OPINIÃO

Dia Mundial da Língua Portuguesa

AO CORRER DA PENA | FERNANDO PINTO
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No dia 5 de Maio, a UNESCO celebrou pela primeira vez, o Dia Mundial da Língua Portuguesa! Esperemos que o primeiro de muitos. Estamos todos de parabéns, porque esta celebração é um primeiro passo para que o português passe a ser língua oficial da UNESCO e, de seguida, esperemos, da ONU! Desde sempre me habituei a ver o português em sexto ou sétimo lugar entre os mais falados de 7000 idiomas ainda hoje falados no Mundo. Há, contudo, censos (um censo de 2016) em que o português figura em quarto lugar, com 267 milhões de falantes. Claro que, embora o grosso da coluna venha do Brasil, há também Angola e Moçambique, sendo estes os três mais populosos países de expressão portuguesa. Só depois aparece Portugal, com cerca de 10 milhões de falantes, ou seja, pouco menos de 4 % do total lusófono. E a diminuir…

Surpreendido fiquei também por o espanhol (para nós, castelhano) aparecer já à frente do inglês e posicionar-se hoje como a segunda língua do Mundo atrás (mas a grande distância) do mandarim, idioma maioritário na China, e que foi ele próprio criado no sec. XVI para simplificar trocas comerciais com o exterior, em que os portugueses foram pioneiros. Em resumo, há fontes que consideram que as duas principais línguas ibéricas são hoje a segunda e a quarta potências linguísticas do Mundo!

Mas concentremo-nos no português. No que diz respeito a Portugal, a nossa língua é bastante mais relevante que o próprio país que lhe deu origem, o que faz de nós usufrutuários de uma riqueza por nós criada e disseminada nos 5 continentes, ao longo de cinco séculos. Claro que, nestes cinco séculos, nem tudo foram rosas, e carregamos connosco o fardo de termos sido os grandes usufrutuários do comércio de escravos. Mas haverá que não esquecer que não eram os portugueses que aprisionavam os escravos, e ainda menos foram os portugueses que maioritariamente os utilizaram. Mas desse delicadíssimo assunto tratarei uma outra vez.

Hoje, gostaria de me concentrar nesta celebração. A primeira constatação é que menos de 4 % dos falantes da língua portuguesa são portugueses ou seja, por cada 25 pessoas que no Mundo falam português, só um é efectivamente português. Acho bom que entendamos este quadro, porque isso nos dá de alguma forma a ideia de que o português já não é só nosso, nem sequer maioritariamente nosso. Muito longe disso. Tal aplica-se no que diz respeito a quaisquer (in)desejados acordos ortográficos, ou seja, qualquer decisão sobre como escrever português, já pouco depende de nós, dado o nosso pouco peso no contexto geral. Contudo, sendo nós os falantes originais, temos particulares responsabilidades e especiais deveres, o primeiro dos quais é cultivar o próprio português e sobretudo, praticá-lo. O Português tem de ser praticado, para assumir-se como valor que efectivamente é! Não se entenda isto como uma recusa de novas palavras ou expressões por cá antes inexistentes e oriundas do mundo lusófono, como é o caso de múltiplas expressões brasileiras, que nos vieram através das telenovelas, expressões angolanas cá chegadas sobretudo aquando da descolonização e mesmo cabo-verdianas, que absorvemos através da música e de muitos cabo-verdianos que por cá vivem. Não falo também das palavras que, não existindo na língua portuguesa, são produto da adopção de outros idiomas que as contêm como site para sítio da internet ou de outras internacionalmente consagradas. Falo de muitas outras palavras, expressões ou até nomes que substituem sem qualquer proveito palavras portuguesas que existem.

É uma moda bastante bacoca, em minha opinião, utilizar-se o inglês para tudo, por tudo e por nada, minimizando o português e sobrevalorizando uma língua que é neste momento a terceira do Mundo, atrás do espanhol! Não nego, naturalmente, a relevância do inglês, mas se nós que possuímos uma das línguas mais importantes do Mundo (segundo alguns, logo a seguir a esse mesmo inglês), parece-me desnecessária esta aparente subjugação. Se solipa (dormente de carril) vem de sleeper ou “forró” vem de “music for all” no sotaque brasileiro, também o fetiche francês e inglês vem do nosso feitiço, o vindalo indiano não é mais que a nossa vinha de alhos e o pan japonês não é mais que o pão português!

Aqui se espelham a influencia inglesa no sistema de caminhos de ferro português, ou da música americana no Brasil e daí nenhum mal veio ou vem ao mundo. Do que eu me queixo é de, por exemplo, a Universidade Nova de Lisboa (paga com os nossos impostos) ter uma faculdade que se chama Nova School of Business and Economics cujo site é todo em inglês, e de o inglês estar a substituir cada vez mais palavras que existem na nossa língua e em detrimento dela.

Recordo o uso intensivo da expressão CEO em vez de Presidente Director Geral, que tão bem nos sabe! Há por vezes frases que parecem verdadeiros exercícios de adivinhação, tal é a quantidade de expressões e siglas em inglês! Basta andar na rua ou ler uma revista, para verificar o que digo. A moda inclui nomes de produtos portugueses e mesmo nomes de portuguesíssimas empresas. Em resumo, estamos, por nós, a deixar cair o português em detrimento do inglês.

O problema não será grande, porque o português sobreviverá a este Portugal, dado que nós só contamos para o bolo, como já disse, com 4 %. Agora quanto à forma como o português será entendido, escrito e falado é que deixaremos de ter voto na matéria. Quanto mais deixarmos que o nosso idioma seja invadido sem razão pelo inglês, mais espaço estaremos a dar ao português do Brasil, de Angola, de Moçambique, da Guiné-Bissau, de Cabo Verde, de São Tomé e de Timor porque esses, sim, usam o português em toda a parte e fazem-no valer o que de facto ele vale. Isto, para lá dos luso-falantes de Goa, de Paris e de toda as outras pequenas bolsas onde, por esse Mundo fora, se fala português. E elas existem em mais de centena e meia de países!

Em síntese, parece-me quase irónico que o Dia da Língua Portuguesa seja celebrada numa altura em que o português de Portugal é cada vez mais preterido, no próprio país que o viu nascer. Valham-nos os outros!

Fernando Pinto

Arquiteto

cronicas.fp@gmail.com

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