REPORTAGEM

Empresa algarvia no pódio mundial da engenharia geoespacial

satelite

Uma empresa de Faro, fundada há apenas três anos por dois jovens ex-alunos da Universidade do Algarve, está a dar cartas na engenharia geoespacial. É a única empresa do mundo daquela área contratada pela Agência Espacial Europeia. E uma das três que fazem aquele tipo de trabalhos, de deteção por satélite através da batimetria. As outras duas trabalham para a NASA

De dois amigos que andavam a tirar o curso de Engenharia Topográfica juntos, nos idos de 2007/2008, Luís e Cláudio tornaram-se, em pouco mais de uma década de amizade e três de sociedade, donos da única empresa do mundo contratada pela Agência Espacial Europeia (ESA) na área da batimetria através de imagens de satélite. No planeta inteiro só há mais duas empresas que fazem o mesmo, ambas contratadas pela norte-americana NASA. Eles, os jovens Luís Sousa e Cláudio Sousa, empresários de Faro, lideram a terceira.

Os dois amigos, hoje senhores de uma empresa com um efetivo humano com mais cinco pessoas, todos eles altamente especializados. Procuram agora um engenheiro geoespacial para completar o painel de especialistas, tarefa que, na região, não está a afigurar-se fácil.

Para já, têm contrato com a ESA até dezembro de 2022. O contrato bianual data de dezembro de 2020. A “LS-Engenharia Geográfica” foi uma das poucas empresas europeias selecionadas no âmbito do ESA Space Solutions, um programa de apoio ao desenvolvimento e crescimento de startups conectadas às tecnologias geoespaciais. O projeto conta com o patrocínio e apoio da Universidade do Algarve.


“Este trabalho consiste na obtenção de batimetria náutica: é um levantamento hidrográfico, mas em vez se ser através de barco e sonar é feito através de imagens de satélite”, disse ao JA o mais novo dos dois empresários, Luís Sousa, 34 anos (Cláudio Sousa tem 45), exemplificando: “Conseguimos detetar corpos de água através de imagens de satélite nos terrenos, como por exemplo barragens, lagoas, tanques, rios e ribeiros. Corpos que estão à superfície se não estiverem cobertos. Estamos a mapear o Globo todo com recurso a satélites”.

Luís Sousa (esq) e Cláudio Sousa (dir) partilham muito mais do que um fortuito apelido comum: a paixão pela engenharia geoespacial

Mapear com uma precisão ao milímetro


No fundo, é uma espécie de Google Maps mais especializado e tentando tirar partido de valias dos satélites que, bastas vezes, estão subaproveitadas: “Há sensores de satélite que atualmente não têm utilidade prática e cabe-nos a nós investigar e encontrar soluções para tirar mais rentabilidade desses sensores, sobretudo na área da batimetria”, explica, enfatizando que a empresa “pode monitorizar estruturas através de imagens de satélite ao milímetro, sem necessidade de ir lá a topografia monitorizar”.


Mas nem só com a ESA esta startup de Faro funciona: A “LS-Engenharia Geográfica” é especializada na produção de cartografia digital, com foco na proteção ambiental terrestre e marítima, e desde 2019, além das parcerias estabelecidas com empresas, universidades e centros de investigação realizou investimentos nas áreas da investigação científica e tecnológica, tornando-se pioneira na Península Ibérica, na criação de novos serviços de observação terrestre com recurso a satélites.

Os dois amigos e o seu efetivo de pessoal têm-se dedicado nestes anos à engenharia geográfica e à hidrografia em múltiplas tarefas para clientes variados. É o caso das obras de dragagem da praia da Fuseta, fechada em parte do verão de 2018. A ideia, posta em execução pelos técnicos da Sociedade Polis Litoral Ria Formosa, era retirar areia do canal de navegação ali existente (que vai assoreando de tempos a tempos dificultando a passagem de embarcações entre a Ria Formosa e o mar) e realimentar a praia com a matéria dragada dos dois lados do istmo de areia. “E isso foi feito com o nosso apoio hidrográfico, para possibilitar o reposicionamento, tirar areia do mar para colocar na praia. Foi tudo feito com o apoio da hidrografia e da deteção remota, que serviu para se controlar de onde se retirava a areia, para não retirar em demasia. A empresa Sofareia ganhou a empreitada e nós fomos subcontratados”, enuncia Luís Sousa.

Saída para um trabalho de campo de uma equipa do LS-Engenharia Geográfica

A importância de um engenheiro hidrógrafo


Mas não se fica pelas valências hidrográficas a algarvia “LS Engenharia Geográfica”: tem agora em curso, por exemplo, um projeto com a Autoridade Nacional de Proteção Civil e a Agência Portuguesa do Ambiente, que consiste em, dentro da deteção remota, fazer análise de vegetação para detetar áreas queimadas, áreas de elevado risco de incêndio e da erosão costeira. Sempre com o auxílio dos satélites.


Mas trabalham também com entidades nacionais como a Docapesca, DGRM (Direção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos), EDP, Santuário de Fátima, Águas do Algarve, Administração dos Portos de Sines de Do Algarve, João Cabrita – Arquiteto, Geostuding, Mota-Engil e Tecnovia. Sobretudo, até hoje, para auxiliar nos trabalhos de dragagens marítimas e na criação de sistemas de informação geográfica específicos, ao serviço agora de várias empresas.

“Não somos uma empresa de topografia, somos uma empresa na área da Engenharia Geográfica especializada na obtenção de informação através de satélite, tanto em cartografia náutica e como temática”, salienta Luís Sousa, refutando a ideia de que a engenharia geográfica é sinónimo de topografia: “É muito mais do que isso. E se 95% das outras empresas se focam na topografia, nós estamos 30% na topografia. Nós trabalhamos muito na Geodesia, Hidrografia, Deteção Remota e Sistemas de Informação Geográfica.

As valências do seu companheiro de aventura Cláudio, que, além da licenciatura em engenharia topográfica na Universidade do Algarve tirou o curso de engenheiro hidrógrafo (em 2016, quando se licenciou, era o único português não militar com aquele curso do Instituto Hidrográfico Português, sendo este um laboratório do Estado, integrado na Marinha Portuguesa, que se dedica às ciências e tecnologias do Mar). Além disso, já teve experiência internacional no Brasil, na área da engenharia geográfica, pelo que se revela fundamental para o trabalho da dupla.

Começar já com uma carteira de clientes


“Mal tirámos o curso [de engenharia topográfica] começámos a trabalhar na área, eu na topografia/engenharia e o Cláudio andou na parte do cadastro predial e nas obras marítimas do Polis Ria Formosa, hidrografia. Nós somos engenheiros geógrafos. Ele é também engenheiro hidrógrafo e mestre em geomática”, precisou, avançando que a ideia da empresa lhes cintilava nas ideias muito antes de decidirem avançar, em 2018.

Hoje, quase três anos depois dos primeiros passos como empresários, detêm todo o equipamento com que operam, à exceção dos satélites. “Todo o equipamento é nosso: GPS, sondas, estações totais, barco. Temos um marégrafo que será instalado ainda este mês, que vai permitir medir o nível médio das águas do mar com possibilidade da visualização dos dados de maré, em tempo real, no nosso site. Vamos ligá-lo, no porto comercial de Faro, um caso único no Algarve, pois os outros são do Instituto Hidrográfico da Marinha”, assinala o empresário.

Com sede atual numa incubadora de empresas situada no pólo de Gambelas da Universidade do Algarve, a startup deseja, num futuro próximo, deslocar-se para um acelerador de empresas a instalar também na UAlg mas no campus da Penha.

São já um caso de sucesso e reconhecem-no: “Quando começámos a empresa já tínhamos clientes, não foi preciso investidores. Montámos a sociedade e começámos a trabalhar”, diz Luís Sousa, para quem é importante agora “crescer com os pés assentes na terra, mas do espaço a projetar a Terra”.

Joao Prudêncio

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