer parcerias. Dava os materiais para eles fazerem crochés e outras saliências e eu depois oferecia produtos para o bem-estar deles. Eles sabem muitas técnicas que se estão a perder, como os bilros, que dali podemos extrair e manter vivo”, afirma.


Do fundo do atelier, a sua irmã Telma, quando questionada sobre a opinião das pessoas em relação à idade de Vanessa e ao seu trabalho nesta área, responde que a população “leva isto como uma coisa fora do normal, por ela ser nova”.


“A nova geração está muito ligada às tecnologias e não liga muito a isto. A Vanessa é um exemplo para as pessoas mais jovens”, considera.

Do Porto para Albufeira

Com atelier no Porto durante quase quatro anos, Vanessa decidiu mudar-se para Albufeira, a sua terra natal. Nos Olhos d’Água, montou o seu espaço em janeiro do ano passado, com uma zona maior para armazenar todo o material.


“Voltar para Albufeira foi a melhor coisa que eu fiz, porque depois apareceu a covid-19 e, de qualquer das formas, teria de vir para casa porque no Porto ia ser muito complicado”, conta.


Com a pandemia, as feiras internacionais onde participava e divulgava o seu trabalho “deixaram de existir”, tal como as galerias que queria visitar e fecharam portas. As exposições foram canceladas, mas “a nível de encomendas e de trabalho, manteve-se tudo”.

“O ritmo de trabalho nunca diminuiu”, revela ao JA.


Gonçalo Dourado

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