João Vaz: de pescador covarde a corsário destemido


– Saqueou Arenilha e Monte Gordo em 1531

Decorria o ano de 2018 quando, a convite da Area de Cultura del Ayuntamiento de Ayamonte, redigimos a investigação intitulada “A pirataria na foz do Guadiana na primeira metade do século XVI”, para publicação nas XXIII Jornadas de Historia de la muy noble y leal ciudad de Ayamonte. Foi, portanto, durante a investigação para a publicação deste estudo, cuja separata foi editada pela Editora Guadiana de Vila Real de Santo António, que nos deparámos com um episódio de grande interesse e que bem merece ser partilhado. Referimo-nos, desde logo, à acção corsária de João Vaz, um renegado natural do sotavento algarvio que, depois de se converter ao islão, deixou de ser um pescador covarde para se transformar num corsário destemido.


Ora, escrevíamos sobre o ano de 1531, durante o qual D. Gonçalo Coutinho foi nomeado capitão da Armada do Estreito, quando identificámos no Capítulo XXXV dos Anais de Arzila, de Bernardo Rodrigues, um combate naval ocorrido entre a foz do Guadiana e a barra de Lepe. Com efeito, diz-nos o escritor e militar quinhentista que o capitão D. Gonçalo Coutinho, então incumbido de patrulhar as costas do Algarve, interceptou uma fusta da cidade norte-africana de Larache à qual não tardou a dar combate. A batalha naval, que de início parecia favorável aos portugueses, mudou radicalmente quando os mouros, que iam “já mancos de alguns remos que a artelharia mancara”, decidiram contra-atacar num acto de manifesto desespero. De facto, refere Bernardo Rodrigues que “deixarão nosa armada injuriada e se vierão a Larache”, sendo que “deste acontecimento ficou João Vaz mais danado e aceso de soberba do que andava” (Tomo II, Livro IV, Capitulo XXXV).

Planta seiscentista de Larache em Descrição e plantas da costa, dos castelos e fortalezas, desde o reino do Algarve até Cascais, da ilha Terceira, da praça de Mazagão, da ilha de Santa Helena, da fortaleza da Ponta do Palmar na entrada do rio de Goa, da cidade de Argel e de Larache, fl. 112. A.N.T.T., Casa de Cadaval, Nº 29


A alusão a João Vaz levou-nos, desde logo, a tentar perceber de quem se tratava. Foi nesse sentido que, ao procurarmos identificá-lo retrocedendo vários capítulos nos Anais de Arzila, percebemos tratar-se de um dos principais pescadores de Tavira que, depois de residir no Porto de Santa Maria, acabou por se fixar em Arzila com a sua família, escusando-se frequentemente em colaborar com o capitão desta praça no combate aos mouros. Ora, diz-nos Bernardo Rodrigues que João Vaz, “o qual (…) tinhamos por muito fraco e covarde no serviço d’el-rei”, renunciou à fé cristã e se converteu ao islão, sendo que “com a mudança da fé mudou a condição e fez-se um liao contra sua natureza” (Tomo II, Livro IV, Capitulo VIII). Foi então que, passando-se para o lado dos mouros, transformou-se num temido elche corsário ao serviço do alcaide de Larache.

Devido ao seu conhecimento da costa meridional do ocidente peninsular, provocava frequentes danos no litoral de Castela e do Algarve, onde capturava cristãos e os levava como prisioneiros para o Norte de África, tal como aconteceu no ataque a Arenilha e a Monte Gordo que teve lugar nesse ano de 1531, em que capturou duas caravelas e vinte cinco ou trinta pessoas, que depois levou para Larache (Tomo II, Livro IV, Capitulo XXXVI).

Ora, se tivermos em consideração que o termo de Arenilha contava com cinquenta vizinhos (fogos) em 1554 e que cada vizinho era constituído por uma média de quatro ou cinco pessoas, rapidamente chegamos à conclusão que, por então, a população das vilas de Arenilha e de Monte Gordo seria de aproximadamente 225 pessoas. Quer isto dizer que a população aprisionada neste ataque do corsário João Vaz constituía parte significativa da demografia do termo arenilhense. De resto, foi com alguma surpresa que constatámos que a intenção relativa à realização deste ataque aparece registada num documento castelhano. De facto, já a carta do capitão D. Gabriel de Córdova para D. Isabel de Portugal, de 12 de Agosto de 1531, publicada no Volume I de Les Sources Inédites de l’histoire du Maroc (archives et bibliothès d’ Espagne), revela que “los navios del rio de Arnarache y los de Tituan se an juntado, y que quieren yr a hazer salto en Caliz o al condado de Ayamonte”. Não sabemos se a esposa de Carlos V e então regente de Espanha terá chegado a alertar o marquês de Ayamonte, que estava incumbido de “la guardia desta costa” (A.N.T.T., Corpo Cronológico, Parte I, maço 45, Nº 9) para a iminência deste ataque. Seja como for, e como vimos através da crónica de Bernardo Rodrigues, o assalto acabou por ser direccionado para as praias de Arenilha e de Monte Gordo que, por se encontrarem mais desprotegidas a nível da defesa, permitiam aos atacantes melhores condições de desembarque.

Capa de A pirataria na foz do Guadiana na primeira metade do séc. XVI, de Fernando Pessanha
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Relativamente a João Vaz, diz-nos Bernardo Rodrigues que não levou a melhor durante muito tempo. De facto, o capítulo XXXVI dos Anais de Arzila narra em pormenor “como se ordenou a morte de João Vaz”, alguns dias após o referido ataque a Arenilha e a Monte Gordo. Com efeito, diz-nos o cronista que depois de o corsário ter entrado em Larache com os despojos do ataque ao termo arenilhense, o capitão de Arzila mandou o adail Lopo Mendes com quarenta cavaleiros espiar o rio daquela cidade, para procurarem o rasto de uns escravos evadidos. Foi então que João Vaz foi avistado “a pescar aos lingoados” e que Pêro Moreno “espedio a lança da mão e quis Deos ir tão bem guiada que pasou o João Vaz de ua parte a outra”. E foi assim que o elche acabou os seus dias, varado pelas lanças dos seus anteriores irmãos de fé. É caso para dizer que “quem pela espada vive, pela espada morre”! Aos interessados nestas matérias aqui deixamos o convite para o lançamento de A pirataria no extremo sudeste algarvio nos alvores da Idade Moderna, que terá lugar na Biblioteca Municipal de Vila Real de Santo António, pelas 18h00, no próximo dia 18 de Novembro de 2021.

Fernando Pessanha

*Historiador

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