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Investigadores vão procurar antigo porto de Cacela Velha e necrópole islâmica

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Projeto envolve cerca de duas dezenas de instituições nacionais e internacionais, dezenas de especialistas em diversas áreas e inclui ainda a criação de um campo escola de trabalhos arqueológicos

DOMINGOS VIEGAS

A partir deste ano e até 2022, dezenas de investigadores vão partir à descoberta de mais conhecimento sobre o passado de Cacela Velha e tentar encontrar, por exemplo, o antigo porto e a necrópole islâmica daquela localidade do concelho de Vila Real de Santo António.

Trata-se do projeto “Muçulmanos e Cristãos em Cacela Medieval: território e identidades em mudança”, uma iniciativa conjunta da Universidade do Algarve e da Simon Fraser University, do Canadá, com o apoio da Câmara Municipal de Vila Real de Santo António e da Direção Regional de Cultura do Algarve.

O principal objetivo dos investigadores é dar continuidade aos trabalhos arqueológicos que foram realizados entre 1997 e 2007 e obter novos dados que permitam alargar e detalhar o conhecimento sobre o território onde se estabeleceu a população de Cacela, bem como sobre as comunidades humanas que o habitaram ao longo da Idade Média. A investigação incidirá, essencialmente, na transição entre a ocupação medieval islâmica e medieval cristã.

Porém, não se trata de um simples trabalho de arqueologia. O projeto contará uma equipa multidiscipilinar que, além de arqueólogos, inclui antropólogos, geólogos, zooarqueólogos, arquiobotânicos, conservadores, historiadores, etnógrafos, bioquímicos, geoquímicos, entre outros especialistas. Será complementado com trabalho de laboratório e envolve, além das referidas quatro entidades, mais de uma dezena de outras instituições nacionais e internacionais.

Maria João Valente, da Universidade do Algarve e do Centro de Estudos de Arqueologia, Artes e Ciências do Património (CEAACP), que coordenará os trabalhos junto com Cristina Garcia (Direção Regional de Cultura e CEAACP), destaca dois grandes objetivos: encontrar o antigo porto de Cacela Velha e a necrópole islâmica. Refira-se que, atualmente, e de uma forma geral, o que se conhece de Cacela (hoje Cacela Velha) é o núcleo urbano e a zona externa do chamado Bairro Islâmico com a implementação da necrópole cristã por cima.

“Falta descobrir a necrópole islâmica, ou seja, onde eram enterrados os mortos naquele período. É extremamente importante que isso seja descoberto. Julgamos que sabemos onde está e vamos fazer escavações para ter a certeza absoluta”, refere a investigadora.

Além de estudar os mortos, os investigadores pretendem efetuar análises para verificar se eram aparentados. “Imaginemos que as últimas populações islâmicas não desapareceram e continuaram no terreno, misturando-se com os novos colonos cristãos. Queremos saber até que ponto há uma continuidade do povoamento e das famílias que lá habitavam”, explica Maria João Valente.

A coordenadora do projeto explica ainda que também se pretende ver “até que ponto a chegada dos novos colonos mudou a vida das populações, ou se não mudou assim tanto”. “Há, de facto, a implementação de um novo poder, mas será que isso significou uma mudança tão radical na vida das populações?”, questiona.

A importância de Cacela como porto durante a época Medieval é outro dos aspetos que será analisado. “Devido à sedimentação da Ria Formosa, o porto desapareceu por completo. Só será possível saber a real dimensão do porto de Cacela se o conseguirmos encontrar”, refere Maria João Valente.

Mas os trabalhos pretendem ir muito mais além e, por exemplo, também estudar os terramotos que afetaram esta zona ao longo dos tempos. “A Universidade do Algarve e a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa têm tido uma grande intervenção no terreno ao nível da dinamização das modificações da Ria Formosa. E alguns dos trabalhos até vão a épocas muito antigas. Já que eles já cá estão, quisemos aproveitar e coordenar os esforços para que eles possam também fazer trabalho de apoio e de investigação, como, por exemplo, estudar eventos, entre os quais o terramoto de 1755. Este é o mais chamativo, mas há muitos outros terramotos que podem ser estudados”, acrescenta Maria João Valente.

Campo escola de arqueologia

Nos próximos quatro anos, serão efetuados trabalhos de escavações arqueológicas no núcleo urbano de Cacela Velha e, ainda, prospeção no território envolvente, bem como análise multidisciplinar dos dados obtidos. “O trabalho de campo será realizado com uma equipa relativamente extensa, já que contará com cerca de 25 pessoas, constantemente, no terreno. Esse trabalho será depois avaliado em laboratório durante o resto do ano”, explica Maria João Valente.

Ao mesmo tempo será criado um campo escola de trabalhos arqueológicos virado, essencialmente, para estudantes universitários. No entanto, os responsáveis estão a estudar a possibilidade de alguns alunos do ensino secundário poderem participar logo desde o início e, inclusivamente, nas ações de formação.

Mas como funcionará este campo escola? “Temos quatro semanas de trabalho de campo planeadas e uma de formação que ocorrerá na Universidade do Algarve, onde antropólogos, geólogos, historiadores e arqueólogos vão dar formação aos alunos antes de eles irem para o campo. Isto é particularmente importante, por exemplo, para os estudantes canadianos, pois a maioria deles não conhece nada da cultura portuguesa e queremos passar-lhe informação sobre a História de Portugal, sobre o que era o Algarve e porque é que o Algarve era diferente do resto do país”, esclarece a mesma investigadora.

Este projeto de escavações será financiado por mecenas e por apoios comunitários e internacionais. “Além da União Europeia, vamos recorrer, por exemplo, à National Geographic e a outros fundos de financiamento”, refere Maria João Valente.
Para a presidente da Câmara de Vila Real de Santo António, Conceição Cabrita, trata-se de um projeto “de extrema importância” que permitirá “conhecer ainda melhor este território e protegê-lo”, já que “ajudará a implementar medidas concretas” e “contribuirá para certificar a excelência desta zona, do concelho, da região e também do país”.

A autarca recorda que Cacela Velha “é um ponto importante em termos de património e de história” e considera que se trata de uma parceria “muito importante, também em termos educativos”, referindo-se à criação do campo escola de arqueologia.

“Esta intervenção também é importante, porque, mantendo as mesmas características de Cacela Velha, podemos avançar para um tipo de turismo diferente, que não é só sol e praia, apostando cada vez mais na parte cultural, de património e das tradições”, acrescenta a presidente da autarquia.

(reportagem publicada na edição impressa do Jornal do Algarve de 08/03/2018)

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