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Litoral de Cacela Velha precisa de uma intervenção urgente

A destruição da arriba está a colocar a fortaleza em risco (Foto: Patrícia Leal/ADRIP facebook)

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Depois do assoreamento da Ria Formosa, que tem vindo a acabar com a produção de bivalves, os últimos temporais destruíram parte da arriba que sustenta a fortaleza. Assembleia da República aprovou na última semana o levantamento do património em risco na costa algarvia, mas, no caso de Cacela Velha, as medidas, quando chegarem, poderão vir demasiado tarde. Ministério do Ambiente vai pronunciar-se dentro de um mês, depois de analisar a documentação entregue pela presidente da Câmara de VRSA

DOMINGOS VIEGAS

A destruição da duna primária, na zona de Cacela Velha e da Fábrica, no concelho de Vila Real de Santo António, e o consequente assoreamento do extremo nascente da Ria Formosa, começou a inviabilizar as atividades económicas ligadas à pesca, à produção de bivalves e marítimo-turísticas.

Os alertas para a necessidade de reposição do cordão dunar e para o desassoreamento da barra e dos canais de navegação, que têm sido lançados desde há vários anos pela Associação de Defesa, Reabilitação e Investigação do Património Natural e Cultural de Cacela (ADRIP), e posteriormente também pelo PCP, têm caído em saco roto.

Além de estar em causa a continuidade das atividades económicas naquela zona da Ria Formosa, que têm desaparecido nos últimos anos, também está a acontecer “uma catástrofe ambiental, devido à destruição de todo o seu património natural”, tal como a ADRIP alertou, há mais de três anos, num documento enviado à Agência Portuguesa do Ambiente (APA).

Mariscadores, operadores marítimo-turisticos, a própria ADRIP e todos os que vivem da Ria Formosa não têm dúvidas de que a intervenção efetuada em 2010, que consistiu na abertura de um novo canal com o objetivo de melhorar a circulação da água, em detrimento do que existia até então, foi “o maior erro alguma vez cometido”, já que “foi pensado apenas no imediato e os resultados estão à vista: a ria completamente assoreada e toda a vida marinha exterminada”.

Por seu turno, em resposta a questões colocadas pelo deputado comunista Paulo Sá, o Ministério do Ambiente disse que se tratava de “um fenómeno natural”, que não prevê a realização de novos trabalhos e que uma nova intervenção requer “a ponderação entre os seus custos e benefícios”, tal como o Jornal do Algarve chegou a noticiar na edição do passado dia 15 de fevereiro.

Fortaleza em risco

Mas os temporais do último mês de março trouxeram mais um problema para Cacela Velha. O mar entrou com mais força do que o habitual até à linha de costa e escavou parte da arriba que sustenta a fortaleza, deixando em risco este património edificado há vários séculos. A erosão, provocada pelo mar depois de galgar a duna primária e de entrar pela nova barra, também já atingiu o sítio arqueológico localizado na arriba.

Imediatamente após os temporais, a presidente da Câmara Municipal de Vila Real de Santo António, Conceição Cabrita, esteve no local e garantiu que já tinha solicitado uma reunião urgente com os responsáveis do Ambiente para avaliar os problemas daquela zona, incluindo a questão do assoreamento da ria e a da muralha da fortaleza. A reunião decorreu no final da passada semana e o ministro do Ambiente garantiu que se pronunciaria dentro de um mês, depois de analisar toda a documentação entregue pela autarca.

Na segunda semana de março, o Grupo Parlamentar do PSD, através dos deputados José Carlos Barros e Cristóvão Norte, entregou um projeto de resolução onde propunha à Assembleia da Republica que recomendasse ao Governo uma inventariação urgente das situações de risco do litoral algarvio, fazendo menção a Cacela Velha. Mais recentemente, na passada sexta-feira, o Bloco de Esquerda viu aprovado no Parlamento um projeto de resolução no mesmo sentido.

No início da última semana, uma delegação do PCP integrando o deputado Paulo Sá e eleitos locais da CDU, esteve em Cacela Velha para contactar com quem vive e trabalha na Ria Formosa e fazer o levantamento dos problemas sentidos no terreno, com vista a avançar com mais intervenções na Assembleia da República e nas autarquias.

Mais recentemente, na tarde da passada sexta-feira, o deputado socialista Luís Graça, acompanhado por outros deputados socialistas, pelo presidente da Junta de Vila Nova de Cacela, Luís Rodrigues, por outros autarcas de Vila Real de Santo António e pela presidente do PS de VRSA, Célia Paz, também visitaram o núcleo histórico e patrimonial da aldeia de Cacela Velha, para apreciarem no terreno a evolução da linha de costa, o estado do cordão dunar e os danos causados pelas recentes tempestades.

“Aguardamos as diligências por parte do Município junto do Ministério do Ambiente para que se unam esforços no sentido de que a questão da Ria Formosa, em Cacela, toda a devastação do cordão dunar e demais pontos que colocam em risco todo o património natural e cultural seja reposto e reparado o erro crasso de 2010 com a abertura da barra frente ao Forte”, consideram os responsáveis da ADRIP.

Na última semana foram anunciados cerca de 10 milhões de euros de investimento por parte do Governo para o litoral algarvio, dos quais 800 mil para recuperar zonas afetadas pelos temporais, mas a zona de Cacela Velha não foi contemplada, por isso, os problemas, pelo menos para já, vão continuar.

(Reportagem publicada na edição impressa e semanal do Jornal do Algarve de 12/04/2018)

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