Jornal do Algarve recorda Vicente Campinas

No dia 3 de Novembro deste ano de 2018, cumpriram-se 20 anos sobre a morte do escritor vila realense António Vicente Campinas. Nesta ocasião a homenagem foi prestada na Biblioteca Municipal de Vila Real de Santo António, que tem o seu nome, pelo Gr. 60 da Associação dos Escoteiros de Portugal, da cidade pombalina.

Durante a sessão, foi  recordado o impacto que Vicente Campinas teve na sociedade vila-realense a nível cultural e social e  inaugurada uma exposição que conta com vários livros da primeira biblioteca pública da cidade (então vila), constituída pelos escoteiros de Vila Real de Santo António, em 1946, sob o comando do então escoteiro-chefe António Vicente Campinas.

A. Vicente Campinas como gostava de assinar os seus livros, foi intenso colaborador do “Jornal do Algarve” e de tal se pode ter nota visitando as edições que se encontram na Biblioteca Municipal à qual foi dado o seu nome. Muita da sua obra foi editada pelo próprio, mas também tem livros que mereceram a atenção de importantes editoras portuguesas e o próprio Jornal do Algarve editou-lhe cinco livros: Três dias de inferno, 1980, Vigilância, Camaradas, 1981, Gritos da Fortaleza, 1981, Putos ao deus-dará, 1982, Rio Esperança, Guadiana, meu amigo, 1983.

Campinas nasceu em 28 de Dezembro de 1910 na freguesia de Vila Nova de Cacela, mas de muito novo foi para a sede do concelho com os pais. Logo aos 18 anos, com António Bandeira Cabrita, esteve na origem do movimento que reforçou em Vila Real de Santo António a unidade sindical, com a fundação do Sindicato dos Trabalhadores da Terra e do Mar.

O primeiro emprego foi na Tipografia Socorro. Depois, foi guarda-livros nas firmas Capa, Folque e Rita. Abriu uma livraria na Rua Teófilo Braga . Em 1935, fundou e dirigiu o jornal “Foz do Guadiana”, que se publicou em Vila Real de Santo António. Foi também colaborador regular do importante semanário de crítica literária e artística “O Diabo”, desde a sua criação (1934), até ao seu encerramento pela polícia fascista (1940). Foi também colaborador de vários jornais e fundador do “Jornal do Cinema” que obteve alguma projeção.

A sua paixão foi sempre a escrita e a Literatura. Acompanhou Alves Redol, Manuel da Fonseca e Fernando Namora, entre outros escritores portugueses. Sofreu perseguições políticas, foi preso e esteve exilado em França. Militante do PCP desde muito novo, foi poeta, romancista, cronista e jornalista, resistente à ditadura fascista de Salazar e Caetano, tendo participado ativamente no combate pela liberdade e a democracia. Pagou a militância com a prisão e o exílio em terras de França, onde chegou a trabalhar na construção civil.

O universo dos seus livros é o mundo do trabalho, as operárias conserveiras, a muralha, a vida dura e difícil dos vilarealense da baixa-mar. Para quem quiser conhecer a alma de Vila Real de Santo António e os mistérios do Guadiana, campinas é uma lição de escrita.

Apesar da sua escrita implacável contra o sofrimento dos pobres e as condições de exploração do povo português,António Vicente Campinas era um homem de rosto tranquilo, fala serena, afável e um bom companheiro de tertúlia.

Entre os seus trabalhos, contam-se:- Aguarelas (poesia), 1938, Recantos farenses (Livraria Campina), 1956, Lisboa, Outono (Livraria Ibérica), 1959, Preia-mar, poesias (Ed.do Autor), 1969, Reencontro, 1971, Escrita e combate – textos de escritos comunistas, 1976, Natais de exílio, 1978, Homens e cães (contos), 1979, Fronteira azul carregada de futuro (Ed.do Autor), 1984, O dia da árvore marcada (Nova Realidade), 1985, Fronteiriços (Nova Realidade), 1986, Ciladas de amor e raiva (Ed. do Autor), 1987, Segredo do meio do mar (Ed. do Autor), 1988, Mais putos ao deus-dará (Orion), 1988, O azul do sul é cor de sonho, narrativas, 1990, A dívida, os corvos e outros contos (em colaboração com Manuel da Conceição) 1992, e Guardador de Estrelas, antologia, 1994, ultimo trabalho que lhe conhecemos.

Homenageado

 

Vicente Campinas, ainda jovem, quando era escoteiro-chefe em Vila Real de Santo António

Em 1994, quando já se encontrava imobilizado e muito doente, a autarquia vila-realense prestou-lhe uma digna homenagem pública e o seu nome foi dado a uma artéria da cidade, tendo sido publicada então uma antologia da sua obra sob o título “Guardador de Estrelas”, compilação de Gil Furtado, com prefácio de Urbano Tavares Rodrigues.

Em 2011, Campinas foi alvo de nova homenagem, por ocasião do centenário do seu nascimento. A vida e obra do escritor foram evocadas numa cerimónia promovida pela Câmara Municipal, que decorreu na Biblioteca com o seu nome. As comemorações do nascimento de António Vicente Campinas começaram em 2010 com a inauguração de duas exposições na Biblioteca Municipal, mas prolongaram-se por todo o ano de 2011.

A Biblioteca Municipal de Vila Real de Santo António teve patente duas exposições integradas nas comemorações do centenário do nascimento do escritor: uma mostra filatélica organizada pela Secção de Coleccionismo dos Bombeiros Voluntários, bem como a exposição “Vicente Campinas – O Homem e o Escritor – 100 Anos”, organizada pela própria biblioteca e composta por documentos do escritor, notas manuscritas e diversos painéis explicativos. Foi também lançado um selo e um postal comemorativos do centenário do nascimento do escritor.

Por ocasião do 109ª aniversário do nascimento de Manuel Cabanas, a Liga dos Amigos da Galeria Manuel Cabanas levou a cabo um programa de comemorações que incluía Vicente Campinas, conterrâneo e amigo daquele outro ilustre vila-realense: “Manuel Cabanas e Vicente Campinas – Uma Relação de Amizade”. Em Abril, na Biblioteca Municipal, realizou-se uma palestra com Teresa Rita Lopes e Rui Moura (que musicou poemas de Vicente Campinas); e, por fim, em Setembro, teve lugar, também na biblioteca, uma tertúlia com familiares, amigos e conhecidos de Vicente Campinas.

O historiador António Rosa Mendes (1954 – 2013) disse da sua obra: “Não vivi esses tempos, mas ao ler a obra de Campinas é como se os tivesse vivido. É esse o poder da literatura. E temos que agradecer a quem nos lavrou essas páginas, as quais contribuíram para que, hoje em dia, possamos saber ainda melhor como se vivia em Vila Real de Santo António há meio século”.

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