ALGARVE ENTREVISTA REPORTAGEM ÚLTIMAS

Era magnata do petróleo. Agora produz o melhor vinho do Algarve

Em 1989, Karl Heinz Stock foi cofundador do grupo russo STT, ligado aos setores do petróleo e imobiliário. Vendeu tudo em 2006, para se mudar no ano seguinte para o Algarve
Em 1989, Karl Heinz Stock foi cofundador do grupo russo STT, ligado aos setores do petróleo e imobiliário. Vendeu tudo em 2006, para se mudar no ano seguinte para o Algarve

O alemão Karl Heinz Stock rumou há oito anos para a região algarvia porque queria mudar de vida. Este antigo empresário do ramo dos combustíveis e do imobiliário, que fez fortuna num dos maiores grupos económicos da Rússia, comprou em 2007 a Quinta dos Vales, no concelho de Lagoa, e lançou-se na produção de vinhos. O projeto resultou em cheio e, atualmente, a quinta de Karl é uma das mais bem sucedidas do país. Há poucas semanas, conquistou o título de “O Melhor Vinho do Algarve” pelo terceiro ano consecutivo e um dos néctares foi nomeado como “um dos melhores vinhos de Portugal”. No dia seguinte, chegou uma reserva da Suíça para levar o resto da produção! Em entrevista ao JA, o empresário alemão garante: “Deem-nos alguns anos e nós vamos atingir a mesma posição do Alentejo e chegar perto do Douro”

 

Jornal do Algarve – Há três anos que “carrega o fardo” de manter a Quinta dos Vales no cume do prestígio dos vinhos algarvios (vencedor do “Melhor Vinho do Algarve”). Como chegou a este patamar?
Karl Heinz Stock – Uma pergunta muito importante, mas também de fácil resposta. Dedicação à qualidade sem compromissos. Quando comecei, há oito anos, declarei a minha intenção de criar uma das melhores, se não a melhor adega do Algarve. Por saber que alguns dos meus colegas e competidores eram já sérios produtores, tive que lutar pela qualidade absoluta para atingir o meu objetivo. Obviamente, isso teve um custo. Tivemos que fazer a escolha entre quantidade e qualidade, escolhendo a segunda, o que no final reduz a produção possível em cerca de 60%. Isto deve-se não só a cortarmos, a poucas semanas da vindima, um grande número de cachos quase maduros das videiras, mas também ao duplicar a mão-de-obra na mesa de escolha, onde são detetadas e removidas uvas verdes ou danificadas e folhas, e ainda reduzindo a relação de litros por quilo de uva e várias outras medidas. Pequenas ações que se resumem a tempo ou quantidades menores e são convertidas em qualidade.

J.A. – Recordo-me que, logo na primeira entrevista, disse ao nosso jornal que queria produzir o melhor vinho português em Lagoa, assim como garantir o Algarve na lista das melhores regiões vitivinícolas. Qual a situação do vinho algarvio neste momento?
K.H.S. – Espero não ter realmente afirmado que pretendia produzir o melhor vinho de Portugal na minha adega. Certamente adorava consegui-lo. Mas, vista a qualidade dos melhores vinhos portugueses, seria uma tarefa quase impossível. Aquilo que tenho tentado atingir é chegar ao ponto em que os meus vinhos estejam no grupo maior dos melhores vinhos de Portugal.
Devo dizer que o primeiro passo já foi atingido. Há poucas semanas, a Revista de Vinhos nomeou o melhor do Algarve do ano passado, o “Grace Vineyard” 2009 tinto, como um dos melhores vinhos de Portugal.

J.A. – O que distingue a Quinta dos Vales das outras quintas? Qual é a capacidade de produção anual?
K.H.S. – A Quinta dos Vales foi criada como uma adega “boutique”. A nossa produção máxima anual é de 130 mil litros, com a produção média atualmente a rondar apenas os 100 mil litros. Tentamos diversificar ao máximo os vinhos, contando de momento com seis tintos, nove brancos e quatro rosés. Neste contexto, tentamos produzir um número limitado de “blends”, produzindo monocastas sempre que possível.

J.A. – Qual é o segredo para produzir vinhos de eleição? Os solos, o clima, as castas…? O que procura num bom vinho?
K.H.S. – Naturalmente que as castas têm que estar adaptadas ao “terroir”. Não podemos contrariar a natureza, mas sim cooperar com ela.
Não podemos responder à questão sobre vinhos bons ou vinhos maus, pois lutamos apenas por produzir vinhos acima da média. Isto acarreta custos também para o consumidor, custos que o mercado nacional não consegue cobrir. É por isso que as nossa gamas de entrada e média não conseguem render no mercado local. Compensamos isto com vendas em mercados financeiramente mais saturados como a Alemanha e Suíça.

J.A. – Que reflexos da sua personalidade têm os seus vinhos?
K.H.S. – Simples: a busca pela perfeição.

J.A. – Quanto custa o melhor vinho do Algarve 2015, o “Grace Touriga Nacional 2011”? E quantas garrafas vai colocar no mercado (nacional e/ou estrangeiro)? Onde podemos encontrar este vinho à venda?
K.H.S. – O custo normal na nossa loja na quinta e no retalho é de cerca de 14-15 euros por garrafa. Infelizmente, ou felizmente para nós, também outros identificaram a qualidade deste vinho. Logo após a competição, todo o restante da produção foi comprada por uma empresa suíça. Algumas garrafas podem, no entanto, ser encontrados em restaurantes selecionados, mas também na minha coleção.

J.A. – Como se sente na pele do criador do melhor vinho algarvio?
K.H.S. – Muito orgulhoso da minha equipa dedicada.

J.A. – Por que é que, em geral, os vinhos do Alentejo são os preferidos dos consumidores portugueses?
K.H.S. – Os vinhos do Alentejo são fáceis de beber e não são muito caros devido às altas produções. Gostaria, no entanto, que mais restaurantes algarvios virassem a sua atenção para os vinhos locais. Só em conjunto podemos lutar contra a recessão.

J.A. – A vinha e o vinho evoluíram muito no Algarve nos últimos anos. Mas parece que a região ainda anda à procura do seu perfil, isto é, ainda não tem uma identidade tão vincada como a que se encontra no Douro e Alentejo. Concorda? E porquê?
K.H.S. – O Algarve foi, no passado, mais indústria de vinhos padrão do que um produtor de vinhos de qualidade. Ambos os sentidos têm o seu direito de existir, mas desde que as produções industrializadas do novo mundo inundam os mercados mundiais com produtos muito baratos e de bom paladar, os antigos produtores em massa do mundo antigo tiveram que tomar a decisão de encerrar ou entrar numa produção de qualidade. Esta última foi o que sucedeu no Algarve. Deem-nos alguns anos e nós vamos atingir a mesma posição do Alentejo e, se tudo correr bem, podemos até em mais alguns anos chegar perto da do Douro. No entanto, acho que os verdadeiros grandes vinhos tintos serão também no futuro produzidos no Douro. Alguns “terroir” dessa região são simplesmente imbatíveis. No entanto, iremos tentar.

J.A. – Tendo nascido na Alemanha, pode esclarecer melhor esta questão: quando os portugueses dizem que temos os melhores vinhos do mundo, isso é uma pontinha de nacionalismo ou é verdade?
K.H.S. – Como um produtor de vinho, não me vejo como um alemão mas um produtor de vinho português. E sim, acho que os vinhos portugueses lideram a qualidade e diversidade no mercado mundial. Digo isto pela qualidade média da produção nacional ser melhor que a média de outros países. Existem no mundo vinhos muito melhores, produzidos em excelentes “terroir” por enólogos extraordinários. Mas, em média, sim Portugal.

J.A. – Mas, quando chega lá fora, a Paris ou a Berlim, e fala com os compradores e importadores, nota que já existe um maior reconhecimento dos vinhos do Algarve?
K.H.S. – Lentamente. Menos os algarvios, mas sim os vinhos portugueses em geral.

J.A. – Como se deve comunicar e vender o vinho algarvio ao consumidor? E a relação preço-qualidade, como avalia?
K.H.S. – A relação qualidade-preço é certamente um fator muito importante. Como já indiquei acima, estamos realmente a vender o nosso vinho no Algarve sem lucro. Compensamos isto com vendas mais rentáveis na exportação e com as outras atividades que temos na Quinta dos Vales, especialmente casamentos e eventos culturais.

J.A. – Se tivesse de escolher apenas uma palavra para descrever um grande vinho, qual escolheria?
K.H.S. – Eu não me considero como um grande especialista de vinho. Um grande vinho certamente tem que ser um vinho honesto, de preferência não loteado mas um monocasta, o resultado combinado da natureza e as habilidades do enólogo.

J.A. – Sobre a sua “cruzada” contra a burocracia, iniciada em janeiro de 2013, qual foram os resultados práticos? Está desiludido com o sistema fiscal em Portugal?
K.H.S. – Não existem verdadeiros resultados práticos. Isso também não era esperado. A ideia era iniciar um processo de “brainstorming”, tanto no plano político como a nível administrativo. É um facto que o sistema administrativo em Portugal ainda está no meio do século passado. Se não conseguirmos mudanças, seremos sempre menos produtivos do que outros países. No entanto, eu poderia apenas iniciar este processo. Alguém português, mais jovem, precisa de pegar e dar seguimento. Poderei, então, ajudar em questões estratégicas.

J.A. – Para além dos vinhos que faz, tem outros projetos que gostaria de concretizar?
K.H.S. – Sim, estou envolvido em várias outras indústrias, mas concentro o meu trabalho diário no desenvolvimento do nosso negócio de vinhos. Nas demais áreas, trabalho apenas como conselheiro em questões estratégicas.

J.A. – Qualquer outro comentário, declaração ou tema será bem-vindo…
K.H.S. – Gostaria de destacar a importância de iniciativas como o “Concurso de Vinhos do Algarve”, que vêm dar visibilidade e contribuir para o reconhecimento dos vinhos do Algarve no panorama nacional. A antecipação da data da edição deste ano veio contribuir fortemente para os esforços de vendas dos produtores locais, disponibilizando meios de marketing e promoção antes da chegada do verão.

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Quinta dos Vales conquista título “O Melhor Vinho do Algarve” pelo terceiro ano consecutivo

A Quinta dos Vales manteve o título de “O Melhor Vinho do Algarve” pelo terceiro ano consecutivo. A distinção aconteceu no final de maio, na oitava edição do “Concurso de Vinhos do Algarve”, sendo que além deste prémio, a quinta localizada em Estômbar também arrecadou a “grande medalha de ouro”.
O júri foi composto por especialistas altamente conceituados da área dos vinhos, muitos deles detentores de prestigiantes títulos, tais como Bruno Antunes, que ganhou inúmeros prémios “Sommelier do Ano”, e António Lopes, escanção chefe no “Conrad Algarve” e atual “Sommelier do Ano”.
Na curta história desta competição, a Quinta dos Vales já ganhou a distinção máxima por quatro vezes, inclusive nos últimos três anos consecutivos, com os vinhos “Marquês dos Vales” a entusiasmarem os conhecedores de vinho, tanto profissionais como amadores.
Em 2015, o “Grace Touriga Nacional” 2011 foi selecionado como “O Melhor Vinho do Algarve”. O prémio trouxe reconhecimento imediato dentro e fora de Portugal, com a quantidade restante deste vinho a ser reservada nos dias seguintes por uma garrafeira suíça.
“Julgando pela reação destes profissionais, parece que estão preparados para compreender esta nova tendência e apreciar os vinhos únicos que estão a ser produzidos no Algarve por nós e pelos nossos coprodutores”, afirmou Karl Heinz Stock, frisando que a sua equipa está focada na qualidade para conquistar mais prémios e prestígio a nível nacional e internacional.

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Uma quinta histórica no centro da região

Praticamente no centro do Algarve está situada uma quinta histórica produtora de vinho e fruta. Trata-se da Quinta dos Vales, em Estômbar, concelho de Lagoa, que foi adquirida em 2007 pelo empresário alemão.
Neste curto espaço de tempo, Karl Heinz Stock investiu milhões de euros para revolucionar por completo a propriedade de quase 50 hectares, transformando-a num local onde a agricultura e o turismo convivem sem se agredirem.
Para além da aposta na vinha e nos vinhos, a arte e a natureza também desempenham um papel muito importante na Quinta dos Vales. O empresário alemão, que também é autor de algumas das dezenas de esculturas espalhadas pela propriedade – algumas com quatro metros –, adaptou uma quinta completamente virada para a agricultura e a produção de vinhos, numa unidade moderna de turismo rural.

Vinhas

As vinhas na Quinta dos Vales estão implantadas em 18,36 hectares, onde as primeiras plantações remontam a 1998. Após a chegada de Karl Heinz Stock, em fevereiro de 2007, a estratégia de vinho mudou e alguns talhões de vinha foram reconvertidos.
A poda ocorre geralmente entre o final de dezembro e meados de fevereiro, sendo a poda de talão a técnica utilizada. A poda verde é normalmente feita em abril, com podas para remover excesso de brotos que decorrem até junho.
Em junho, o número de cachos de uva por planta é reduzido de forma melhorar a qualidade dos cachos remanescentes.
A colheita inicia-se logo nos primeiros dias de agosto e dura até finais de setembro.
O rendimento chegaria facilmente a 12 toneladas por hectare, no entanto, para obter uma maior qualidade, a equipa da Quinta dos Vales reduziu o rendimento das vinhas a apenas cerca de 4 toneladas por hectare.
Já a adega foi totalmente renovada em 2007 e está equipada com avançado equipamento moderno. A cave de estágio está equipada com as melhores barricas de carvalho francês.

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Nuno Couto/JA

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