REPORTAGEM

Ficámos mais deprimidos mas mais solidários

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Esta semana, o JA falou com especialistas em saúde mental da região e quis saber os efeitos da pandemia nas nossas emoções e comportamentos. A agressividade aumentou, mas sobretudo adveio a ansiedade e a depressão. E temos medo, muito medo uns dos outros. O outro pode significar a doença e até a morte. Mas também estamos mais solidários e, em muitos casos, as relações afetivas intensificaram-se

Estamos mais deprimidos e ansiosos e a culpa é do confinamento a que estamos obrigados, concordou esta semana um painel de especialistas constituído por psicanalistas, psicoterapeutas e psiquiatras, algarvios ou residentes no Algarve, ouvidos pelo JA. Mais do que a agressividade, vincaram, é a depressão e a ansiedade que sobrevêm neste quadro de isolamento social a que estamos obrigados.


As questões do JA eram inevitáveis: o que provoca no ser humano, enquanto ser solitário e singular, toda a panóplia de condicionantes a que nos encontramos sujeitos de há dois meses para cá, como o isolamento, a obrigatoriedade de conviver dentro de casa, a falta de toque, a desconfiança face ao outro, a vida afetiva e sexual? O JORNAL do ALGARVE foi à procura de respostas. Uma das grandes conclusões é que estão a aumentar os casos de depressão e ansiedade.

Vítor Silva, Investigador, psicólogo clínico, psicoterapeuta no ãmbito familiar, conjugal e individual


O psicoterapeuta Vítor Silva puxa de uma metáfora, para que se perceba o drama que vivemos: “Isto que nos aconteceu é como nós irmos num carro a 200 km/hora e de repente puxarmos o travão de mão. Terá um impacto brutal. A velocidade com que o mundo corria era tal que, de repente, ficamos sem chão. Há uma travagem muito brusca relativamente à chamada normalidade. Isto terá efeitos em tudo o que nos rodeia. Ao nível dos seres humanos, das sociedades, na cultura, nos sistemas geopolíticos”, compara, para logo concluir que “ninguém sensato poderá dar uma resposta concreta” sobre as consequências do isolamento, mas ainda assim arriscando que este encerramento das pessoas nas suas casas “terá uma repercussão enorme ao nível das emoções, sentimentos, relações humanas”.

“Inimigo invisível traz mais ansiedade”


Mesmo corroborando tal dificuldade, o psiquiatra José António Cruz arrisca que as maiores perturbações se estão a dar ao nível da ansiedade e da depressão, risco de suicídio e problemas familiares advenientes de uma mudança radical, “pois as famílias são obrigadas a conviver de uma forma que não era habitual, para mais com a alteração das responsabilidades e baixa do rendimento económico”.


“O que eu tenho constatado mais nos últimos tempos tem a ver com a ansiedade e a depressão. A pandemia gera muito medo nas pessoas e incertezas. Não sabemos onde está o inimigo e não há respostas em termos médicos, vacinas, tratamentos eficazes. E isso vem aumentar a ansiedade”, diagnostica o psiquiatra de Faro, para quem a agressividade adveniente do isolamento é bem mais residual: “O que nós chamamos agressividade não é muito característico destes quadros clínicos, são reativos a uma situação. A agressividade tem mais a ver com as perturbações psicóticas do indivíduo. São pessoas que vivem no seu mundo”.


Ainda assim, parte dos especialistas auscultados pelo JA não afasta a agressividade como elemento fundamental dos comportamentos em tempo de confinamento: “A vida reduzida a um espaço limitado desencadeia sempre reações de agressividade”, enfatiza o psiquiatra Ruy Pereira, para quem estas situações limite nem sempre trazem consequências negativas, mesmo nos quadros clínicos de patologias pré-existentes: “Em situações históricas, como a II Guerra Mundial, em França, os doentes esquizofrénicos eram mobilizados pela guerra. Dava a impressão que saiam da sua situação de delírio para participar na atividade social. E muitos, mesmo os catatónicos, quando a guerra se desencadeou começaram a participar na resistência. Quando as situações são dramáticas, mobilizam o sujeito, mesmo doente. A reação é de mobilização em face de um perigo que põe de lado todos os processos de adaptação que o sujeito tinha elaborado na sua adaptação à vida corrente”.


Quanto à maioria das reações das pessoas sem quadros patológicos, o mesmo psiquiatra advoga que elas são sobretudo de ansiedade e depressão: “A ansiedade é uma reação normal face ao perigo, não é uma reação patológica. A depressão é uma afirmação de demissão”, assinala.

“Privação do toque deixa cicatrizes nas crianças”


Já a psicanalista Susana Travassos enfatiza que esta pandemia veio trazer mais agressividade, “mas não se pode ver o isolamento separadamente do que estamos a vivenciar. Não é o isolamento apenas, mas é agravado porque decorre de uma pandemia. E uma pandemia é vivida como um trauma e até como um luto. Atinge a todos, cada um tem uma maneira singular de reagir de acordo com a sua própria estrutura psicológica, condição, vulnerabilidade e etapa da sua vida.
A mesma especialista observa que a pandemia trouxe incerteza face ao futuro e realça a transversalidade do medo: “Medo pela própria vida, pois a pandemia põe as pessoas de frente para questões como a própria morte, a morte de outros e da própria espécie. Os que já têm um quadro de depressão ou de uma paranoia, ou hipocondria, tudo isso tende a ser aumentado. A pandemia vai aumentar o que já era uma vulnerabilidade. Por ser um trauma, cada pessoa reage de uma maneira diferente”.

Susana Travassos, psicalnalista


Quanto aos efeitos do afastamento social no sentido do contacto físico, Susana Travassos observa que, mesmo num mundo de tecnologia, em que, através do online, conseguimos preservar o laço social e o convívio, perdemos o olfato e o tato: “A questão do toque é incontornável, a privação do corpo do outro. Numa criança é muito complicada essa privação do toque.

Já na afetividade das relações, até o facto de o outro ser uma ameaça e nós ao outro. Isso deixa cicatrizes no desenvolvimento, sobretudo nas crianças e adolescentes. Eles que têm as primeiras experiências, o primeiro beijo, a primeira mão dada na rua. Estas experiências estão em suspenso. Uma parte da vida afetiva fica cortada”.


O psicoterapeuta Vítor Silva releva que esse afastamento uns dos outros não é de agora, nas últimas décadas já nos relacionávamos de forma bem diferente daquela como nos relacionámos durante séculos: “A tecnologia permite-nos que nos relacionemos com distância. Isso tem uma repercussão enorme em termos de emoções, afetos e relações humanas. Isso já existia antes da pandemia, embora não de uma forma tão brusca e de não-escolha”.


“Agora há uma imposição, que terá uma consequência diferente daquela que já estávamos a ter nas ditas relações. Já existia uma não-normalidade naquilo que o Homem sempre conheceu a relacionar-se com o outro e isso já estava a ter implicações bastante importantes, nos afetos, na tolerância, na calma das relações, na empatia e na compaixão. A pandemia há-de ter um impacto bastante importante, embora ainda seja cedo para saber qual será, nas famílias, nos pares”, acrescenta o psicoterapeuta de Vila Real de Santo António

“A doença torna-nos mais cruéis”


O psiquiatra José António Cruz garante que, além do isolamento social, essa falta de afeto mais tátil é suscetível de trazer mais depressão: “Parece que a nossa afetividade nos foi roubada. Nós os mediterrânicos somos muito de afetos. Gostamos dessa interação do toque, beijo, abraço. E a falta disso leva a problemas depressivos. Ou ao agravamento de depressões já existentes ou mesmo ao surgimento de novas depressões. A nossa afetividade está amputada e não é posta em prática”.


Em vez dela, há quem diga, sobrevém a desconfiança, num contexto em que “o outro” pode significar a doença ou até a morte. José António Cruz prefere chamar-lhe híper vigilância: “Há esse medo e essa incerteza de não termos uma resposta cabal. Estamos mais híper vigilantes. O nosso comportamento não é tão genuíno, é mais pensado. Passamos para o outro lado da rua, não sabemos quem está infetado e poderá transmitir-nos o vírus”.


“Mesmo as mentalidades coletivas são dominadas por um sentimento de insegurança. A psicologia do medo faz com que a doença nos torne mais cruéis uns para com os outros. Em situação de instabilidade e incerteza surge a desconfiança”, destaca por seu turno o psiquiatra Ruy Pereira.


Vítor Silva assinala que a espécie humana já é, por defeito, desconfiada. E isso não é negativo: “O medo fez com que evoluíssemos como espécie. Desconfiar do outro é importante. Estas novas formas de comunicarmos isola-nos mais, torna-nos indivíduos mais isolados. Estamos mais desconfiados, mas isso já estava a acontecer. Desconfiarmos e mantermo-nos mais isolados, para dentro de nós próprios, é uma consequência direta da voracidade da sociedade”.


Susana Travassos sustenta que a desconfiança é inerente às características patogénicas da infeção: “O facto de um vírus transitar entre nós faz com que haja uma desconfiança na proximidade do outro”, assinala a psicanalista, que releva também o reverso da medalha: “Nós também podemos ser uma ameaça para os outros, mesmo os assintomáticos, o que faz com que tenhamos que ter uma maior responsabilidade pelo outro e pela sociedade. Se por um lado este afastamento aumenta a apreensão e pode levar a algum exagero e paranoia (que até está ajustada à realidade… a limpeza, o distanciamento, tudo isso é real), por outro lado o facto de sermos chamados a uma responsabilidade coletiva, cuidando da vida do outro, faz com que esse lado social se fortaleça. E isso tem-se manifestado de forma espontânea. Pessoas que decidem mudar a empresa para fabricar outras coisas, por exemplo”.

“Tropeçamos mil vezes na mesma pedra e continuamos a tropeçar”


Mesmo mais desconfiados, estamos então – talvez paradoxalmente – mais solidários? José António Cruz responde: “Sim, estamos mais solidários. Mas isso é um fenómeno coletivo, não individual, que só surge em situações de normalidade e catástrofe. Em tempos de aperto é que nós agimos. Mas quando a vida corre normalmente não. Passamos das respostas mais solidárias à falta de humanidade de nós próprios”.

José António Cruz, psiquiatra


O seu colega psiquiatra Ruy Pereira corrobora: “A necessidade de partilhar é natural face à perspetivas da morte”, assinala, para concluir que essa perspetiva “é sempre uma chamada à ordem e a maior parte da ordem tende a ser estabelecida em todas as circunstâncias: o Governo promove diretrizes, as pessoas que dão conselhos. Quando somos confinados, impedidos de conviver, há uma redução inevitável da vida”.


A questão subsequente é saber “como é que fica” quando tudo acabar. Essa pulsão solidária vai manter-se? A vila-realense Susana Travassos acha que sim: “Nunca sabemos se, quando tudo acaba, as pessoas mudam a sua forma de estar no mundo. Mas acredito que sim, porque isto foi vivido de uma forma tão intensa que as pessoas vão aprender a lição, de que nós não existimos sem o outro, essa é uma lição desta pandemia. Nós fazemos parte de um todo e este vírus vem mostrar isso”.


Já o seu colega Vítor Silva se mostra mais reservado sobre os efeitos da pandemia no nosso futuro pós-pandémico: “Ninguém pode dar uma resposta sobre o que irá acontecer. Cada um terá a sua própria opinião, mas as duas hipóteses estão sobre a mesa. Poderá haver um retrocesso, ou seja, ficaremos mais isolados e desconfiados, porque isto é um mecanismo de sobrevivência, que nos impõem uma distância e exacerba-se o medo, mas ao mesmo tempo unimo-nos. Isto numa primeira fase. Porque depois desta fase não se sabe se irá continuar assim ou se vamo-nos isolar ainda mais. Vamos criar mais medo? Nós temos dificuldade em aprender com a História. O ser humano tropeça mil vezes na mesma pedra e continua a tropeçar. Daí que exista a dúvida sobre o que nos irá acontecer como espécie, em termos de relações humanas”.

“Bebe-se mais agora, para anestesiar”


E as relações afetivas, a sedução, os namoros, o casamento, o sexo? O que mudou nos já gigantescos dois meses que nos separam da chegada em força da pandemia? O mesmo Vítor Silva sustenta que este isolamento compulsivo pode favorecer as relações: “Há situações em que se podem favorecer as relações. Um dos grandes problemas da nossa sociedade era a falta de tempo e esta realidade que nos impõem dá-nos tempo. Isso pode trazer um benefício nas relações. Temos mais tempo para estar com o outro”, enfatiza.


Contudo, o psicanalista enuncia o reverso da medalha: “Muitas das pessoas que se relacionam fazem-no pela necessidade de normalidade, ou porque se sentem verdadeiramente apaixonados ou porque sentem que aquela pessoa é o amor da vida delas. A maior parte das vezes nem sequer temos tempo para pensar sobre isso. E com o confinamento isso pode fazer-se sentir de forma negativa. Aumenta a violência doméstica. O confinamento faz aumentar a convivência e relacionarmo-nos com o outro é difícil e complexo. Há uma grande preocupação dos profissionais desta área relativamente ao aumento da violência dentro da família e até de movimento mais amplo, como o racismo e xenofobia”.


Uma preocupação com a violência dentro do casal, ou da própria família, que se estende a Ruy Pereira: “A pandemia faz aumentar os conflitos entre os mais próximos. Esta agressividade é o corolário do confinamento, do perigo, da incerteza. Cria problemas ao nível relacional”.


Quanto aos mais jovens e aos adolescentes, a pandemia veio impor restrições à transitoriedade que, segundo Vítor Silva, se notava de uma forma pouco saudável. “Havia o sentimento ‘hoje estou com um, amanhã estou com outro’. Já de há alguns anos para cá não existia intenção de solidificar relações, que eram muito voláteis”, afirma o psicoterapeuta, sublinhando que, “na impossibilidade de ter essa volatilidade de relações, há uma repercussão interna, em termos de frustração, irritabilidade. O consumo de bebidas alcoólicas aumentou. Os indivíduos têm consumido mais bebidas alcoólicas porque é uma maneira de anestesiar. Como o futebol, festivais, e outras ferramentas de escape e anestesia, que saíram das nossas vidas”.

O regresso da palavra nas relações amorosas


Os efeitos da pandemia ao nível afetivo entre os mais novos é uma das preocupações de Susana Travassos: “Para os adolescentes isto é muito complicado. Isto acontece num momento em que se está a dar um passo lá para fora, construir as próprias relações, as primeiras experiências de amor. Agora o adolescente está privado de construir as próprias relações, algo fundamental para o seu desenvolvimento enquanto ser humano. Fica em suspenso. Conhecem-se pela internet, pelos aplicativos, mas esse passo de conhecer alguém fisicamente está em suspenso. Isso pode trazer uma frustração muito grande, na adolescência, em que é tudo vivido com muita intensidade, é mais complicado. Podem pensar que isto não os afeta, mas as medidas por causa do vírus afetam-nos. Pode trazer revolta a muitos deles.


Genericamente, a psicanalista de Vila Real de Santo António observa que, ao nível relacional, “a palavra já tem um peso, mas o laço que se estabelece numa relação amorosa de desejo tem sempre a palavra como motor desse desejo. Se pensarmos nos nossos avós, que namoravam por carta e em que a palavra era o que sustentava esse desejo, agora somos convidados ao mesmo tipo de relação. Essas relações são o suporte para o momento de angústia que vivemos, em que as pessoas talvez se agarrem mais a uma relação desse tipo. Talvez as pessoas repensem um pouco no tipo de relações que tinham: ter muita gente é o mesmo que não ter ninguém. Há casais que estão separados por fronteiras, que as pessoas podem acabar com relacionamentos”.


De resto, dentro do casal, os efeitos da pandemia dependem muito da personalidade de cada pessoa ou de um dos elementos desse casal, salienta José António Cruz: “Tenho visto situações de reaproximação ou de maior cumplicidade. Muitas vezes essas relações afetivas de amor falham porque as pessoas não conseguem ter essas cumplicidades. Mas o contrário também é verdade, geraram-se mais crises, tanto no casal como na relação familiar. Na vida sexual há agora uma menor tendência para a promiscuidade. Mas isso depende do indivíduo”.

João Prudêncio

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