Isto é que é um texto muitíssimo espectacular

De vez em quando ouço que as notas atribuídas aos nossos alunos se encontram numa vertiginosa inflação (só porque sim), tendência que não se sabe quando parará até porque, um dia, as notas (todas elas) encostarão ao vinte, e isto é só uma pequena contribuição dos estudos feitos cá pelo menino. Podem deixar a gorjeta em cima da mesinha, à saída. No atletismo, com aquela malta demasiado forte para o peso do dardo antigo (conta-se que depois de um ter ido parar à bancada mais longínqua, assistir a uma prova de atletismo nunca mais foi a mesma coisa obrigando, pela impossibilidade dos estádios crescerem em comprimento, a terem que aumentar o peso do dardo. E recomeçou tudo, com novos recordes, mais uma partida mais uma viagem). Não quero, neste humilde espaço, entrar na grande procura do Santo Graal ou em devaneios estilo, é ou não é?, sobre as razões que conduziram a esta realidade (a da subida das notas dos alunos), mas afianço-lhes que, com uma certeza que roça os noventa e nove por cento que, um destes dias alguém vai subir a pontuação dos testes para trinta em vez dos actuais vinte. Como os meus quatro amigos sabem, não era sobre o sistema de ensino que eu queria escrever, mas, talvez, sobre uma consequência desse sistema de ensino, no mau uso de certas e determinadas expressões usadas pelos nossos jornalistas. Tenho assistido, quase sempre quando há directos (da Ucrânia, Sobral de Monte Agraço, ou do Campus da Justiça em Lisboa) a um emprego, que me parece, no mínimo desajustado de alguns adjectivos (ou expressões), como por exemplo, “muito marcante”, “pessoa em estado muito crítico” ou “um bombardeamento muito impressionante”. Eu pensava que “marcante”; “pessoa em estado crítico” ou “bombardeamento impressionante” bastavam, mas parece que não e, tudo isto, devido (penso eu de que) a um uso excessivo e porventura desajustado dessas palavras – e expressões. Como aquela lei que diz, mais ou menos, que numa discussão na internet que se prolonga, mais cedo ou mais tarde alguém acabará por chamar nazi ou simpatizante de Hitler a outro, o que vai, num futuro a prazo, a elevar a fasquia, para maldito nazi, seguindo-se muito maldito nazi, ou putinista muito maldito nazi, ou – em última instância, para quem dá para os dois lados (politicamente falando, que o Avarias é temente ao sagrado, seja lá o que isso for), muito maldito putinista desgraçado zelensquiano, nojento nazi e seguidor nazi sem escrúpulos. A questão não é nova, e tem, a título de exemplo, antecedentes nos nossos – maus – usos ancestrais da palavra espectacular. De tanto a usar (bem, assim-assim e, principalmente mal), desvirtuámo-la; era (e é), comi uns caracóis espectaculares. Dei-lhe uma chapada espectacular. Caiu e estampou-se, foi espectacular e, permitam o português pristino, fiz uma cagada espectacular. Um dia terão que publicar na rede social mais à mão, que fizeram uma porcaria muito espectacular. É demasiado espectacular.

Fernando Proença

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