EDITORIAL: Ao que chegámos!

F Reis intEditorial de Fernando Reis

A pobreza e a miséria a ela associada, continuam a atingir de uma forma muito particular milhares de algarvios, conforme se dá conta na peça que publicamos nesta edição. E as vítimas não são apenas os desempregados. Cada vez é maior o número de reformados com pensões miseráveis, pessoas com empregos temporários – vítimas da sazonalidade laboral – e gente que perdeu o direito a qualquer rendimento social, a engrossarem esta multidão que tem que andar de mão estendida à caridade.

Atualmente são mais de 1000 famílias algarvias, o equivalente a cerca de 4000 pessoas, que dependem de instituições sociais e das autarquias para poderem comer. Muitas delas, apenas uma única refeição por dia, a que temos que juntar um número crescente de sem abrigos, que ascende já a mais de seis dezenas.

É uma pobreza cada vez mais profunda e complexa que não atinge, apenas, as classes socialmente mais desfavorecidas, mas cada vez mais, também, pessoas da classe média, que viviam bem e que, de um momento para o outro, como consequência da crise económica e das políticas de austeridade se viram desempregadas, sem qualquer rendimento social e perspetivas de regressar, tão pronto, ao mercado de trabalho.

E não falamos só de ajuda alimentar, não fora o apoio de muitos municípios e instituições sociais e nem sequer teriam assistência médica e acesso a medicamentos.

Mas, curiosamente, é o mesmo Estado que destruiu milhares de postos de trabalho, lançou milhares de pessoas para o desemprego, famílias inteiras para a pobreza e eliminou uma série de apoios sociais aos mais necessitados, que gasta, agora, muitos milhões com programas de ocupação de jovens e desempregados, numa política que só contribui para criar mais instabilidade no mercado de trabalho.

É preciso, de uma vez por todos, inverter esta política destrutiva que mais não visava do que acabar com o Estado Social ao mesmo tempo que se injetava – e vamos ver se não se continuarão a injetar – milhões do erário público na banca e noutros sectores da economia, se engordavam meia dúzia de famílias que dominam o país e se vendiam empresas estratégicas ao capital estrangeiro.

Torna-se imperativo, pois, uma alteração deste quadro social, que nos deve envergonhar.

Mais de quarenta anos depois da Revolução de Abril e três décadas de integração europeia, não podemos voltar a ser o país da “sopa dos pobres” e da caridadezinha!

Fernando Reis

 

pub

 

 

 

Tamanho da Fonte
Contraste