Luís Encarnação: “As portagens só trazem custos e constrangimentos para a região”

Abolição das portagens, navegabilidade do rio Arade e regionalização. Estes seriam os “três desejos” do novo presidente da Câmara de Lagoa, Luís Encarnação, caso encontrasse o “génio da lamparina”. Em entrevista ao JORNAL do ALGARVE – a primeira após substituir Francisco Martins por motivos de saúde – o autarca socialista fala dos grandes investimentos previstos para o concelho nos próximos anos: a requalificação da Baixa de Ferragudo e o Parque Urbano de Lagoa, num total de 10 milhões de euros. Os problemas de estacionamento no concelho também estão na lista de prioridades do município, que por estes dias vive dias de festa com a 40ª edição da Fatacil

Jornal do Algarve – Assumiu há poucas semanas a presidência da Câmara de Lagoa, depois de Francisco Martins renunciar por motivos de saúde. É difícil assumir o cargo nestas circunstâncias?

Luís Encarnação – A parte mais difícil nesta situação foi precisamente assumir o cargo devido aos problemas de saúde do Francisco, porque, para além da nossa relação profissional, temos uma amizade que se solidificou nestes seis anos que trabalhámos em conjunto. Agora, quem é “número dois” num projeto político tem de estar preparado para assumir o cargo. E eu já acompanhava vários dossiês enquanto vice-presidente, por isso, essa foi a parte mais fácil.

J.A. – O que já mudou na sua vida depois de assumir o cargo de presidente?

L.E. – Muito pouco, até pelo que disse. Até agora, não existiram mudanças significativas na minha vida, porque está a ser uma transição com alguma naturalidade.

J.A. – Qual foi a sua primeira decisão na liderança do executivo da Câmara de Lagoa? E qual é o primeiro desafio no topo da sua lista?

L.E. – A primeira decisão foi a redistribuição dos pelouros e o primeiro desafio foi redefinir algumas prioridades para o resto do ano, tendo em conta a época estival em que nos encontramos. Há algumas dificuldades e constrangimentos que estamos a sentir no concelho, relacionadas com a recolha de resíduos sólidos urbanos, o abastecimento de água numa altura em que temos quase 120 mil pessoas no concelho, a limpeza das ruas e o tratamento de jardins. Como tal, tomámos medidas para dar uma resposta imediata a estes problemas.

J.A. – Que investimentos destaca para os próximos anos? O que vai mudar em Lagoa?

L.E. – Temos uma série de projetos – alguns até de grande dimensão – que estamos preparados para desenvolver com os nossos fundos próprios, até porque agora não é fácil aceder aos fundos comunitários, uma vez que a região do Algarve está num processo de “phasing out” e não temos a mesma possibilidade que outros concelhos têm de aceder aos fundos europeus. Mesmo assim, temos vários investimentos para fazer na requalificação do espaço público.

J.A. – Pode destacar dois ou três…?

L.E. – Destaco a requalificação da Baixa de Ferragudo (que envolve um investimento de quatro milhões de euros) e a requalificação do Parque Urbano de Lagoa (seis milhões de euros). Estes são, seguramente, os dois maiores investimentos que temos para fazer nos próximos anos e que obrigarão a um esforço financeiro por parte da autarquia. Depois da Fatacil deste ano, pretendemos avançar logo com a primeira das três fases da requalificação do Parque Urbano de Lagoa, que começa pela construção do novo picadeiro municipal. Este novo parque urbano vai nascer numa área que contempla o recinto da Fatacil (parque de feiras e exposições), o parque de estacionamento, assim como a zona atrás do campo de futebol. A ligação da cidade ao parque urbano será feita por uma ponte pedonal e ciclável. A intervenção incluirá a relocalização dos edifícios de restauração e de secretariado, a ampliação do picadeiro, a reestruturação do parque desportivo (com inclusão de uma pista de patinagem), assim como a integração do campo Josino da Costa, com ampliação da bancada, novos balneários, áreas técnicas e a dotação de um relvado sintético complementar ao atual. Já no que toca ao projeto de requalificação da Baixa de Ferragudo, prevemos lançar o concurso no final deste ano ou no princípio do próximo. A ideia é criar uma grande entrada em Ferragudo, totalmente voltada para quem anda a pé, e tornar o atual canal num espelho de água permanente, em cujas margens verdejantes se possa estar.

J.A. – O que ainda falta a um concelho como Lagoa? E que medidas estão a ser ponderadas nesse sentido?

L.E. – Temos várias obras importantes para colmatar as dificuldades sentidas pela população e turistas no nosso concelho. Uma delas é a questão do estacionamento. Temos dificuldades de estacionamento em Ferragudo, Carvoeiro e na cidade de Lagoa, portanto, temos de solucionar esta situação. Para Ferragudo e Carvoeiro já existem ideias definidas, que passam pela construção de dois silos, sendo que já existem locais definidos em ambas as localidades. No caso de Lagoa, estamos a estudar soluções. Estamos a falar de 300 a 400 lugares de estacionamento para Carvoeiro, 250 a 300 para Ferragudo e, em Lagoa, ainda estamos na fase de tentar perceber quantos poderemos criar.

J.A. – Lagoa anima-se por estes dias com a 40ª edição da Fatacil. Qual é a importância deste evento para a afirmação do concelho? E quais as expetativas para este ano?

L.E. – A Fatacil está ao nível dos grandes eventos nacionais. A prova disso é que fez parte da curta lista dos Iberian Festival Awards, que integrou cinco eventos portugueses e cinco espanhóis. Temos, seguramente, a maior feira generalista a sul do Tejo – sobre essa matéria não há qualquer tipo de dúvidas –, que atrai todos os anos multidões. Em 2018, recebemos 180 mil visitantes e a nossa expetativa é que esse número ainda possa crescer mais, batendo assim um novo recorde de visitantes. Acho que isso será possível nesta 40ª edição, pela qualidade do cartaz musical, pela oferta que temos para o público mais jovem, pelo aumento da área da feira, pelas oficinas de artesanato ao vivo, pelos batismos equestres diários, pelos produtos da serra e do mar no espaço “Amar a Terra”, sem esquecer toda a oferta gastronómica que existe no recinto da Fatacil. Enfim, eu acho que estão reunidas todas as condições para que esta edição seja um enorme sucesso. Ao mesmo tempo, queremos continuar a afirmar Lagoa como um concelho com uma oferta cultural muito forte, capaz de atrair públicos não só do nosso município, mas também de concelhos vizinhos do Algarve.

J.A. – Vai recandidatar-se nas próximas eleições à Câmara de Lagoa (2021). Já tomou essa decisão?

L.E. – Como frisámos desde o início, em 2013, este era um projeto a 10-12 anos. O Francisco Martins, pelas razões que são conhecidas, sai mais ou menos a meio desse período que foi definido para implementar este projeto para Lagoa. Saindo o Francisco, acho que tenho condições para dar continuidade a esse projeto. Por isso, posso responder que serei naturalmente candidato ao próximo mandato autárquico e estarei disponível para continuar a trabalhar por Lagoa e pelos lagoenses.

J.A. – E o que é que a população do concelho de Lagoa pode esperar de si?

L.E. – Pode esperar de mim continuar a trabalhar com toda a determinação e empenho no desenvolvimento desta cidade e deste concelho. Eu desejo tornar Lagoa um local cada vez mais excelente para viver, trabalhar ou visitar. O nosso objetivo passa por continuar a afirmar Lagoa como um concelho ativo, inclusivo e com grande qualidade de vida.

J.A. – Se o “génio da lamparina mágica”, ou o primeiro-ministro António Costa, lhe concedessem três desejos a favor do Algarve, quais seriam?

L.E. – O primeiro desejo seria a abolição total e definitiva das portagens na Via do Infante. Já não há dúvidas de que se trata de uma medida extremamente prejudicial para todos. Além disso, coloca grandes constrangimentos ao nível do mercado da Andaluzia, que está aqui mesmo ao nosso lado, e onde vivem seis milhões de pessoas. É um mercado com um potencial enorme, mas quem vem da Andaluzia para o Algarve e entra na região pela ponte internacional do Guadiana, já não repete a experiência. O que se passa na fronteira é de fazer fugir qualquer um, pois colocam as pessoas numa fila interminável para comprar um cartão para poder circular na principal via de acesso da região. E uma região que vive essencialmente do turismo não pode, em momento algum, dar-se ao luxo de tratar daquela forma os turistas. Esta é uma situação perfeitamente inaceitável e contraproducente. Além disso, as portagens não fazem qualquer sentido na Via do Infante porque não há mais nenhuma alternativa. Digam o que disserem, a EN125 não é uma estrada alternativa, é uma rua que atravessa o litoral do Algarve e, portanto, isto não faz qualquer sentido, só traz custos e constrangimentos enormes para a região, afetando fortemente o turismo e todas as atividades relacionadas com este setor…!

J.A. – E o segundo desejo?

L.E. – O segundo desejo seria pedir a navegabilidade do rio Arade até à cidade de Silves. Seria muito benéfico para os três concelhos (Lagoa, Portimão e Silves). Lagoa tem 17 quilómetros de uma costa fantástica, mas tem outro tanto de uma zona ribeirinha com um potencial enorme que pode – e deve – ser explorado do ponto de vista turístico.

J.A. – E o último seria…?

L.E. – A regionalização! É fundamental para a região do Algarve e Lagoa também teria a beneficiar com essa questão. Já somos uma região por natureza, com as suas fronteiras muito bem definidas, além de que a regionalização é algo que está definido na Constituição da República Portuguesa e que continua, por isso, por cumprir. Creio que o entrave é apenas vontade política. Hoje já se começa a ver a luz ao fundo do túnel nesta matéria da regionalização, mas, na minha opinião, todo o tempo que se perde é precioso. Será um passo decisivo para afirmar o desenvolvimento das regiões no nosso país. Não tenho dúvidas de que o Algarve tem tudo a ganhar com a regionalização. O princípio que está assente nesta ideia é o da subsidiariedade, ou seja, quem está mais perto dos problemas e das populações tem uma maior capacidade de os poder resolver, com ganhos de eficácia e eficiência que são muito importantes nos dias de hoje.

(ENTREVISTA PUBLICADA NA ÍNTEGRA NA ÚLTIMA EDIÇÃO EM PAPEL)

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