“É preciso mudar o perfil das nossas estradas”

Neto Gomes foi durante vários anos representante regional da Prevenção Rodoviária Portuguesa e secretário da comissão distrital de Segurança Rodoviária no Governo Civil de Faro. Na sua opinião, o abandono da educação rodoviária, o perfil das estradas algarvias e o fluxo turístico da região fazem do combate à sinistralidade uma missão quase impossível. E nem as obras já realizadas escapam às críticas de Neto Gomes. “O que criaram não foi segurança, nem fluidez de trânsito, foram armadilhas”

< NUNO COUTO

Jornal do Algarve – Os últimos dados da ANSR revelam que, nos primeiros meses do ano, o número de acidentes e de mortes nas estradas algarvias continua a aumentar. Que explicações encontra para este facto?
Neto Gomes – Bem, eu sou um velho nestas coisas, mas creio que o grande problema é que continuamos a tratar a educação rodoviária e a segurança rodoviária como uma moda. A ANSR não diz nada de novo. Com a morte da Prevenção Rodoviária Portuguesa (PRP) foi dada uma profunda machadada naquilo que foi feito ao longo dos anos. Hoje, a educação rodoviária está abandonada. Há vinte ou trinta anos, até empresas como os CTT, EDP, transporte de turistas e outras empresas premiavam os seus condutores, incentivavam uma reeducação permanente. Mas, hoje, essas empresas e outras são os aceleras e, por isso, criou-se o culto do vale tudo. É preciso arrepiar caminho e restaurar a verdade sobre a educação e a segurança rodoviária nas escolas, onde os filhos começavam a reeducar os pais. Todo este setor foi abandonado. Aliás, existiam inclusivamente parcerias com o Ministério da Educação e os professores até recebiam créditos nas suas ações escolares. Mas, atualmente, a carga horária dos professores é tão lata, que já nem têm tempo para ler a ata da aula anterior ou, pior ainda, entrar em projetos de educação rodoviária.

J.A. – Na sua opinião, o que vai mal nas estradas algarvias?
N.G. – O mal é que andamos a jogar às escondidas. Veja o exemplo do troço que começa em Boliqueime em direção a Albufeira, que constroem, depois destroem, depois voltam a reconstruir. E o que criaram não foi segurança, nem fluidez de trânsito, foram armadilhas. E a EN125 está armadilhada, não apenas com radares e sinalética colocada ao deus dará, mas também com centenas de intrusos que fuzilam o ambiente rodoviário, como muitos serviços, vendas de carros, publicidade e outros em cima das bermas. E até os holofotes que as iluminam são terríveis na condução noturna. Depois, o desrespeito dos condutores faz o resto … ou acaba com o resto!

“É preciso arrepiar caminho e restaurar a verdade sobre a educação e a segurança rodoviária nas escolas, onde os filhos começavam a reeducar os pais. Todo este setor foi abandonado”, lamenta Neto Gomes

J.A. – A verdade é que, mesmo depois da conclusão das obras em metade da EN125, a sinistralidade não mostra sinais de abrandamento. Como encara esta situação e que poderia ser feito para melhorá-la?
N.G. – As obras que fizeram não passam de rímel e de batom. Era preciso mais. Mexer em situações instaladas, isto é, alargar a estrada, tornar o trânsito fluido mas seguro, pois as rotundas só por si não ajudam, com a agravante de em todas elas terem colocado, ou estão a colocar, as chamadas obras de arte, que são autênticos muros.

J.A. – Estas obras (que já foram realizadas na EN125) foram bem recebidas pela maioria dos condutores?
N.G. – Por mim falo. Existem muitos obstáculos, como já referi, também porque o conceito de obra, pelo que se viu em Boliqueime e não só, não beneficiou os condutores, que, diga-se, muitos deles também alimentam a falta de civismo, as tais razões de educação rodoviária.

J.A. – A abolição das portagens na Via do Infante é apontada como parte da solução. Concorda?
N.G. – Estamos a falar de coisas diferentes. Abolir as portagens é um ato de justiça. Em Espanha raramente se paga nas autoestradas e muito menos em vias como a Via do Infante. É um facto que a abolição das portagens empurraria muito trânsito para a Via do Infante e tornava a EN125 menos estrangulada, mas sempre perigosa, musculada e sinistra nos seus comportamentos. Mas repito, não podemos, nem devemos, desistir deste direito, que é a abolição das portagens da Via do Infante.

J.A. – O aumento da sinistralidade no Algarve pode ter muitas causas. Mas, no Algarve, parece haver uma maior atribuição de culpas às infraestruturas rodoviárias. Porquê?
N.G. – Creio que o excesso de velocidade, o álcool e o uso de telemóveis são fatores dominantes, todavia, as infraestruras rodoviárias, e tudo o que está a montante e a jusante, numa clara alusão à educação, formação, a começar no pré escolar, são verdadeiros biombos que tapam a visão dos condutores. Queimamos há vários anos um importante ciclo de transformação da sociedade portuguesa, o ciclo da educação rodoviária, com formação e concursos internacionais, com abertura de escolas de trânsito. O Algarve tem três: Lagoa, Albufeira e Tavira. Hoje, não sabemos como funcionam. E antes tinham atividades quase diárias com a passagem de todas as turmas…

J.A. – Considerando o perfil das nossas estradas e do fluxo turístico da região, acha que é possível garantir com eficácia o combate à sinistralidade no Algarve? Porquê?
N.G. – Não. É preciso acentuar a educação e mudar o que chama de perfil das nossas estradas. É preciso reassumir a vontade de mudar e transformar esta vontade em práticas. Creio que a CCDR e as câmaras municipais, a par das forças fiscalizadoras (PSP/GNR), escolas, associação de utentes, escolas de trânsito, clubes motards, o IPDJ de Faro e a Universidade do Algarve podem reassumir o papel da educação e do próprio perfil das nossas estradas. Uma estrada com cem metros não pode ser medida com uma fita que só tem um metro. E os desvios, os enganos, os embaraços começam aqui. Fala-se que, em 2018, se verificaram 40 mortos nas nossas estradas e que, em 2017, foram 30. Pois, se recuarmos uma mão cheia de anos, por exemplo, em 1988, tivemos 20 e, em 1989, seis mortos. O combate não é minimizar, é acabar. Claro que um dos grandes empurrões também passa pelo fim das portagens na Via do Infante e pela educação e civismo que não temos e pela engenhoca dos que cuidam das obras da EN125.

(ENTREVISTA PUBLICADA NA ÚLTIMA EDIÇÃO DO JORNAL DO ALGARVE – EDIÇÃO DE 21 DE MARÇO)

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