OPINIÃO

JOÃO LEAL

"Vende-se?" E a memória que nos honra?

 Crónica de um outro algarve

“Vende-se?” E a memória que nos honra?

“Ele está, para mim, no meio da primeira fila dos que estão à frente disto tudo”, afirmou Al-meida Negreiros, a 1 de Abril de 1924, a propósito do Dr. Francisco Fernandes Lopes (para pleno orgulho de todos nós os nascidos ou viventes aqui no rodapé ibérico, uma das referências maiores da inteligência algarvia e da intelectualidade portuguesa no século XX) ou como, anos mais tarde (30 de Junho de 1972) o escrevia o prolífero escritor, jornalista e algarvista Antero Nobre (cujo centenário ocorreu ignoradamente em 2010): “Uma autêntica figura da Renascença desgarrada do nosso tempo”.
Foi o enciclopédico e genial Dr. Francisco Fernandes Lopes, nascido em Olhão (27 de Outubro de 1884) e falecido em Lisboa (6 de Junho de 1969), um homem que como se lê no “site” da dinâmica e prestigiada APOS “embora sendo médico – licenciou-se em Medicina, com 18 valores, em 1911, pela Faculdade de Medicina de Lisboa – notabilizou-se sobretudo como musicólogo, musicógrafo, historiador, filósofo, etnógrafo, inventor, etc., etc.,”, que é, naquele mesmo valioso site, antecedido da referência “dedicou-se a estudar quase tudo do Mundo, quase nunca saindo de Olhão…”
Tanto havia para escrever sobre este este algarvio universal que nos honra e de modo afectivo especial a “Terra Mãe” onde quase sempre viveu até 1965, atingira então os oitenta anos, que as palavras são insuficientes e colmatadas pela admiração sem limites que por ele nutrimos.
Mas vamos de pronto ao que motivou esta crónica sobre a casa onde nasceu o Dr. Francisco Fernandes Lopes, na rua que, com toda a justiça mantém o seu nome, ali parede meias com Ria Formosa, no emaranhado de vielas e ruelas.
Foi uma das muitas manhãs de sábado magrebino, pela semelhança do seu mercado à beira-mar com gentes, algarviadas, produtos nossos porque semeados, crescidos e colhidos na terra olhanense, que ao passarmos junto a esse santuário (ou que o deveria ser como referência assinalada da Região) demos, a par da placa “Nesta casa nasceu… o Dr Francisco Fernandes Lopes…” com a fritante placa “VENDE-SE”.
Somos pelo respeito que é devido no que à propriedade privada e aos legítimos direitos que aos seus proprietários estão cometidos. Mas e a posição do Município e das entidades algarvias responsáveis pela nossa Terra Mãe? Porque não existe uma atitude determinada e determinante da Câmara Municipal de Olhão e das personalidades apontadas (Delegação Regional da Cultura, AMAL, Governo Civil, Região de Turismo do Algarve, etc.?
Aquela casa onde nasceu essa honra e glória do Algarve que foi o Dr. Francisco Fernandes Lopes (“Homem de elevada estatura, curvado pelos anos, robusto. Pulsos fortes. Sobrancelhas bastas, olhar bondoso, uns olhos castanhos, serenos e profundos. Creio que calçava botas pelo artelho, vestia colete, onde guarda o relógio de bolso, mas lapinhos e borrachas (…),” neste magnífico retrato de um outro olhanense – Botelho Júnior, in “A Voz de Olhão” (15.10.1994), era o lugar indicado, talvez único e valorizador da Casa – Museu deste Olhanense do Renasci-mento no Século XX.

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