ALGARVE

JA manifesta pesar pelo falecimento da mãe de Lídia Jorge


Não sabemos bem como se escreve um adeus a uma mãe que nos deixa aos 93 anos de idade, e sem direito a que possamos, todos juntos, estarmos perto dela, devido à terrível pandemia que caiu sobre todos nós.
Cremos que ninguém sabe, a não ser pela voz sempre impiedosa dos que vaticinam as coisas depois de acontecerem.
Por isso, em nosso nome pessoal e do Jornal do Algarve, e no mais profundo abraço a Lídia Jorge e ao Carlos Albino, eterno colaborador de muitos e longos anos da vida deste jornal, recuperamos um texto que Lídia Jorge escreveu em O Dia dos Prodígios, num tempo em que anunciava 30 anos de escrita, e em cuja citação, sentimos, um claro pensamento da escritora, sobre a força da família, da «Mãe», do «Bisavó», de todos…de gente que se ama, para lá da eternidade.
E é este grito, tantas vezes feito de silêncios ensurdecedores, pelo tombar de mil, lágrimas, que hoje recordamos:

[…] A mãe começou aos gritos, o cão saiu ladrando como se alguém arrombasse a casa, quem estava em casa apareceu num instante com água e panos. Um dos tios não tinha, mas era como se tivesse pegado na caçadeira. Aquele iria ser o seu último instante.
Alguém me iria matar, eu não teria mais salvação. Também a bisavó avançava devagarinho perguntando que é, que é.
E o que é, que é, era eu, que havia feito uma horrível imperfeição. Não chorava a mãe, sentada na cadeira? Não a abraçava a tia? O meu castigo iria ser grande, tão grande como aquele que a cobra infligia ao rato. Por isso mesmo só a bisavó, que tinha medo de todos, me levava pela mão. O que iria ser de mim, protegida apenas pela mão da bisavó que não via?
Ah! Mas ela ajeitou a minha cabeça no seu colo, protegeu-me dos puxões da minha tia, das invectivas da minha mãe. Ela não me largou enquanto não chegou a noite, e mesmo assim, ela levou-me consigo e deitou-me a seu lado, e a força da sua protecção foi tão forte que eu percebi que ela era mais forte que pai, o avô que era seu filho, os tios todos juntos, a cobra, o cavalo, o cão, o perú. Próximo da sua cabeça que não via, o próprio dia desapareceu sem receio da noite e as suas mãos mostraram um poder desconhecido.
Foi, pois, assim. Uma força fez estremecer a harmonia do mundo em Boliqueime, mas uma outra, feita de outra força, aparecia. Para sempre aparecia»

É esta força, e uma outra força ainda por inventar, que deixamos a Lídia Jorge, na hora, em que se chora o falecimento de sua mãe Maria dos Remédios Silva Guerreiro, de 92, que estava internada no Centro Hospitalar Universitário do Algarve. E de igual modo, abraçamos Carlos Albino.


Neto Gomes

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