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“Médicos cubanos realizam 1,4 milhões de consultas em cinco anos”

Johana Ruth Tablada de la Torre é embaixadora de Cuba em Portugal desde novembro de 2013
Johana Ruth Tablada de la Torre é embaixadora de Cuba em Portugal desde novembro de 2013

Em entrevista esta semana ao JA, a embaixadora cubana em Portugal faz um balanço “muito positivo” do processo de contratação de médicos cubanos para ajudar a suprir a carência de clínicos em vários centros de saúde do Algarve e de outras zonas carenciadas. Johana Tablada revela em primeira mão ao JA que, desde 2009 e até ao final de 2014, os profissionais cubanos realizaram cerca de 1,4 milhões de consultas ao serviço do SNS. A embaixadora lembra ainda que Vila Real de Santo António foi pioneiro a enviar pacientes a Cuba e que, oito anos depois, as relações entre ambos estão mais sólidas que nunca

 

Jornal do Algarve – Desde 2009 que médicos cubanos ajudam a responder às necessidades de médicos de família em Portugal, e mais concretamente no Algarve? Qual o balanço desta parceria?
Johana Tablada – Em agosto de 2009, chegou a Portugal a primeira brigada médica, composta por 44 médicos especialistas em medicina familiar, para cobrir as zonas mais carenciadas do país, mais especificamente as regiões do Algarve, Alentejo e Lisboa e Vale do Tejo. O balanço tem sido muito positivo para ambos os países: até ao final de dezembro de 2014 foram consultados um total de 1.380.494 pacientes dessas zonas mais carenciadas. As populações têm recebido muita atenção e carinho dos médicos cubanos e, ao mesmo tempo, os médicos têm aproveitado o intercâmbio de experiências, conhecimentos e culturas com os médicos portugueses e amigos.

J.A. – Sabe quantos médicos estão atualmente em Portugal? E no Algarve?
J.T. – Atualmente, no Algarve temos deslocados um total de 19 médicos, espalhados pelos municípios de Aljezur, Silves, Lagos, Lagoa, Albufeira, Portimão, São Brás de Alportel, Loulé e Vila do Bispo. Ao todo, em Portugal, são 70 os médicos cubanos com convénio de prestação de serviços de saúde, mais três profissionais que trabalham na clínica de reabilitação em Vila Real de Santo António e dois especialistas em oftalmologia que pertencem a um grupo itinerante.

J.A. – Até quando vai durar esta parceria na área da saúde entre Cuba e Portugal?
J.T. – A parceria entre Cuba e Portugal vai continuar enquanto for positivo para ambas as partes. Era bom que Portugal conseguisse resolver a situação da escassez de médicos em algumas regiões. Mas ainda não é o caso hoje, por isso, a vontade de ambos os países é manter algo que funciona e funciona bem para benefício de todas as partes.

J.A. – Isso significa que ainda poderão chegar mais médicos de Cuba ao Algarve, já que a região tem um défice crónico de profissionais de saúde?
J.T. – Está, de facto, previsto um aumento de médicos neste ano de 2015, mas quem faz a distribuição é o Ministério da Saúde português, por isso, ainda não posso confirmar se serão deslocados mais médicos cubanos para o Algarve. Eles estão dispostos a ir para qualquer lugar…

J.A. – No Algarve, em 2007, o município de Vila Real de Santo António foi pioneiro no envio de pacientes a Cuba para consultas de oftalmologia. Como vai esta relação?
J.T. – A relação entre a Câmara de Vila Real de Santo António e os Serviços Médicos Cubanos (SMC) está a atravessar o seu melhor momento, não só porque os pacientes mais necessitados são enviados para Cuba, como também já existem aqui profissionais cubanos nas especialidades de reabilitação física e oftalmologia. Recordo que foi inaugurada, no ano passado, a Clínica Internacional de VRSA, em parceria com os SMC, que tem tido excelentes resultados.

J.A. – E já outros municípios algarvios estabeleceram parceria com os serviços médicos cubanos. Há mais interessados nessa parceria?
J.T. – A parceria com outros municípios do Algarve existe também desde 2009, ou seja, todos podem enviar um paciente para Cuba para ser operado às cataratas ou a outros problemas de saúde. Mas, apesar de o interesse de ambas as partes, a verdade é que, desde 2011, que a parceria não continuou, devido à situação económica que afetou Portugal.

J.A. – Apesar disso, oito anos depois de ter iniciado esta ligação com o Algarve, as relações continuam a dar frutos?
J.T. – Com o passar dos anos, as relações ficam mais sólidas e estáveis, de modo que os frutos colhidos foram crescendo a cada ano de parceria e experiências, com um alto nível de aceitação da população em todo o país.

J.A. – Também já ocorreram importantes intercâmbios culturais, como o recente Projeto José Martí, em VRSA. Estão previstos intercâmbios noutras áreas, como no turismo e no comércio?
J.T. – Hoje vivemos um processo de aprofundamento das nossas relações a todos os níveis e em todos os planos, e os projetos culturais acompanham muito bem estes processos. Trabalhamos em Vila Real de Santo António com entusiasmo e a pensar nos benefícios que estamos a dar a ambos os povos. As portas estão abertas para tudo neste momento…

J.A. – Como é que os cubanos olham para o nosso país e para o Algarve?
J.T. – Com carinho, pois o Algarve tornou-se quase numa capital da cultura cubana, pela realização sistemática das jornadas culturais e a sua presença na nossa imprensa. E há ainda esta experiência de cooperação médica. Por tudo isto, o presidente da Câmara de VRSA, Luís Gomes, que sempre foi muito ativo nesta parceria, recebeu a “Medalha de Amizade” do Instituto Cubano de Amizade com os Povos (em novembro de 2014).

J.A. – E como é que estão a viver estas alterações das relações com os EUA?
J.T. – Com esperança e cautela. Com a convicção de que podemos e devemos encontrar uma forma de viver em paz, com respeito às nossas importantes diferenças, pois essa sempre foi a posição de Cuba. Temos esperança que, pela primeira vez na história dos Estados Unidos, eles aceitem e reconheçam Cuba como um país soberano e que compreendam que não podem escrever o nosso próprio destino em inglês. Por enquanto, todavia, o bloqueio permanece, embora existam sinais que nos permitem sentir orgulhosos e confiantes no futuro.

J.A. – O que espera do fim do bloqueio e da abertura económica de Cuba ao mundo?
J.T. – Cuba tem relações diplomáticas com 187 Estados e relações económicas com 125 países. Se os Estados Unidos levantarem efetivamente o embargo e retirarem as sanções, Cuba pode desenvolver-se pela primeira vez na sua máxima capacidade. Temos uma nova lei de investimento, uma nova zona especial de desenvolvimento e um povo alegre, culto e solidário, que sofreu muito com a política injusta do seu vizinho, mas não chega a este dia com ódio nem rancor. Falta ainda muito por fazer e, embora o discurso fale de um novo tempo que é bem-vindo, é necessário acompanhá-lo com o fim do bloqueio e da política de agressão e pressão. Obama tem muitas prerrogativas para fazer avançar até ao final do seu governo para desmantelar tudo isso e esperamos que assim seja.

J.A. – Pode deixar uma mensagem para os algarvios…? E uma palavra especial para aqueles que foram receber cuidados médicos a Cuba…
J.T. – Portugal para mim é como o Caribe do Atlântico Norte. E o Algarve tornou-se numa região que elevou as relações com Cuba a um nível natural e sofisticado, mostrando com exemplos positivos e concretos o quanto podemos fazer através da nossa proximidade cultural e da nossa história comum.

Nuno Couto/JA

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