Fazer as pazes com a natureza

A força da natureza que destruiu casas como se fossem baralhos de cartas, no último inverno, levou à antecipação dos trabalhos previstos do Polis Litoral da Ria Formosa na ilha da Fuseta. Depois do mal feito no passado, o homem quer agora fazer as pazes com a natureza, através de intervenções consideradas “fundamentais” para a própria sobrevivência desta maravilha natural e das atividades económicas que lá se desenvolvem. Quando os trabalhos estiverem concluídos, no final de 2012, os responsáveis realçam também que surgirá um novo espaço promocional na região com o selo “Praias da Ria Formosa”


Apesar de persistirem vozes contra as demolições previstas pelo Polis Litoral da Ria Formosa (PLRF), os trabalhos começam a avançar no terreno e os responsáveis mostram-se convictos de que as intervenções previstas são fundamentais. Além da segurança de quem trabalha e vive da Ria Formosa e do mar, sobressai ainda uma aposta numa requalificação do litoral e numa tentativa de “regressar à base”, o que  em alguns casos significa: renaturalização.

Em declarações ao Magazine JA, a presidente da Sociedade Polis – empresa responsável pela gestão e concretização do plano, Valentina Calixto, sublinha que as intervenções definidas pretendem requalificar e valorizar zonas de risco e áreas naturais degradadas situadas no litoral. “Efetivamente, a degradação de algumas áreas da Ria deve-se a erros do passado, cujas consequências se pretende corrigir ou minimizar”, refere.

Mas este plano pode também ser visto por outro prisma: a força e vontade da natureza. Recorde-se a forma brutal como o mar avançou, no último Inverno, sobre várias casas construídas nas ilhas da Ria, com maior intensidade na Fuseta e na ilha de Faro. A sua ação acabou inclusivamente por acelerar os trabalhos previstos na ilha da Fuseta com o aval do Ministério do Ambiente e veio confirmar os alertas que muitos especialistas e investigadores têm vindo a fazer.

A “saúde” da Ria Formosa enquanto sistema lagunar ímpar berço de inúmeras espécies tem sido afetada pelas condicionantes provocadas ou construídas pelo homem que não permitem o livre funcionamento das areias e livre circulação das águas.

Importa referir que o PLRF tem o Plano de Ordenamento da Orla Costeira Vilamoura – Vila Real de Santo António como base do seu trabalho. Um plano que “assumiu claramente a necessidade de prever um conjunto de intervenções que assegurem, entre outros aspetos o retardamento do processo de erosão costeira existente, responsável pelas situações de risco que se verificam quer nas Ilhas Barreira, quer no espaço lagunar da Ria Formosa”, explica Valentina Calixto.

No final de todos os trabalhos concluídos, “espera-se conseguir criar condições na Ria Formosa que permitam preservar o património natural e paisagís-tico existente e simultaneamente usufruir dos seus recursos naturais e valores ambientais de modo sustentável”, comenta a presidente da Sociedade Po-lis.

De acordo com os prazos estabelecidos, até ao final de 2012, a totalidade das intervenções deverá estar concluída e toda a zona litoral entre Vila Real de Santo António e Vilamoura deverá estar mais segura e atraente. Algumas intervenções já estão concluídas, outras em curso e muitas em fase de projeto e estudo.

O plano de intervenções conta com um investimento comunitário e nacional que totaliza cerca de 87,5 milhões de euros.

Espaço natural com potencial económico

Todos os que na Ria Formosa trabalham reclamam condições para nela trabalhar e os responsáveis pelo PLRF acreditam que essas condições serão reais a partir de 2013.

“Com as intervenções previstas pretende-se, para além de outros aspetos, proteger e requalificar as ilhas-barreira e o espaço lagunar, minimizando as situações de risco existentes, criando espaços de fruição pública qualificados e promovendo o ordenamento da mobilidade no espaço lagunar e a valorização das atividades ligadas aos recursos da Ria. Pretende-se ainda valorizar os núcleos piscatórios, requalificar a interface ribeirinha, revitalizando as frentes de Ria e reabilitar as infraestruturas de acos-tagem e seus espaços envolventes e de estadia”, explica Valentina Calixto.

Mas a Ria Formosa é muito mais do que local para banhistas, espaço resi-dencial ou o berço de várias espécies e porto de descanso para milhares de aves migratórias. Há muito que a Ria Formosa começou a ser vista como local de trabalho para os pescadores, marisca-dores e viveiristas que a ela se afeiçoaram.

A aquicultura também é encarada como uma atividade de interesse nacional e tem espaço próprio na Ria Formosa, tendo recentemente sido adjudicadas os primeiros lotes da Área de Produção Aquícola da Armona.

Também o turismo de natureza e o turismo desportivo têm vindo a ganhar espaço e começam a surgir empresas com diferentes formatos e serviços. Mas importa saber como conciliar as diferentes atividades não perdendo de vista a preservação ambiental. Por isso mesmo, o projeto de valorização das atividades ligadas à ria vai envolver entidades e associações setoriais.

“São várias as intervenções a realizar que irão qualificar a Ria Formosa e melhorar as condições de exercício das atividades ligadas à Ria e ao mar”, explica Valentina Calixto. Os projetos de valorização hidrodinâmica da Ria Formosa que promoverão a minimização das situações de risco e a renovação da água na ria, mediante a transposição das barras, o desassoreamento de canais e o reforço do cordão dunar nas ilhas-barreira, são algumas das ações previstas que são salientadas por Valentina Calixto.

“As intervenções de valorização dos espaços naturais, balneares e de fruição.

O que está a mudar…

São muitas as zonas que vão ser alvo de intervenção no âmbito do PLRF. Neste momento, já estão concluídas as obras de renovação e requalificação do Centro de Educação Ambiental de Marim, foi levada a cabo uma limpeza da Ria de onde foram retiradas 885 toneladas de resíduos e a requalificação da marginal da vila de Cabanas de Tavira estará terminada no final deste mês.

Em curso está a extinção do núcleo existente da Fuseta existentes na ilha da Armona e renaturalização da área envolvente. Esta intervenção acabou por se sobrepor no calendário da Sociedade Polis da Ria Formosa, SA – entidade responsável pela coordenação, gestão e execução do investimento a realizar no âmbito do PLRF.

As intempéries que assolaram o Algarve durante o último Inverno deram o “pontapé de saída” nesta zona e foi a própria natureza que decidiu começar a ganhar terreno e demolir as casas que se “atravessaram” pelo caminho.

No caso da Ilha de Faro, está em curso um processo de levantamento cadastral das casas aí existentes. O seu plano de pormenor deverá estar concluído em novembro.


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