ALGARVE REPORTAGEM

Ecopontos: Reciclamos menos que a média nacional

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Objectivamente, o Algarve recicla menos do que devia. Um problema que não é exclusivamente algarvio, mas na região recicla-se ainda menos do que a média nacional. De quem será a culpa? Do residente, do turista, ou de quem deveria dar meios para o cidadão fazer a sua própria triagem caseira e promover campanhas de sensibilização e não as faz? As opiniões dividem-se. O JA foi ouvi-las

O Algarve conta com 3900 núcleos de recolha seletiva de resíduos – os chamados ecopontos -, num total de 12.800 contentores verdes (vidro), azuis (papel) e amarelos (embalagens). Mas os residentes no Algarve, permanentes ou temporários, parecem esquecer que eles existem. Será que são poucos e é problema da Algar, que não os coloca a curta distância da casa de cada um, ou a culpa é do próprio cidadão? A empresa esclarece que colocou, nos últimos dois anos, 1.157 ecopontos novos. Mas um pouco por todo o Algarve surgem queixas de poucos recetáculos e de contentores sistematicamente cheios. Isto é, com recolhas demasiado espaçadas no tempo. Queixas que o JA ouviu esta semana, sobretudo de fontes municipais.

Seja porque for, a verdade é que, de acordo com fonte da própria Algar, a empresa que faz a recolha e tratamento dos resíduos urbanos recicláveis dos 16 concelhos da região, as recolhas seletivas andam pelas ruas da amargura: só 40% do vidro vai parar a ecoponto, os outros 60% são depositados pelos cidadãos no lixo indiferenciado, os vulgares contentores do lixo recolhidos pelos serviços municipais com destino a aterro sanitário. O número, 40%, repete-se no que respeita a papel e cartão e desce ainda mais quando se fala de embalagens: só 20% delas acaba no contentor de ecoponto amarelo, os restantes 80% vão para o lixo indiferenciado.

Os números não andam longe da realidade nacional, mas são ainda piores. Rui Berkemeier, da Associação Ambientalista Zero, tenta pôr o dedo na ferida quanto à especificidade algarvia: “O Algarve é parecido com o resto do País mas tem uma situação que o penaliza: a sazonalidade. As pessoas estão de férias e nas zonas turísticas a adesão das pessoas à reciclagem é menor. É difícil uma pessoa que vem de férias perceber como é que se separa o lixo. Está uma semana e às vezes não está para isso”, enfatiza.

Segundo números da Algar, o peso total das embalagens de vidro recolhidas em 2019 foi de 17,1 mil toneladas (15,7 mil em 2018), o do cartão foi de 14,9 mil toneladas (14 mil em 2018) e o de embalagens de plástico e metal foi de 9,5 mil (8,2 mil em 2018). Números em crescendo, mas que não são ainda suficientes e estão longe das metas previstas para este ano pela União Europeia.

Mas não se pense que todos os resíduos recolhidos em ecoponto acabam na reciclagem. Ou sequer que a recolha para reciclagem se limita aos depósito em ecoponto. As contas são difíceis de captar por um leigo com base nos relatórios da APA e da Sociedade Ponto Verde a que o JA teve acesso, mas podem ser resumidas assim: das 405 mil toneladas de resíduos urbanos produzidos pelo Algarve (em 2018), 280 mil tiveram uma recolha indiferenciada. Cerca de um quarto desse bolo total (103 mil toneladas) foram objeto de recolha seletiva, a maior parte dela através de circuitos especiais, como metais da indústria e pneus. Mas dessas 103 mil toneladas, quase metade (52 mil) acabaram em aterro, antes ou depois de um processo de triagem.

Todavia, das 51 mil toneladas sobrantes, só 38,2 mil é que são efetivamente recicladas. Peso a que se junta uma pequeníssima quantidade de 247 toneladas de resíduos indiferenciados que acabam em reciclagem.

Enfardamento de papel

86% dos nossos resíduos acaba no aterro sanitário
Por outras palavras: sendo a recolha para reciclagem com base no lixo indiferenciado, feito pela Algar, quase despiciente, competiria aos cidadãos utilizarem os ecopontos, eles que “desperdiçam” – literalmente enviam para debaixo da terra – a maior parte das embalagens que utilizam em suas casas. E os recursos do planeta no que respeitas às matérias-primas da maior parte das embalagens são limitados, há que lembrar. O petróleo com base no qual se produz o plástico é finito, o metal não é eterno, as minas esgotam-se, a própria água doce necessária para se produzir uma simples garrafa de vidro é um recurso escasso. E é a consciência dessa não perenidade que escasseia entre os cidadão. Talvez mais do que a água doce no planeta Terra.

Segundo o relatório da APA, em 2018 foram produzidas em Portugal 5.213 mil toneladas de resíduos urbanos, mais 4% do que em 2017. No que respeita ao encaminhamento direto de resíduos urbanos para as principais operações de gestão, em Portugal Continental, verifica-se a seguinte distribuição: 33% para aterro, 25% para tratamento mecânico e biológico, 20% para valorização energética, 10% para valorização material, 10% para tratamento mecânico e 3% para valorização orgânica.

No que respeita ao Algarve, sempre de acordo com o mesmo relatório, das 405 mil toneladas de resíduos urbanos, 86% acabaram no aterro e apenas 14% foram valorizados: 10% na reciclagem e 4% na compostagem. E dos 10% de reciclagem só 28% tiveram origem nos ecopontos espalhados pelas cidades, vilas e aldeias algarvias. Quer isto dizer que só 2,8% das 405 mil toneladas de lixo produzido no Algarve é que acaba no ecoponto. Menos de 7 mil toneladas!

Razão suficiente para o ambientalista Rui Berkemeier considerar que o sistema de recolha com os ecopontos não funciona: “Funcionou muito bem no início, até chegarmos a um patamar de 10, 15, 20 por cento, mas subir esse patamar para as metas europeias, que vão obrigar a reciclar 55% dos resíduos urbanos recicláveis e não recicláveis em 2022, é praticamente impossível”, sublinha, lembrando que, mesmo assim, a meta de 2022 seria para alcançar em 2020, mas foi prorrogada a pedido de Portugal.

Vidro

O biogás e os lexiviantes que se reciclam
A Algar garante que, como coletora e triadora de resíduos para reciclagem está a fazer a sua parte. “Apenas 20% do plástico e metal produzido na região é depositado no ecoponto. O resto está a ir para aterro sanitário. Como é possível pensar que a Algar pode recolher tudo junto?! É impossível, porque quando chegamos aqui à triagem nós ainda temos que fazer mais um trabalho complementar para além do que o cidadão já fez. Além de tirarmos aquilo que lá está indevidamente – por exemplo uma varinha mágica é algo que se pode encontrar no ecoponto amarelo -, temos que depositar os materiais em várias divisórias”.

E é nessa triagem que cerca de metade do que é depositado em ecoponto acaba no aterro sanitário. Já vimos que o que resulta de triagem para ser reciclado é muito pouco: menos de uma tonelada por dia, num conjunto de mais de 1000 toneladas diárias que entram nos dois aterros do Algarve. Mas a separação dos resíduos indiferenciados não acaba na reciclagem: “A nossa cadeia de valor desde que os resíduos entram até que saem eles têm um aproveitamento do princípio até ao fim, ou seja, se há um resíduo verde (podas de jardim) ele é valorizado – é matéria orgânica, não interferia com o processo de aterro mas nós resolvermos aproveitar essa matéria e valorizá-la. Ele é transformado, valorizado e vendido”, afirma Maria João Carolino.

Mas também na produção de biogás: “No que vai para aterro sanitário, o que entra em decomposição permite produzir biogás, através do qual nós transformamos e produzimos energia elétrica, que é injetada na rede nacional”.

Uma ação valorizante que se estende às águas lexiviantes que resultam da decomposição dos resíduos em aterro: “a água preta passa para translúcida, transparente, e é utilizada para rega, lavagem de pisos, viaturas, e parte da água ainda entra no processo de valorização dos resíduos em aterro para ajudar os microrganismos a atuar e a decomporem a matéria”, conclui.

Mas essa ação esbarra, uma vez mais, na pequenez dos números oficiais da própria Algar: na central de produção de energia a partir do biogás do Porto de Lagos, da responsabilidade da Algar, a transformação do biogás em energia elétrica resulta apenas em 17.618 mega-watts anuais (aterro) a que se juntam 2330 Mwh provenientes de biografarás resultante de tratamento mecânico e biológico. Já a produção de água de lexiviantes tratadas confina-se, em utilizações, à lavagem de carros, rega de jardins e lavagem de pisos da própria Algar. Foram 53 mil metros cúbicos em 2019, de acordo com a empresa.

O lobo que guarda o galinheiro
O presidente da AMAL, António Pina, lamenta os índices de reciclagem abaixo da média nacional, que já conhecia, e aponta falhas: “Era preciso haver mais pontos de recolha, e essa é uma das exigência que temos feito à2 Algar nos últimos anos. Esses índices também são abaixo de outras regiões e do que está contratualizado”, observa.

Contudo, ressalva que, “mais do que atribuir culpas a cada um, importa perceber que isto é um desafio de todos. Dos autarcas, da Algar, da região como um todo”.

“As mesmas campanhas, noutras regiões do País, foram feitas a nível nacional, tanto serviram para os algarvios como para os outros. Nós enquanto consumidores temos que mudar a atitude. Não estar à espera que nos lembrem. Temos que passar a ter uma atitude responsável perante o lixo que produzimos. Temos que deixar enquanto produtores de lixo de achar que são os outros que têm que resolver o problema”, observa o líder da AMAL.

Mas o ambientalista Rui Berkemeier aponta o que considera ser uma perversão do sistema: “A Algar cobra às autarquias pelo tratamento do lixo que elas não separam. No entanto, as autarquias não podem fazer nada para diminuir essa fatura, porque não são elas que fazem a recolha seletiva. Não podem fazer campanhas. Ou seja, quem tem a receita do tratamento do resíduo indiferenciado tem também a ferramenta para reduzir essa receita. É o lobo a guardar o rebanho. A empresa tem a faca e o queijo na mão sobre o mercado. E as autarquias não podem fazer nada”.

Para obviar a essa “perversão”, a ecologista preconiza o fim de empresas de gestão de resíduos urbanos a nível regional: “Nós temos pedido ao Governo para retirar a recolha seletiva do que era a antiga Empresa Geral do Fomento e, no caso do Algarve, da Algar. E devolvam isso às autarquias para elas poderem lançar programas de recolha porta-a-porta que lhes permitam reduzir o resíduo indiferenciado e reduzir a fatura que pagam à Al-gar”.

“As autarquias do Algarve devem-se mobilizar para recuperar pelo menos a recolha seletiva. Se tiverem nas mãos a recolha seletiva podem reduzir substancialmente a fatura. Não faz sentido mandar 86% do lixo para aterro! Já se fala da reciclagem há mais de 20 anos e no Algarve ainda estamos com estas taxas?! O Algarve está abaixo da média nacional”, reitera.

Além da passagem para a alçada dos municípios, o ambientalista apresenta mais duas soluções para resolver o problema da reciclagem: a recolha porta-a-porta seletiva, pois, advoga, “o sistema que funciona para atingir taxas de recolha a sério é a recolha porta-a-porta, não só das embalagens como também dos orgânicos, porque se separarmos as embalagens dos orgânicos o que sobra do lixo é muito pouco”.

Por outro lado, sustenta que o porta-a-porta venha a ser complementado com o sistema PAYT (Pay-as-you-throw, em inglês), isto é, pagar em função da produção do resíduo. “Hoje em dia o lixo é pago em função do consumo da água. E este não é um sistema que incentive as boas práticas, porque separe ou não o cidadão paga o mesmo. E hoje já é possível, depois de colocar a recolha porta-a-porta e dos orgânicos, montar esse sistema PAYT”, conclui.

João Prudêncio

Lixo eletrónico: de andas para bolandas

Como tantas vezes acontece em outras casas e empresas, também aqui no jornal chegou a hora de fazer arrumações e nos livrarmos do lixo. E entre esse “lixo” lá estava o inevitável “lixo eletrónico”. Monitores, scanners, impressoras, caixas velhas de toner (enfim, consideremos o toner como “lixo eletrónico”, por agora), tudo ficou amontoado no meio do chão, à espera de solução.

Primeiro tentámos contactar a Ecoambiente, empresa responsável pela recolha do lixo em Vila Real de Santo António. Ninguém atendeu.

Pedimos depois à Junta de Freguesia, que “por especial favor” lá mandou alguém. Que sim, tiravam o “lixo”, mas levavam para aterro. “Para aterro também nós levamos, basta ir ao contentor de lixo indiferenciado, mas acha bem levar para o aterro tanta peça que se pode reaproveitar? E o toner, que é um resíduo perigoso?!”, questionámos nós, do alto da nossa consciência ecológica.

Que não, não tinha jeito. Tudo para o contentor do lixo e em força, ou… nada feito! “Mas deixe lá ver o que é que diz o moço da Ecoambiente. E salta o telemóvel do bolso e dentro dele o mirífico número da Ecoambiente, que daquela vez haveria de dar direito a resposta do outro lado. E deu. E outra vez que não.

“Não fazemos recolha específica de lixo eletrónico. Só monos”, respondeu o da Eco ao da Junta. Nada de tratamentos especiais, com direito a deferências por ser “eletrónico”.

Recusámos, lixo por lixo levamos nós. E por cá ficou, ainda no chão, o “lixo” que nos recusámos a indiferenciar e tratar por “lixo”.

Em desespero, telefonámos à Algar. Bombeiros, era a ansiada resposta. Os bombeiros aceitam, por todo o Algarve. Mas não recolhem. Desloquem-se ao quartel, disseram-nos. Já mais movidos por motivações jornalísticas do que pela resolução do nosso pequeno problema, quisemos saber: “Porque é que ninguém sabe? Porque não divulgam?”.

“Divulgámos há quatro anos, quando foi implementado”, responderam. “A notícia só é notícia quando é novidade, depois deixa de ser”, responderam com todas as letras. Apeteceu-nos dizer que a recolha em ecopontos também não é novidade mas há campanhas para lembrar, pagas e em todas as TV’s. Que no limite a coca-cola é conhecida há mais de um século mas continua a ser “notícia” todos os dias numa rádio ou TV perto de si. Mas achámos que não valia a pena, de óbvio que era. Ficámos assim, com a Algar.

Ah, e quanto ao toner, a que agora com propriedade podemos chamar “resíduo perigoso” (porque o é deveras), fazem receção, nas instalações da Algar. Nenhuma por estas bandas de Vila Real. A mais próxima é em Tavira. Pela leitura da tabela de preços não se percebe se a entrega é ou não gratuita. Seja ou não seja, o gasóleo não é gratuito. E o próprio tempo também não está barato.

Para compor o ramalhete, e ter a certeza de que não ia faltar nada, contactámos a câmara.
Que sim, recebem lixo eletrónico na Soliva, Divisão de Ambiente e Serviços Urbanos, sita na Rua de Angola (entrega autónoma e gratuita, sem limite de itens), nos tais Bombeiros Voluntários, neste caso de de VRSA (entrega autónoma), através do serviço de recolha de monos, agendado e gratuito até 2 itens//mês (que já vimos que não recicla coisa nenhuma), e da recolha dispersa, que não sabemos o que é.

Em qualquer dos casos, esclarece o município, todos os materiais são, inicialmente, conduzidos e depositados na Soliva/Divisão de Ambiente e Serviços Urbanos. “Posteriormente, é feita a sua recolha pela Ecoambiente, que os entrega na estação de transferência de Castro Marim (gerida pela Algar). E, a partir daqui, a Algar assume a condução do processo e encaminha os objetos para valorização e reciclagem”.

E pronto, numa de termos a certeza de que o “lixo eletrónico” vai mesmo para reciclagem, nós que nem somos assim tão novos aqui no jornal, tentamos agora ganhar coragem e forças para levar uns monitores velhos, umas impressoras antigas e uns scaners ultrapassados até à Soliva, ou ao quartel dos bombeiros. Entre todos, talvez tenhamos essas forças.

Mas… como faz um idoso de 80 anos para se desembaraçar de um frigorífico? E quem não tem carro? Não haveria melhor solução?
J.P.

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