POLÍTICA

Estrangeiros inundam listas eleitorais algarvias

São muitas dezenas e estão disseminados pelas listas dos vários partidos candidatos às autárquicas de 26 de setembro. Quase todos nascidos fora de Portugal, alguns são estrangeiros, outros com dupla nacionalidade. Alemães, brasileiros, venezuelanos, cabo-verdianos, fazem das listas partidárias portuguesas a sul do Caldeirão uma autêntica Torre de Babel. O JA foi descobrir quem são estes “estrangeiros” nas listas de partidos portugueses. E descobriu de tudo: de velhos amigos da política a outros, que desconhecem o lugar em que vão na lista…

O fenómeno não é novo, mas ocorre cada vez com mais frequência e este ano com uma inusitada incidência: as listas de candidatos às autárquicas no Algarve estão pejadas de não portugueses, gente de várias no mundo que, por uma circunstância ou outra, pode concorrer às eleições de 26 de setembro.

“Eu nem fazia ideia que tinha tanta gente de origens diferentes na minha lista, mas a verdade é que são imensos”, confessou ao JA o deputado social-democrata algarvio Cristóvão Norte, que calculou em “cerca de 25%” a percentagem de não-portugueses ou nascidos fora de Portugal na lista que encabeça, à Assembleia Municipal de Faro.

Dividem-se em duas categorias os candidatos de origem estrangeira: os que, por serem naturais de países da União Europeia, e por força de uma legislação comunitária já com mais de duas décadas, se podem candidatar num país europeu, mesmo que lá não residam permanentemente; seguem-se os que, também estrangeiros, pertencem a países africanos de língua oficial portuguesa (PALOP) e nessa qualidade também se podem candidatar em Portugal; os que estão em Portugal com residência permanente há mais de cinco anos; e por último os que são estrangeiros mas têm dupla nacionalidade e nessa qualidade podem concorrer nas listas autárquicas portuguesas. Há ainda os que não têm estatuto de dupla nacionalidade mas são cidadãos portugueses com origem num país estrangeiro.

Da petanca à política passando pela Casa de Angola


É o caso de Gameiro Alves, que concorre em quarto lugar para a Assembleia Municipal de Faro nas próximas eleições, depois de ter cumprido dois mandatos como deputado municipal.


Natural de Angola, Gameiro Alves é presidente da Casa de Angola no Algarve e nunca abandonou as tradições e cultura daquele país, curiosamente o único dos PALOP que não tem acordo com Portugal para que os seus nacionais possam integrar as listas autárquicas do antigo país colonizador.

Em lugar considerado elegível, este português nascido em terras angolanas há 70 anos está no PSD há 25 anos, depois de uma “temporada” de 15 anos no Partido Socialista, formação pela qual chegou a ser vereador no município de Faro, em três temporadas: 79/82 e 82/85 e 90/93.


“Eu era vereador do PS mas nunca me entendi bem com o Botilheiro [ex-presidente socialista da CMF], fui dissidente do PS. Concorremos pelo Partido da Terra contra o Botilheiro. Conseguimos que o PS não tivesse maioria absoluta. E o Botilheiro caiu e nós saímos do PS”, resume Gameiro, de uma penada, a sua passagem pela autarquia como eleito nas listas socialistas.


Ao contrário de muitos originários de países estrangeiros, Gameiro Alves sempre teve vida pública, das autarquias até ao desporto: “Fui Presidente da Federação Portuguesa de Petanca e convidei a Rosa Mota para ser embaixadora olímpica da petanca” enuncia, acrescentando ao currículo público a presidência de uma associação de animais em Faro e a co-liderança de uma associação profissional na Polícia Judiciária, organismo de que foi chefe administrativo, em Faro.

Na política está desde que chegou ao Algarve, em 1979: depois do PS perdeu-se de amores pelo PSD, partido pelo qual foi duas vezes deputado municipal, em primeiro em 2007 com José Vitorino, e depois com o atual presidente da Câmara, Rogério Bacalhau.

Da política transalpina à política ibérica


Paolo Funassi, nascido no Uruguai há 43 anos, mas cidadão exclusivamente italiano desde sempre,é candidato à Assembleia Municipal de Albufeira, na lista do Partido Socialista. “Integração e solidariedade” é o mote com que se apresenta às eleições autárquicas de setembro, dirigido à comunidade estrangeira no concelho, que ronda os 35% da população residente.


Paolo Funassi – filho de pai italiano e mão uruguaia mas com nacionalidade italiana – vive em Portugal desde 2018, por opção de vida, depois de ter residido no Uruguai (cinco anos), Argentina (12 anos) e de, aos 17 anos, ter vindo para a Europa, com seu pai italiano, que esteve na América do Sul quase duas décadas ao serviço de uma grande empresa de construção civil.

Já em Itália, dedicou-se à política: foi assessor durante sete anos no parlamento regional da Lombardia (Milão), de 2008 a 2015. Depois, foi eleito da empresa pública de águas SIV, uma espécie de “Águas do Algarve” lá do sítio, eleito entre os 41 autarcas da sua região.


E nem é a comunidade italiana o seu objetivo primordial em matéria de eleitorado-alvo. Albufeira não é uma das principais cidades em que residem os cerca de 10 mil italianos que, calcula, têm morada fixa no Algarve. Os principais núcleos de residentes com nacionalidade italiana são Vila Real de Santo António, Olhão e Quarteira. O seu objetivo é a integração dos muitos estrangeiros, de múltiplas nacionalidades, que, como carinhosamente afirma, “vivem em tribos fechadas”, sem conviverem uns com os outros nem com os residentes portugueses. É essa integração que está por fazer, sublinha o candidato italiano.

E porquê o PS? Por acaso? Não, de todo, esclarece o transalpino: “Em Itália sempre trabalhei com partidos de centro-esquerda. O PS daqui é a minha casa natural. E pode ser a casa natural de todos os estrangeiros. Aqui sou do PS, como nos EUA seria democrata e não republicano”.

Da loja de surf para a junta


Chama-se Fabrice Walther e tem nacionalidade alemã, embora tenha nascido no barlavento algarvio. Candidato à Junta de Freguesia da Bordeira pela terceira vez, sempre pelo PS, se for eleito não o será pela primeira vez. Na prática, nem pela segunda. “A primeira vez não fui eleito mas depois faleceram os dois presidentes da Junta e tomei posse. De segunda vez, em 2017, fui eleito e ainda estou em funções. Sou secretário da Junta. Agora fui para quinto lugar, por razões pessoais, em 2017 fui em 2.º lugar e fiquei na junta. Estas últimas duas vezes o PS ganhou sempre a Junta”, afirma este filho de mãe alemã e pai francês.


Sem muita família na Alemanha, mais ligado familiarmente à Suíça, Fabrice nasceu na Bordeira mas muito cedo os seus pais lhe deram a nacionalidade dos ascendentes mais remotos.


Dividindo atualmente o seu tempo entre a loja de surf que possui na Carrapateira e a junta da Bordeira, Fabríce chegou a licenciar-se em Design e Comunicação na cidade de Portimão, mas o amor à terra e à liberdade da orla costeira e do mar falaram mais alto.

“Ideologicamente sinto-me mais próximo do PS, mas sou independente”, afirma o jovem político, que foi convidado para os lugares que exerceu e as listas que ajudou a compor. “Nunca fui procurar ninguém, vieram sempre ter comigo”, remata, num português perfeito, sem qualquer toque germânico.

No PSD, contra a “ditadura” venezuelana


Com dupla nacionalidade venezuelana e portuguesa, Joaquim Sousa, que concorre como efetivo à Câmara de Faro nas listas dos PSD, nasceu na Venezuela há 56 anos, de pais portugueses, que regressaram em 1988, precisamente 30 anos depois de terem deixado o Algarve para procurarem sustento na América Latina.


“Eu fiquei lá, com o outro irmão mais velho, porque estávamos na Universidade. Sempre vinha de férias, mas agora com a ditadura [regime de Nicolás Maduro] isso ficou no chão. Vim sozinho, nunca casei mas tinha uma mulher, que foi para os EUA. Tinha hipótese de ir também, mas aqui tinha mais base porque tinha a minha família com casas e rendimentos”, explica o luso-venezuelano.

Profissionalmente, iniciou-se em Portugal empurrando cadeiras de rodas no aeroporto de Faro, mas veio o covid e os voos para o Algarve acabaram, o aeroporto ficou deserto. Fez então um curso de geriatria, depois foi vigilante, “para meter papéis para conseguir emprego”.


“Depois fui para a Cruz Vermelha, fui voluntário. Na CV abriram um curso para condutor de ambulâncias. Agora trabalho com transporte de pacientes não urgentes”, resume.

Mas Joaquim (assim mesmo, escrito e pronunciado à portuguesa) já na Venezuela andava “metido” na política: “Durante a ditadura militar [presidência de Chávez]comecei a trabalhar com o Caprilles, antes do Guaidó. Eu era chefe da oposição numa freguesia de Caracas e recebi ameaças de que ia para a cadeia, já estava no momento de ir embora”.


E veio mesmo, há três anos, sem que a vida política em Portugal lhe tenha feito mais “mossa” do que despertar-lhe alguma curiosidade. Mas há três meses a política bateu-lhe de novo à porta: “Alguns deputados da oposição visitaram a Assembleia da República portuguesa. E convidaram-me e eu fui à Assembleia da República. Tive uma reunião com o PSD. O deputado da Venezuela pediu-me para colaborar com o PSD e com o Cristóvão Norte. Indiquei a Duria Campos também venezuelana, ela está numa organização que ajuda os venezuelanos no Algarve e agora também é deputada”. E ficou na lista da Câmara de Faro.


Joaquim Sousa considera-se um social-democrata, mas de centro-direita. Desconhece ainda o seu lugar na lista à câmara de Faro, mas sabe que está efetivo. Até há três anos, o Algarve era o lugar onde vinha passar férias, com a família. Agora quer estar à frente dos destinos da região.

Um inglês com histórico africano nas listas da CDU


Na margem esquerda do espectro político, o britânico Stephen Hugman, 68 anos, chegou ao Algarve em 1992 depois de uma vida repleta de viagens e aventuras, que o levaram de África à Papua Nova Guiné. Agora é candidato da CDU à Câmara de Monchique.


“Eu e a minha família trabalhávamos em Moçambique e outros países. E queríamos um sítio para criar o nosso filho. Moçambique tinha guerra civil, com a Renamo e ataques aéreos da África do Sul”, justifica. E é assim que o engenheiro hidráulico vem para Portugal, ele que saiu da Inglaterra e escolheu África em 1978, ainda antes do “reinado” de Margueret Tatcher.

“Na política fazia parte da associação ambiental A Nossa Terra, que na altura um dos meus colegas lá era Rui André, que me convidou para fazer parte da lista do PSD à Assembleia Municipal”. E foi assim na social-democracia que começou a sua participação política.


“Normalmente na vida vai-se da esquerda para a direita, mas eu fui ao contrário”, glosa, justificando que a sua opção pela CDU se deve, agora, ao facto de a formação eleitoral abranger os verdes. “Eu sou muito interessado pelas políticas do ambiente”.

Foi ele que bateu à porta da CDU. “Na Inglaterra eu era do Partido Trabalhista, equivalente do PS. Mas aqui o PS não teve abertura para pôr um estrangeiro na lista”, revela, considerando que, no fim das contas, o seu papel na CDU “é mais eficaz para a [sua] voz”.


Segundo na lista na Assembleia Municipal, o britânico residente próximo da aldeia de Casais é também o primeiro da lista da CDU à junta de freguesia local.


Um acordo bilateral entre Portugal e o Reino Unido (hoje fora da União Europeia) permite aos cidadãos britânicos concorrerem em Portugal e foi essa a “boleia” que apanhou, rumo ao ato eleitoral que decorre dentro de três semanas.

Hoje reformado, pai de um filho de 38 anos nascido na Papua Nova Guiné, teve uma vida de viajante, que passou por Inglaterra, Moçambique, países lusófonos, Somália, Iraque, Quénia. Hoje está em Portugal, nas listas da CDU.

Fugir da guerra e “acabar” a pintar na Praia da Rocha


Também em Portugal está Mirodrag Vojinovic, 62 anos, natural do Montenegro. Concorre pela lista do Bloco de Esquerda à Câmara de Portimão.
“Não sei em que lugar estou nem em que lista”, confessa, justificando com uma opção política de fundo a sua adesão do Bloco, de que é militante há um ano: “Vi muitas notícias, a ex-jugoslávia era muito boa antes da guerra, muitas pessoas não sabem isso”, diz o adriático que nasceu no Montenegro e viveu na Croácia.

“A minha mulher é da Croácia e eu do Montenegro”. Primeiro fuji para a Alemanha, onde estive um ano, e depois vim para Portugal, em 1998”, explica Mirodrag Vojinovic, que contactou o Bloco e se fez militante e entusiasta aderente.


Artista plástico – faz retratos e caricaturas a turistas na Praia da Rocha -, o balcânico continua a viajar, faz temporadas em Inglaterra e Noruega “porque no Algarve [a vida] está mal”, mas quer continuar a viver no nosso país, onde tem a filha, Helene: “Tem 15 anos, vivo sozinho, sou divorciado, e de duas em duas semanas fico com a minha filha ao fim-de-semana. Moro na Praia da Rocha. Quero viver em Portugal ao pé de minha filha, que é nadadora.

Fiel à esquerda desde os tempos da UDP


Candidato pelo mesmo partido e na mesma lista, Guilherme Ramos nasceu em Cabo Verde há 66 anos.


“Estou em Portugal há 48 anos. Nasci em Santo Antão. Estive lá e vim sozinho aos 17 anos e constituí cá família. Lá eu era calceteiro e pedreiro e vim trabalhar cá como servente. Agora sou pedreiro e trabalhei por conta própria”, narra o cabo-verdiano a quem faltam 2 meses para se reformar.

É um velho simpatizante da esquerda mais radical, desde os tempos da UDP, e nunca se “descolou” da vida política, mas também não se fez militante bloquista.


“Sou simpatizante, não militante. Foi o Vasconcelos que me convidou para a lista”, revela Guilherme Ramos, que já anteriormente se candidatara, mas sem ter sido eleito.

Ao contrário da família em Portugal, nunca se quis naturalizar português: “Tenho documento cabo-verdiano, mas como tenho residência vitalícia decidi ficar como cabo-verdiano”, explica.

João Prudêncio

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