Menos 80% de passageiros no ferry de VRSA para Ayamonte desde 2020

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O ferry que liga Vila Real de Santo António à cidade espanhola de Ayamonte, que atravessa diariamente o rio Guadiana, deixou de ser considerado uma “mina de ouro” para ser um prejuízo diário, mas obrigatório. Desde a construção da Ponte Internacional do Guadiana em 1991, o barco transfronteiriço tem feito cada vez menos viagens e transportado menos pessoas. Com a pandemia, tiveram quebras de 80%. A Empresa de Transportes do Rio Guadiana tem, no entanto, uma “galinha dos ovos de ouro” para compensar: o serviço marítimo entre as ilhas e Olhão

Em Vila Real de Santo António, o barco “Campino” liga as duas margens do rio Guadiana diariamente, a cada 15 dias, intercalando com a empresa espanhola do ferry. O outro barco que a empresa vilarrealense tinha no concelho, o “Rio Guadiana”, foi levado para Olhão, onde existe mais tráfego.

“Antes da ponte isto era uma mina de ouro, só que as coisas não foram pensadas no futuro e a empresa acabou por passar por muitas dificuldades”, começa por dizer ao JA um dos sócios-gerentes, Francisco Santos, de 62 anos.

A Empresa de Transportes do Rio Guadiana foi fundada a 25 de abril de 1935 e é constituída por cerca de 60 sócios. Inicialmente era gerida por duas famílias, mas com o passar do tempo foi passando para outras gerações e até para funcionários.

“Com as dificuldades que a empresa passou, a maneira de colmatar essa situação era dar uma percentagem aos funcionários. Há sócios espalhados por todo o mundo”, explicou Francisco Santos ao JA, na sede que fica localizada na Avenida da República em Vila Real de Santo António, a escassos metros da antiga fronteira e do barco.

Os sócios da empresa, Manuela Sales, Vargas e Francisco Santos

Uma vida antes da ponte


Antes da construção da Ponte Internacional do Guadiana “havia filas de carros para entrar no barco em Vila Real de Santo António que iam desde o cais até ao farol”, destaca Francisco Santos ao JA.


“Por isso tínhamos dois barcos para transportar carros, um deles o Campino, que ainda está a operar e que consegue levar oito ou nove viaturas, apesar do outro levar muitas mais”, acrescenta.


Nessa época, os barcos “faziam muitos mais horários do que aqueles que são feitos agora, desde as oito da manhã, sempre a andar. Nós tínhamos dois barcos e os espanhóis tinham outros dois. Não parava. Havia dois cais a operar e agora só temos um”, conta Francisco Santos ao JA.


“No verão de 1976 estive a trabalhar como orientador, a estacionar os carros no largo perto do cais. Ia pondo os carros em fila e depois escoando para dentro do barco. Às vezes estávamos a trabalhar até as 22:00”, recorda.


Durante esses tempos que já lá vão, “os barcos levavam camiões, autocarros, autocaravanas e carros de turismo. O outro barco chamado Penisular, todo feito de madeira, levava cerca de 20 carros e as viagens eram feitas de 15 em 15 minutos”.


Francisco Santos recorda ainda que, nessa altura, uma viagem custava cerca de 15 escudos (7,5 cêntimos), enquanto agora o preço é de 1,90 euros.
Antes da Revolução dos Cravos de 25 de Abril de 1974, tudo era diferente no transporte marítimo para Espanha. As mulheres tinham de ter uma autorização dos maridos para passar a fronteira, tal como os filhos, por exemplo.


“Tudo o que era produtos que vinham de Espanha eram controlados. Havia as apalpadeiras, que apalpavam as mulheres, pois havia o esquema das chamadas Mulheres da Carreira, que levavam o café para a outra margem e traziam outras coisas de lá. Foi esse negócio raiano que matou a fome a muita gente em Vila Real de Santo António”, conta o sócio-gerente.


Já depois da Revolução de Abril, as pessoas continuaram a ir a Ayamonte fazer compras “numa altura em que a peseta compensava”.

Ir a Espanha já não é o que era


Hoje, segundo Francisco Santos, “ir a Espanha é um passeio, As pessoas já não vão com o intuito das compras”.


“Antigamente, os supermercados e outras superfícies em Ayamonte estavam localizadas junto ao rio. Agora estão mais afastadas, como é o caso do Mercadona, por isso não justifica as pessoas irem de barco. Vão de carro”, explica.


Ainda há quem vá de barco até Ayamonte para ir à farmácia, “mas acontece já de ramos a páscoas. Já não se vê muito disso. Passou a ser uma viagem turística. Este tipo de experiências ficam na memória das pessoas. Mas a empresa tem muita dificuldade em viver só de memórias. Se não fosse Olhão, o barco de Vila Real de Santo António já não existia”.


No entanto, ainda “há pessoas que usam diariamente o barco”, pois trabalham numa margem e vivem na outra. “São duas ou três pessoas, mas antes era muitas mais”.


Em relação ao transporte de viaturas, “já passam muitos poucos carros de barco e há dias em que não passa nenhum”. E os que passam, normalmente são portugueses “que vão em passeio turístico e tiram umas fotografias com a família”.


Comparando os anos 70 com os dias de hoje, “é 1% daquilo que nós transportávamos de carros. E de pessoas será 4 ou 5%”, confessa o sócio-gerente da empresa.


E o barco não pode parar devido a um simples motivo, que é obrigatório: “Vamos sempre ter que transportar carros, porque de um momento para o outro pode haver algum acidente na ponte e tem de haver uma alternativa de passagem para o outro lado”, explica.


No entanto, existem algumas épocas do ano em que o barco fica mais animado, nomeadamente durante as festas espanholas das Angústias, a Feira da Praia de Vila Real de Santo António e no verão, “uma vez que continua a haver a história dos caramelos e dos chocolates. Quando as pessoas estão aqui de férias vão sempre a Espanha”.


Atualmente, o barco tem horários reduzidos “porque há cada vez menos pessoas e não podemos estar simplesmente a passear o barco”.


Passear o barco, como diz Francisco Santos, tem os seus custos. O barco, num dia com horários reduzidos, gasta cerca de 100 litros de combustível, que é posto em Espanha “porque aqui não temos onde o fazer, tal como acontece com os barcos de pesca, desde que deixou de haver o ponto de combustível na Muralha”, como é chamado popularmente uma das frentes ribeirinhas da cidade.


“Para conseguirmos poupar, tem de ser no combustível e para isso temos de fazer menos viagens. E para fazermos menos viagens, temos de reduzir horários, não temos outra alternativa”, refere Francisco Santos.


O sócio-gerente disse ainda ao JA que se os horários fossem mantidos, o barco estaria a navegar no rio “sem ninguém”. O mesmo, aconteceria aos seus colegas do barco espanhol, mas há uma diferença.


“Os espanhóis têm um número reduzido de pessoal, apenas duas pessoas, enquanto nós somos seis só no barco. Durante os 15 dias que eles param de trabalhar, o Estado paga-lhes como se fosse um fundo de desemprego, mas nós não podemos fazer isso”, explica.


Assim sendo, a única hipótese de poupança “é reduzindo o consumo de combustível, que leva à redução de horários”.


Apesar dos horários da manhã continuarem como antes, agora foram reduzidos alguns durante a tarde e a empresa está a pensar em retirar uma das viagens de domingo.


“Cada horário que retiramos são duas viagens, uma para lá e outra para cá, num dia. Isto ao fim de um mês são muitas viagens e muito combustível poupado. Reduzir mais um horário é a única maneira da empresa aguentar”, acrescenta.

Problemas além da pandemia


O aparecimento da pandemia de covid-19 em 2020 levou ao fecho das fronteiras, por duas vezes, causando “um golpe muito grande à empresa”, que colocou alguns funcionários em lay-off durante alguns meses.


“A empresa levou uma facada de 80% em comparação com 2019”, salienta Francisco Santos ao JA.


Segundo o sócio-gerente, “levou tempo até que as pessoas se sentissem outra vez à vontade para andar num barco ou estar com outras pessoas”.


Depois de voltar ao trabalho, o Governo reduziu a lotação: o barco só poderia transportar um terço do total dos passageiros, reduzindo de 77 para entre 20 e 30 pessoas.


O barco esteve parado durante oito meses em 2020 devido à pandemia de covid-19, “sempre com dinheiro a sair e nada a entrar. Tivemos algum apoio do Estado mas nem dá para o combustível”, confessa Francisco Santos ao JA.


Em relação à recuperação, Francisco Santos salienta que “está a ser muito lenta”.


“Estávamos à espera que o verão fosse um bocadinho melhor, mas não foi. Nem chegou perto de 2019. Já em relação a 2020 foi um pouco melhor”, acrescenta.


Manuela Sales, também sócio-gerente da empresa, revela ao JA que “é muito difícil manter os postos de trabalho” e que “a recuperação tem sido muito lenta”.


“Quando começou a pandemia ninguém veio cá perguntar se precisávamos de alguma coisa. Não foi fácil. Nós queremos alavancar a empresa, mas temos certos condicionamentos que não nos permitem”, acrescenta.


No meio dessa “facada”, continuaram os pagamentos dos seguros, combustível e ordenados, ao mesmo tempo que a empresa estava a investir no “Campino”, uma vez que o motor estava obsoleto.


“Meteu-se um motor novo, fez-se uma grande reparação e um grande investimento para o barco durar mais 50 anos”, explicou.


Este barco já conta com 70 anos de história e veio de Vila Franca de Xira diretamente para Vila Real de Santo António, tendo agora sido alvo de uma intervenção pelos próprios funcionários da empresa.


Com o barco em manutenção, já prevista antes do aparecimento da pandemia, a gerência decidiu propor aos funcionários que fizessem esse trabalho em vez de estarem colocados em lay-off, após um acordo.


“Como havia muito para fazer, pensei que em vez de estar a dar dinheiro ao estaleiro, os nossos funcionários poderiam trabalhar no barco, receber o seu ordenado e dedicarem-se à manutenção. Eles também gostam do barco e é dali que vem o ganha-pão deles”, explicou.


Outro dos problemas que surgiu este ano e que afetou a empresa foi o facto da Câmara Municipal de Vila Real de Santo António ter cancelado a Feira da Praia, uma das épocas altas para o tráfego do barco, devido à pandemia de covid-19: “Porque é que não fizeram a feira este ano? Ninguém me soube explicar ainda o porquê. As empresas e os estabelecimentos comerciais da cidade vivem e precisam muito desses momentos da feira. Já há dois anos que não há feira”, reclama.


Francisco Santos revela ao JA que em 2019 teve muitos clientes em cada viagem de barco, “principalmente no dia 12 de outubro”, feriado em Espanha e que traz muitos dos “nuestros hermanos” até Vila Real de Santo António, por tradição, para a feira anual.


Entretanto, com as obras para a instalação da Polícia de Segurança Pública no antigo edifício da Anfândega de Vila Real de Santo António, onde estava localizada a bilheteira, surgiram novos problemas para a empresa.


“Nós estávamos a trabalhar na bilheteira e as obras decorriam na parede ao lado, com um martelo pneumático. As pessoas pediam para parar, porque não se conseguia ouvir nada. Até buracos para dentro da bilheteira foram feitos”, reclama.


Atualmente, já foi disponibilizada uma bilheteira provisória, que estava prometida para antes do início das obras. No entanto, a definitiva está prevista para um local que não agrada a empresa e a provisória não foi aquilo que foi prometido.


“A Docapesca quer pôr a bilheteira definitiva do lado direito da Alfândega. Limpavam e aplanavam o terreno para a nova bilheteira. Mas cerca de 70% das pessoas que utilizam o barco são idosos com dificuldades e vão ter de andar a fazer gincana entre os carros estacionados”.


Entretanto, a empresa enviou uma nova proposta de localização da bilheteira definitiva, mais próxima do cais, “que torna tudo mais fácil do ponto de vista da acessibilidade” e “a própria funcionária tem contacto visual com o mestre”.


Atualmente, apesar da Docapesca ter prometido, há dois anos atrás, uma bilheteira provisória com casas de banho, ar acondicionado e outro contentor com abrigo para passageiros, até agora não houve qualquer tipo de resposta por parte da empresa neste aspecto.


Já em Olhão, a situação é semelhante. Devido às obras na frente ribeirinha da cidade, as bilheteiras foram deslocadas para um contentor provisório. No futuro irão para outro local, considerado como “um cubículo” por Vargas, outro dos sócios-gerentes da empresa.


“É bonita mas não é funcional. Tem pouco espaço”, explica ao JA.


Em Vila Real de Santo António a empresa de transporte marítimo tem ainda a dificuldade de colocar o barco no estaleiro, uma vez que não existe nenhuma infraestrutura no concelho. Para isso acontecer, a empresa leva o seu barco para o estaleiro de Ayamonte, uma vez por ano, para manutenção.


Além desses problemas, a empresa tem ainda muita dificuldade em arranjar novos funcionários, principalmente para o serviço de Olhão, porque atualmente os marinheiros e os mestres têm de ter uma especificação de transporte de passageiros.

A galinha dos ovos de ouro em Olhão


A empresa detém a concessão de exploração dos transportes marítimos para as ilhas da Culatra, Farol e Armona há mais de 20 anos e é considerada como a galinha dos ovos de ouro que “rende mais do que Vila Real de Santo António”.


Com três barcos a operar permanentemente para as três ilhas da Ria Formosa, aquele serviço tem de ter todos os horários em pleno funcionamento, uma vez que servem de transporte para áreas residenciais, “como se fossem autocarros”.


No verão deste ano, a empresa teve de colocar outro barco ao serviço naquele local, devido às restrições na lotação e também ao grande fluxo de pessoas, que tem vindo a aumentar de ano para ano.


“O turismo em Olhão tem vindo a crescer. Tem uma dinâmica brutal em comparação com Vila Real de Santo António. E só tem um hotel! Os restaurantes estão sempre cheios, com pessoas na rua à espera de mesa”, refere Francisco Santos, sócio-gerente há cerca de seis anos.


Há cerca de três anos, a empresa mandou contruir um novo barco para Olhão, que teve um custo de um milhão e 400 mil euros.


O barco foi todo construído em fibra na empresa vilarrealense Nautiber, foi batizado de Raiano e tem capacidade para 500 pessoas.

Gonçalo Dourado

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