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Monchique explora o “grande potencial” do medronho

A Casa do Medronho recria uma típica destilaria de medronho, onde os visitantes têm a oportunidade de provar a bebida e descobrir os segredos envolvidos na sua preparação

A destilação da aguardente de medronho é uma arte ancestral da serra algarvia, que desperta cada vez mais a atenção. A Casa do Medronho – um espaço inaugurado há dois anos e meio, que recria uma típica destilaria em Marmelete e onde os produtores até podem produzir a sua aguardente caseira –, já recebe visitantes de todo o mundo. Todos os segredos desta arte, desde a apanha do fruto até à destilação, serão revelados no próximo dia 28 de abril, através de uma demonstração prática do processo de destilação do medronho

 

Os enchidos, o artesanato, o presunto, o mel e os doces típicos são alguns dos produtos tradicionais da serra de Monchique que são cada vez mais valorizados. No entanto, a imagem de marca mais forte do concelho continua a ser o medronho, que nos últimos anos tem vindo a revelar-se como um dos produtos com maior potencial na região.

Se, até há uma década, a aguardente de medronho usada para consumo próprio ou vendida em zonas recônditas da serra era servida em garrafinhas de plástico, hoje em dia, tudo mudou. Atualmente, o medronho já é vendido nas cidades em garrafas de litro rotuladas e que podem atingir os 40 euros a unidade (o preço mais comum é cerca de 25 euros).

Só em Monchique, já existem mais de 80 destilarias licenciadas espalhadas pela serra e cerca de 40 marcas próprias e com rotulagem. Além disso, a Casa do Medronho, inaugurada em outubro de 2015, na freguesia de Marmelete, veio contribuir para reforçar a imagem da aguardente de medronho da região.

O projeto, promovido pela junta de freguesia de Marmelete, tem por missão “dar a conhecer uma antiga e tradicional atividade na região: a destilação de aguardente de medronho”. Assim, o espaço recria uma típica destilaria de medronho, com “todos os utensílios usados na arte de fazer aguardente a partir das bagas de medronheiro”. Desta forma, os visitantes têm a oportunidade de provar a bebida (e outros produtos da região), mas também descobrir os segredos envolvidos na sua preparação.

“A Casa do Medronho pretende ser um espaço singular e diferenciado em todo o Algarve, concorrendo para a promoção e preservação da ancestral arte de obter do medronho uma aguardente de características únicas”, acentua a presidente junta de freguesia de Marmelete, Marta Martins.

Visitantes de todo o mundo

Em declarações esta semana ao JORNAL DO ALGARVE, a autarca revela que “a Casa do Medronho tem acolhido centenas de visitantes de todo o mundo, muitos dos quais turistas e caminhantes da Via Algarviana, que pretendem conhecer não só o processo de obtenção da aguardente de medronho, mas também degustar o mesmo, acompanhado de provas de enchidos e doçaria tradicional de Monchique”.

Ao mesmo tempo, os alunos de escolas básicas e secundárias da região também têm visitado a Casa do Medronho, para conhecer o processo de destilação, “feito com água e limão, como modo de demonstração do que é feito com o medronho”.

Mas não é tudo: a Casa do Medronho também oferece aos produtores a possibilidade de requisitarem o espaço da destilação para produzirem a sua aguardente de medronho, já que é uma “destilaria comunitária”. “Contudo” – como nos conta Marta Martins – “até à data ainda ninguém se inscreveu para fazê-lo, talvez porque no concelho existem mais de 80 destilarias licenciadas, e os elos familiares ou de amizade quebram a necessidade de recorrerem à Casa do Medronho”.

Ainda assim, a presidente da junta de freguesia de Marmelete adianta que “algumas pessoas já demonstraram essa vontade futura, porque herdaram terrenos com medronheiros e não conhecem o processo, bem como a quantidade de produto não justifica a criação de uma destilaria”.

Transmissão de conhecimentos e saberes

Entretanto, o próximo projeto promovido pela Casa do Medronho será um workshop muito especial sobre “Destilação do Medronho”, a realizar no próximo dia 28 de abril, entre as 10h00 e as 14h00. A ideia é transmitir conhecimentos ao vivo, através de uma demonstração prática do processo de destilação do medronho.

“Os interessados poderão participar ativamente em todo o processo de destilação, bem como realizar várias provas de medronho, melosa e produtos gastronómicos do concelho”, revela Marta Martins, explicando que “este workshop não tem um caráter teórico, pois nele não serão debatidos estudos em torno do medronho, mas sim prático, mediante uma transmissão de conhecimentos e saberes, de forma familiar e informal desta arte ancestral e tradicional do nosso concelho”.

Além deste workshop prático e de haver uma caldeira em pleno funcionamento na habitual época de laboração, a Casa do Medronho apresenta ainda uma série de painéis onde são descritas as várias etapas da obtenção da aguardente de medronho, desde a apanha do fruto à fermentação do mosto, passando pela destilação e pelo engarrafamento da bebida. E é também exibido um documentário, com imagens ilustrativas de todo o processo.

Conhecer toda esta realidade ao vivo

Ou seja, quem visitar a Casa do Medronho pode ficar a conhecer ao vivo toda esta realidade. Mas há mais, como nos conta a presidente da junta de freguesia de Marmelete: “Em parceria com nove produtores de medronho, e tendo como ponto de partida a Casa do Medronho, o visitante é convidado a seguir um itinerário de passagem pelas destilarias licenciadas e aderentes ao projeto, sendo-lhe facultado um roteiro criado para o efeito”, refere a autarca.

Neste momento, “o desafio da Casa do Medronho passa pela comercialização de aguardente no seu espaço”, refere Marta Martins, salientando que “são inúmeros os visitantes que nos procuram para adquirir medronho ou melosa”.

Porém, “devido às burocracias inerentes, ainda não nos permitiram contornar esta situação, nem criar a tão desejada marca da Casa do Medronho, como pretendíamos inicialmente”, lamenta a autarca de Marmelete, que, ainda assim, não perde a esperança em atingir esse objetivo, porque acredita no “grande potencial” do medronho algarvio.

(NOTÍCIA PUBLICADA NA ÚLTIMA EDIÇÃO DO JORNAL DO ALGARVE – NAS BANCAS A PARTIR DE 12 DE ABRIL)

Nuno Couto|Jornal do Algarve

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