REPORTAGEM

Estalou a Guerra do Abacate

Abacate 1int

No Algarve, o abacate ocupa atualmente 1850 hectares de terrenos. Mas bastou uma polémica em torno de escassos 128 hectares, no concelho de Lagos, para que voltasse a rebentar a “guerra do abacate”, um conflito em ebulição mas até agora semiadormecido na pacatez dos costumes regionais. Com a falta de água na região como pano de fundo, a guerra está agora ao rubro. O JA ouviu esta semana os dois lados da barreira

Para 15600 hectares de citrinos há 1850 de abacates

A tampa saltou quando o projeto da empresa Frutineves, nas freguesias de Luz e Bensafrim e Barão de São João, passou à fase de consulta pública, no início de dezembro, por via da junção de 52 hectares aos 76 que já detinha. “Se se tivesse circunscrito aos 76 não seria preciso uma nova DIA [Declaração de Impacto Ambiental], que aliás já tinha sido dada pela APA [Agência Portuguesa do Ambiente], mas como plantou mais 50 hectares, em terreno contíguo, foi precisa uma nova DIA”, disse ao JA fonte ligada ao processo.


O verniz estalou e o caso acabou, em finais de março, na Assembleia da República, onde os deputados chamaram o responsável máximo da DRAP (Direção Regional da Agricultura e Pescas), Pedro Monteiro, e onde o próprio presidente da APA, Nuno Lacasta, revelou que tinha dado parecer desfavorável à exploração de Lagos. Motivo: colocar em risco o consumo público da região, ainda que o abastecimento se circunscreva a dois furos da própria exploração. Ainda não há decisão final sobre a DIA, que está a ser coordenada pela CCDR/Algarve.


Mas há uma questão formal que releva para lá da alegada depauperação dos lençóis freáticos. Uma questão formal, mas essencial, do ponto de vista dos ambientalistas: a plantação está a decorrer, mesmo antes de haver decisão final quanto à DIA. “Aquilo é uma plantação ilegal que está a decorrer à frente dos olhos de toda a gente e ainda não foi tomada uma atitude. A atitude correta seria a renaturalização. Trata-se de uma zona onde não há água, não é suficiente, estamos a pôr em risco a própria população. a barragem que fornece aquela zona [Bravura] não tem água”, sustenta, ao JA, a presidente da Quercus Algarve, Cláudia Sil.


Posição sufragada pela vice-presidente da Almargem, Anabela Santos: “É uma coisa inédita, que foi um projeto que está em avaliação de estudo de impacto ambiental, de abacates, mas já com o projeto instalado”. Recordando o chumbo não vinculativo da APA, a que se junta o da própria Almargem, a ambientalista questiona: “Agora, se for chumbado, o que vai acontecer? Vai-se arrancar o pomar? E os danos que já lá estão feitos? Os trabalhos não pararam, arrancaram sobreiros sem poderem!”.

Anabela Santos, vice-presidente da Almargem


Com a Quercus a defender a renaturalização e a Almargem a questionar sobre danos irreversíveis, o especialista em fruticultura Amílcar Duarte mostra-se crítico das posições dos ambientalistas: “A agricultura intensiva no concelho de Lagos resume-se àqueles 128 hectares e mais 70 de outro proprietário de abacates. Tem pouca vinha, tem serra, montado, pinheiro. Dizer que no concelho de Lagos há uma intensificação da agricultura é uma barbaridade! Não faz sentido estar a falar de intensificação da agricultura num concelho de floresta e terrenos abandonados”, observa o professor da Universidade do Algarve.


Garante que, se não tivesse sido um só agricultor a plantar 128 hectares, mas um a plantar 60 e outro 70 ao lado estaria tudo legal, “pois não chegariam à dimensão de obrigação de estudo de impacto ambiental”.


“Noutros concelhos temos manchas de 300 a 400 hectares praticamente contíguos, que não são dos mesmos proprietários. Mas do ponto de vista agronómico faz-me pouca diferença que sejam do mesmo agricultor ou não”, salienta, recordando que a polémica teve origem num movimento de moradores vizinhos “que se sentiu incomodado com os abacateiros como se teria sentido incomodado com uma vacaria, ou citrinos. Eles queriam viver numa zona de paisagem abandonada e confortáveis ali”.


Ao contrário da APA, a DRAP emitiu um parecer favorável à exploração de Lagos, embora com recomendações e reparos, revelou por seu turno o diretor regional da Agricultura, recordando que emitiu um parecer favorável aos primeiros 76 hectares. “Ele [o proprietário] para além dessa área ainda fez mais. Agora, para o remanescente da área, a água disponível no aquífero provavelmente não chegaria, em função dos níveis de precipitação no Algarve. Recomendámos que ele utilizasse fontes alternativas de água, nomeadamente a ETAR da zona, e explorar a possibilidade de ir buscar água à Associação de Regantes do Alvor”, disse Pedro Monteiro ao JA.

Claudia Sil, presidente da Quercus Algarve

“Queremos um Algarve com abacates e sem água?”


A questão de Lagos veio reacender uma guerra que se instalou nos últimos anos em torno do alegado consumo excessivo de água por parte dos abacates. Os ambientalistas estão na primeira linha da batalha: “Não temos nada contra o abacate exceto o facto de estar a ser cultivado num sítio onde não há água”, jura Cláudia Sil, da Quercus, recordando que no Algarve o abacate não é uma planta autóctone, é tropical, e que consome muita água e ao longo da evolução adaptou-se a sítios que têm muita água, pois as plantas desenvolvem estratégias de adaptação aos locais onde estão”. 


“A questão é que nós aqui temos um clima mediterrânico que tem evoluído ao longo das últimas décadas como era previsto, para uma zona mais desertificada e com menos água reservada e está cada vez mais afastada daquilo que são as características daquela planta. No Algarve seria conveniente que tivéssemos plantações adaptadas ao clima, autóctones. O que não é o caso”, opina a ambientalista, questionando: “Que Algarve é que se quer? cheio de abacates e sem água?”.


O diretor regional da Agricultura reconhece que o abacate é uma cultura exigente em água, como qualquer cultura de regadio num clima mediterrânico. Mas contrapõe que o consumo do abacate é apenas “ligeiramente superior aos citrinos” E concretiza que o consumo de água pelo abacateiro oscila entre 5500 e 7000 metros cúbicos por hectare. Na laranja o limite inferior é igual ao do abacate, mas o superior só vai até 6500. De 6500 para 7000 são seis por cento de diferença. “É uma diferença residual! Nós temos duas outras culturas, o amendoal e o nogueiral regados, que têm consumos superiores ao abacate”, compara o responsável máximo pela agricultura na região. E continua a argumentar com números, enfatizando que, dos 136 milhões de metros cúbicos de água que a agricultura consome no Algarve (cerca de 57% do total de água consumida na região), os citrinos e abacates representam 75% desse volume. Mas os abacates só são responsáveis por 6 ou 7%. Afinal, os citrinos dominam 15.600 hectares dos 550 mil hectares do Algarve. Mas os abacates representam apenas 1.850, pouco mais de 10% da área dos citrinos.


Segundo Pedro Monteiro, um pomar de citrinos produz 30 a 35 toneladas por hectare, nalguns casos pode ultrapassar as 70. Em 2019 chegámos às 380 mil toneladas. Mas em contrapartida o abacate só produz 12 toneladas por hectare. “E como a maioria dos pomares são jovens temos uma produção total no Algarve à volta das oito ou 9 mil toneladas. Compare com as quase 400 mil toneladas de citrinos!”.

Pedro Valadas Monteiro, diretor regional da Agricultura

“Ataque” ao abacate deve-se ao seu crescimento acelerado


O professor universitário Amílcar Duarte garante, por seu turno, que a diferença entre os consumos de água do abacate e da laranja não excede os 10% e pode ainda ser menos, dependendo do tipo de rega. “O abacateiro precisa de mais um pouquinho de água, mas tolera menos mais água, se houver rega a mais. Nos citrinos temos maior heterogeneidade de métodos de rega. Há situações muito otimizadas, controladas, mas outras de menos. Em 2010 as culturas permanentes com rega localizada (pelo menos rega gota a gota ou microaspersão) no País tínhamos 89,6% dos pomares com rega localizada. No Algarve essa percentagem era de 95,5%, ou seja mais elevada”.


Amílcar Duarte, contudo, assevera que a diferença nos métodos de rega não faz do abacate necessariamente “mais poupado” em água apenas porque a tecnologia de ponta se encontra disseminada pelos quase 20 mil hectares de plantações. Mais recentes, 100% das plantações de abacate têm tecnologia moderna de seca enquanto há citrinos que não são de rega localizada. “Mas nos citrinos a rega tradicional é insignificante, eu só conheço dois casos, embora haja mais alguns”. E Amílcar Duarte compara os 95,5% algarvios com outros países: em Espanha 83,8% e em Itália uns ainda mais modestos 63%.


Mas os ambientalistas chamam a atenção para o problema de fundo, que – dizem – é independente dos métodos de rega: a falta de água. “O abacate cresce aqui por causa da temperatura, mas não temos a água. Dizer que o clima do Algarve é bom para o abacate não é verdade. Não tem clima. Porque não tem água”, enfatiza a dirigente da Quercus.


Amílcar Duarte tem a resposta pronta: “Não sei em que mundo vive essa gente! Qualquer planta gasta uma barbaridade de água! Querem que as plantas vivam sem água?! Uma planta nutre-se com a água que corre entre as raízes e as folhas e através dessa circulação de água os nutrientes sobem para a planta. E essa água depois é evaporada pelas folhas. Não se pode dar a volta a isso, só se se matar tudo!”.


Mas os argumentos dos ambientalistas não passam só pela a falta de água, nem pela opção entre abacate e laranja: “Aqui não se trata de ser a cultura A, B, C ou D. O problema aqui não é o que é mais sustentável: é o abacate ou a laranja? Isso é deitar areia para os olhos. Se for em modo intensivo o problema é o mesmo”, afirma Anabela Santos, para quem o problema está, mais do que na falta de água, precisamente na intensidade da cultura. “O problema neste momento é que as culturas estão a subir para o barrocal. Há várias espécies que não estavam ameaçadas e neste momento estão com estatuto vulnerável no barrocal algarvio. O barrocal não era tão apetecível a nível agrícola devido à despedrega [retirada de pedras], que é cara, as plantas que lá existem até agora não tinham tido grandes problemas. Neste momento, já há até algumas plantas que eles ponderam que se possa vir a ter predestinação, porque a agricultura intensiva está neste momento a subir para o barrocal. Isto tem dois temas centrais: O primeiro tem a ver com os sítios onde estão a ser instalados e o outro tem a ver com modo de produção intensivo. A água, para se infiltrar, precisa também do barrocal, temos os aquíferos”, destaca, sublinhando que a “guerra” ao abacate – e não à laranja – se deve à necessidade de prevenir novas culturas pois, ao contrário dos citrinos, o abacate está em crescendo acelerado.

Amílcar Duarte, professor universitário, especialista em frutícultura

Ambientalistas criticam problema e alegada solução


Sobre as críticas de alguns ambientalistas aos métodos mais intensivos, Amílcar Duarte é duro: “Quando eu vir uma pessoa dessas manter uma área significativa de pomar de sequeiro no Algarve e a viver disso e criar emprego, eu direi ´vamos para essa opção, porque é possível’”. Se chove menos as culturas do sequeiro, que vivem com água, quanto mais calor e menos chove mais problemas temos com a agricultura de sequeiro. Há uns anos atrás dizia-se da agricultura de sequeiro que as pessoas morriam de fome”. E vai mesmo ao ponto de desafiar os críticos dos abacates a defenderem o fim de barragens agrícolas: “Porque não defendem que se acabem com as barragens do Algarve? Nós quando fazemos uma captação de água ou alteramos alguma coisa no ambiente, se fizermos em sentido inverso também tem impacto! Quantos bichos e plantas iriam morrer se se acabasse com as barragens?!”, questiona.


Do lado das empresas, Tomás Melo Gouveia tem 160 hectares de abacateiros distribuídos entre Faro e Vila Real de Santo António, onde são produzidas cerca de 800 toneladas anuais de abacate. Toda a sua produção vai para Espanha, onde uma empresa com sede em Málaga, a Trops, faz a recolha e distribui pelos mercados espanhol e europeu, explicou o produtor, que instalou o seu primeiro pomar em 2010 na Campina de Faro e desde logo contratualizou com os espanhóis, pois “na altura o abacate não tinha quase procura em Portugal, víamo-nos aflitos para vender, só havia um comerciante que comprava isso e vendia num mercado em Lisboa”.


Hoje, a Trops trabalha com cerca de 2 mil produtores de Portugal e Espanha e é responsável por boa parte da produção europeia, confinada ao sul do Mediterrânio.


Aliás, o mercado europeu do abacate cresceu exponencialmente nos últimos anos devido, em grande parte, a alguns destes gigantes. O produto que outrora era importado exclusivamente da América Latina e tinha que ser colhido ainda em verde, pois viajava semanas entre os dois lados do Atlântico, é agora colhido em estado maduro e leva poucas horas a chegar aos mercados consumidores, com destaque para o centro e norte da Europa. Vai de camião ou avião.


Adepto das fórmulas escolhidas em sede de Plano de Requalificação e Resiliência (PRR), Tomás Melo Gouveia acredita no futuro da produção de abacate no Algarve precisamente devido à futura captação de água do Guadiana. “A administração pública tem de começar de deixar de pensar em quatro anos e pensar em 15 anos. Se nada se fizer este problema vai atingir o Algarve. Temos de aumentar a nossa capacidade de retenção da água quando chove. Temos de a reter para a podermos utilizar quando chover menos. Tem de ser gasta eficientemente. O Governo tem de investir neste sentido, para mitigarmos o problema da água. Concordo perfeitamente com a captação de água no Pomarão”.


Mas o empresário insiste que o abacate tem lugar cativo no Algarve: “Não é possível fazer abacate em muitos sítios por causa do clima frio. O Algarve tem essas condições e está-se a tentar cortar uma oportunidade aos agricultores, que é altamente prejudicial. O focus do problema está completamente errado. As pessoas estão a falar que as culturas estão a gastar muita água. As culturas de regadio gastam água, sejam elas quais forem, mas a água que existe tem de ser gasta de uma forma eficiente e ser bem gerida”.


Mas se, para produtores e especialistas, a solução de captar água do Guadiana é viável, para os ambientalistas não. Uma organização de que fazem parte a Almargem e a Quercus, a PAS (Plataforma Água e Sustentabilidade), critica a prevista captação de água do Guadiana e o transvase para o sistema Odeleite-Beliche, ainda que essa captação só implique a diminuição de 3% do caudal. “O rio não tem caudal, traz problemas graves depois a jusante. E esse número, os 3%, é variável porque o caudal varia ao longo do ano. Por outro lado, a solução está sujeita a negociação, não há qualquer garantia de que vá acontecer. Como ambientalistas, não nos esquecemos que o trajeto [por tubo] para Odeleite passa um parque natural e é preciso pensar nisso”, argumenta Cláudia Sil, acumulando as críticas ao problema com críticas à sua aparente solução.

João Prudêncio

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