Internet é a janela de um português que sai de casa uma vez por ano

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Desde 1997 que José sai da sua casa na aldeia uma vez por ano, apenas para ir ao hospital. Tem 43 anos, é deficiente e a sua vida foi quase sempre assim. Esta é a história do homem que se divide entre duas janelas: a do quarto e da Internet.

Da janela do quarto vê-se parte da aldeia de Ligares, município de Freixo de Espada à Cinta, a sua terra natal. Foi ali que José Araújo nasceu há 43 anos. Não foi um parto fácil e veio ao mundo com deficiências que nunca lhe permitiram o andar e o forçam a tomar medicamentos para poder viver. As pernas são tortas, a traqueia demasiado apertada, os movimentos são complicados, o coração está ao meio do peito. José não anda e nos últimos quinze anos só saiu de casa para se deslocar às consultas no hospital de Bragança. Nos últimos quinze anos não saiu mais do que 15 vezes de casa.

Nem sempre foi assim. Com o esforço da mãe, que o transportava às costas todos os dias em direção à escola, José aprendia. Na escola nunca teve dificuldades. Tinha amigos, como toda a gente e nunca se sentiu posto de lado. Com a quarta classe concluída, decidiu não prosseguir os estudos. As ruas de terra e de lama, as subidas e descidas da aldeia, a distância que separava a casa da escola, fizeram-no querer poupar a mãe, a quem agradece para a vida. “Se não fosse ela nunca teria aprendido a ler. E isso sim, seria uma enorme deficiência”.

Tudo mudou quando os amigos se começaram a ir embora. Uns, seguindo o destino fatalista das aldeias do interior, partiram para as grandes cidades. Os outros casaram e acabaram, também eles, por partir. José ficou com os pais e os quatro irmãos. Entretanto o pai morreu e três irmãos saíram de casa para começar vida própria. José ficou com a mãe e o único irmão solteiro. A mãe, que toda a vida foi doméstica, recebe uma pequena reforma. José Araújo ganha uma pensão de cerca de 300 euros por mês.

O amante de cinema que nunca entrou numa sala

Com a impossibilidade de sair – uma cadeira de rodas simples nunca pode ser uma solução viável, dada a grande inclinação da aldeia – José começou a ler tudo o que podia, principalmente, graças às bibliotecas itinerantes da Fundação Gulbenkian. Para além da leitura, gosta de fotografia e de cinema, principalmente o neorealista italiano. “Mas nunca entrei numa sala”, confessa.

“Nasci numa família pobre mas com a sua riqueza”, explica. “Somos todos muito unidos”. O que falta em dinheiro, sobra em amor. A casa, embora esteja mais vazia que na sua infância, enche-se com as visitas da família que acabou por aumentar com o nascimento dos sobrinhos cujas fotografias pontuam as estantes, mesas e paredes.

Uma casa obstáculo

A casa é modesta e a disposição não ajuda à mobilidade de um deficiente. José não pede ajuda para continuar a ser o mais auto-suficiente possível. Para ir à casa de banho tem de se arrastar pelos muitos degraus que descem ao primeiro andar e voltar a arrastar-se depois para o quarto.

O bloguer que colocou a aldeia no globo

José Pereira, primo e presidente da Junta, diz que a situação está sinalizada. Afirma que a Junta já fez um projeto para mudar a casa de banho para o primeiro andar mas que a Câmara Municipal de Freixo de Espada às Cinta nunca libertou as verbas necessárias. “O que ele tem feito por Ligares é muito importante. Se não fosse o José havia muita memória que se iria perder para sempre”, diz. Refere-se ao blogue sobre a terra que José Araújo fundou. Já lá vamos.

Há 21 anos à espera de resposta do Centro de Emprego

A sua vida mudou quando o irmão ganhou um computador Spectrum. Enquanto este jogava, José aprendia a programar. Quando lhe ofereceram a possibilidade de trabalhar numa fábrica de sapatos – tinha 22 anos – José declinou o convite. O seu sonho era trabalhar com computadores. O Centro de Emprego ficou de lhe tentar conseguir um curso na área. 21 anos depois, ainda não recebeu resposta. A falta de aptidões profissionais, conta, não o deixam trabalhar com informática profissionalmente. Mas ali há montes, vales, vinhas. Cursos, não. E os que estão online são caros demais para um bolso desde sempre apertado.

Há alguns anos quiseram-lhe pagar para que construísse um site. Não aceitou porque tinha um computador fraco. “Mas hoje penso que mesmo que tivesse melhor equipamento não podia aceitar. A responsabilidade passava a ser outra e eu não tenho curso, uma garantia que possa dar para além daquilo que sou capaz e que fui aprendendo sozinho!”, explica.

Mesmo assim, depois de aprender inglês sozinho, vou desvendando os mistérios dos computadores com facilidade. “Sou curioso e gosto de aprender. Nunca olhei para as estrelas sem perguntar o que estava lá”, refere.

Oito a dez horas por dia na Net

Foi aí, no ecrã, que foi construindo a janela que o deixa ver o mundo no lugar que quiser. “A Internet, para além do exercício da mente, permite-me comunicar. E tem o poder de colocar as pessoas todas ao mesmo nível”, explica. Navegando, mesmo sem sair do quarto, passa oito a dez horas por dia na Internet à velocidade de 1 Mb/s, num momento em que se anunciam velocidades de 400 Mb/s. Por ela, “um luxo caro”, paga cerca de 40 euros mensais. Já reclamou à ANACON pela discriminação negativa mas a resposta que teve é que “não podiam mexer nos tarifários das operadoras”. “Dos 40, quinze euros são de taxa, o que é uma discriminação para as aldeias do interior. Anda lá alguém a dar à manivela para a internet chegar aqui?”, pergunta. O Expresso constatou que é mais fácil apanhar rede espanhola do que portuguesa e que o 3G raramente se encontra.

No twitter escreve sobre política, mas há mais…

Com mais ou menos velocidade, tem dois blogues e um twitter. Um deles sobre a sua terra, Ligares. Junta memórias, fotografias, histórias e gentes da aldeia. Pede fotografias aos habitantes e outras, atuais, ao irmão. Investiga, escreve os textos e publica. “Já me escreveu uma pessoa a dizer que a única fotografia que tinha visto da mãe foi no blogue, que se não tivesse sido eu que nunca teria visto imagens da própria mãe. Isto paga tudo: o trabalho, o esforço, as horas passadas ao computador”, conta. No twitter escreve sobre política. E depois há o “5N”, o seu blogue pessoal e criativo. Reflete sobre o amor, a religião – mesmo não sendo crente, a sua vida. “Escrevo textos curtos como são curtos os acontecimentos da minha vida. É um outro mundo”.

Há uns anos uma prima levou José a ver o mar. Foram a Matosinhos e depois a um centro comercial. “Senti-me muito bem. Estava tudo cheio de gente. Provavelmente, demasiado preocupados com as suas próprias vidas para olharem para mim. Foi bom sentir-me apenas mais um”, recorda. “Muitas pessoas – por bondade, julgo eu – têm pena de mim. Dizem que há sempre quem esteja pior. Mas em que é que isso me alegra? Saber que há quem esteja pior que eu? Quem me dera que não houvesse. Tomara eu que fosse o único, era sinal que as pessoas estavam bem. Há coisas que nunca vou ter e gostava, como a saúde, o poder dar uma vida melhor à minha mãe. Materialmente, gostava de ter um computador melhor, um telemóvel melhor. Mas não vou andar triste por causa disso. Se não posso, paciência. Nunca pedi nada para mim”, garante.

“O céu é aqui”

De uma coisa tem a certeza: não trocava o poder andar pela inteligência. “Não quero dizer que sou mais inteligente do que os outros, apenas que tenho a minha própria inteligência, que tenho consciência das coisas à minha volta. Vejo certas pessoas que andam e eu não gostava de ser assim. Dizem-me que quando for para o céu que vou andar. Talvez até venha a ser um Figo ou um Ronaldo. Mas eu acho que o céu é aqui e que é aqui que temos de aproveitar. Tudo o resto é uma enorme incerteza”.

Pedro Neves (Rede Expresso)
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