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Desemprego e pobreza aumentam número de crianças e jovens em perigo

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O projeto Em Contato apoiou nos últimos dois anos 1.903 indivíduos, tendo acompanhado 691 famílias e 704 crianças e jovens
O projeto Em Contato apoiou nos últimos dois anos 1.903 indivíduos, tendo acompanhado 691 famílias e 704 crianças e jovens

O número de crianças e jovens em risco está a aumentar perigosamente na região, alerta a provedora da Misericórdia de Albufeira. Em declarações esta semana ao JA, Patrícia Seromenho revela que o desemprego e o trabalho precário estão a fazer disparar as situações críticas de pobreza, particularmente a infantil. “Os problemas identificados foram de complexidade e gravidade elevada”, sublinha a provedora desta instituição, que serve de “colo” para milhares de crianças sem afeto

 

Já não há dúvidas: são cada vez mais as crianças vítimas de negligência grave, mal nutridas e com atrasos graves de desenvolvimento. Não espanta, portanto, que os números oficiais confirmem um aumento do número de crianças retiradas às famílias pelos tribunais.

Em declarações esta semana ao JA, a provedora da Santa Casa da Misericórdia de Albufeira (SCMA) afirma que o cenário tem vindo a agravar-se desde 2013, altura em que o concelho foi identificado, pelo Instituto da Segurança Social, como “um território com situações críticas de pobreza, particularmente a infantil”.

“As situações mais críticas foram, de facto, o aumento do desemprego verificado ao longo dos últimos dois anos e as problemáticas associadas à infância, juventude e parentalidade cada vez mais graves e complexas”, adianta ao nosso jornal Patrícia Seromenho, frisando que as instituições de solidariedade enfrentam atualmente um enorme desafio na elaboração dos planos de ação e implementação dos projetos sociais.

“Num cenário onde as famílias são desestruturadas devido a um contexto socioeconómico com um peso elevado da sazonalidade, trabalho precário e aumento do desemprego, o diagnóstico dos problemas identificados com crianças e jovens foram de complexidade e gravidade elevada, os quais têm conduzido a processos de absentismo e abandono escolar, assim como a sinalização de problemáticas ligadas à saúde mental”, alerta a provedora da misericórdia.

Cada vez mais crianças sofrem impacto da crise

Segundo Patrícia Seromenho, “as causas são maioritariamente devidas a negligência familiar e alienação familiar com cenários de conflito parental, com enfoque em agregados de fracos recursos económicos”.

Perante esta escalada perigosa de crianças e jovens em risco na região, a Misericórdia de Albufeira promoveu recentemente um projeto de desenvolvimento social que teve como objetivo “fomentar a inclusão de cidadãos carenciados”.

O projeto Em Contato, que arrancou em julho de 2013 e terminou com uma cerimónia realizada na passada segunda-feira (Dia da Criança), também visou o combate de situações críticas de pobreza, especialmente a infantil, e a inclusão de pessoas com deficiência e incapacidade.

O concelho de Albufeira foi um dos cinco territórios do Algarve (juntamente com Vila Real de Santo António, Lagoa, Faro e Loulé) a beneficiar deste programa (no âmbito do CLDS+), uma vez que foi identificado pelo Instituto de Segurança Social como um território com situações críticas de pobreza, com cada vez mais crianças a sofrerem os impactos da crise.

704 crianças e jovens apoiados pela misericórdia

Nos últimos dois anos, este projeto apoiou 1.903 indivíduos, foram acompanhadas 691 famílias e 704 crianças e jovens. Mas o alcance deste projeto foi ainda mais além, como explica ao JA a coordenadora do Em Contato, Letícia Quintal: “Beneficiários diretos foram cerca de 3.471, contudo, o número é muito mais elevado quando se fala de beneficiários indiretos. Por exemplo, o trabalho com uma criança em termos de consulta psicológica não causará impacto apenas naquela criança, mas sim em toda o sistema familiar e escolar onde a mesma está inserida. Este motivo dificulta a medição em termos do número de pessoas que beneficiaram com este projeto.”

Concluído o projeto, Letícia Quintal faz “um balanço muito positivo que superou todas as expetativas”.

A provedora da misericórdia, Patrícia Seromenho, realça ainda o trabalho de parceria com as entidades locais envolvidas, desde os vários serviços da Câmara de Albufeira, o IEFP, a Segurança Social, os agrupamentos de escolas, o Núcleo Local de Intervenção, a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens, as associações e as empresas, num total de 173 instituições.

Intervenção junto das crianças e das famílias

Para além do afeto e proteção das crianças e jovens, a misericórdia também presta aconselhamento parental, para “dotar os pais de um maior número de estratégias e mais adequadas às necessidades dos seus filhos, procurando o bem-estar de toda a família”.

Patrícia Seromenho explica que o projeto teve por base um “atendimento individualizado, com enfoque na pessoa e no agregado em que a mesma estava inserida, para que fosse percecionada a causa efetiva do problema e inseridas em atividades destinadas às crianças, jovens e famílias, em que o grande objetivo foi a promoção de competências pessoais, sociais e profissionais, visando um enriquecimento da estrutura enquanto indivíduo e família”.

Por outro lado, em termos das empresas e instituições, foi desenvolvido um “serviço específico com base nos apoios à contratação, sendo esta uma forma de fazer com que as empresas pudessem contratar mais pessoas, aumentando a sua produtividade e ao mesmo tempo promovendo a integração profissional e social de indivíduos”.

Projeto Em Contato é para continuar

Terminado o prazo de dois anos do projeto, no passado dia 1 de junho, a provedora da SCMA revela ao JA que o Em Contato poderá ter continuidade, através do programa Portugal 2020, pois está prevista a abertura de candidaturas para uma nova geração de programas CLDS+.

Até lá, a Misericórdia de Albufeira vai assegurar o funcionamento do espaço com algumas atividades que visam a integração socioprofissional dos cidadãos. “Vemos o espaço Em Contato como um recurso, de respostas sociais integradas, indispensável à comunidade”, remata Patrícia Seromenho.

Nuno Couto/JA

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