Música e Poesia na homenagem de Susana Travassos a Fernando Reis

No passado domingo, a cantora Susana Travassos subiu ao palco do Cineteatro Louletano para cantar, encantar e homenagear o pai, Fernando Reis, diretor deste jornal durante quase 40 anos, falecido há cerca de dois meses. O JA conta o que sentiu

Havia pássaros, quase cem, feitos de mil pedaços de “Jornal do Algarve”, pairando sobre o palco e as primeiras filas da plateia. Sobre os mortais, cada ave representava um pouco do homem que todos ali lembravam, Fernando Reis, diretor do jornal que servia de matéria-prima aos artefactos pendurados em fios de nylon.


Era domingo, um pouco depois das cinco da tarde, quando a voz límpida de Susana Travassos atravessou o espaço entre os objetos esvoaçantes e clamou “se um dia você for embora, não pense em mim, que eu não te quero meu, eu te quero seu”. Era um primeiro grito para o menino a preto e branco que enquadrava o palco, como que a dizer-lhe, no início dos muitos minutos que se seguiriam, “o meu pai foi mesmo embora mas ele é um pássaro, mas ele está aqui, representado pelos pássaros de papel e eu o quero seu”. “O Meu Menino” (Danilo Caymmi/Ana Terra) era o prenúncio infantil de uma vida de 67 anos posta em palco, na hora e dez minutos que se seguiria. A primeira de 13 canções repletas de alma e significado.


“O meu pai é um pássaro”, o espetáculo que Susana Travassos pôs de pé naquele domingo de preguiça e de saudade no Cineteatro Louletano, era um rebatismo, motivado pela tragédia. Afinal, o concerto baseado no último álbum da cantora, “Pássaro Palavra”, estava previsto para aquele espaço já há dois anos, mas a pandemia foi criando balões de oxigénio, que se sucederam até ao passado dia 6. Dois meses antes, dá-se o triste mote que tudo fez mudar: o nome do espetáculo, a sua motivação (seria uma prenda de aniversário para o pai, um dia após completar 67 anos), o cenário, as canções.


Só o timbre vocal permanece o mesmo, quando arremete para Saudade (Melody Gardot), Blues da Madrugada (Fred Martins/ Ana Terra) e Mi Gitanito (Mili Vizcaíno), sempre acompanhada pelos soberbos músicos Giovanni Barbieri ao piano, Elodie Bouny na guitarra, Francesco Valente no baixo, Hugo Fernandes no violoncelo, Denys Stetsenko no violino, Sebastian Scheriff na percussão e Martin Sued no bandoneon e Bruno Silva na viola e na declamação.


Pelo fundo escuro do palco iam perpassando fotos do pai que partiu no nefasto dia 4 de dezembro: infância, juventude, uma vida adulta que se profissionaliza no jornalismo “à séria”em 1983, entrevistas de cascos nos ouvidos a Salgado Zenha e Lourdes Pintasilgo na Rádio Guadiana (que Reis fundou e de que foi diretor), mesas repletas de gente bem disposta, amante em comum daquilo de que o ex-diretor mais gostava: viver. Como uma criança que não pensa na finitude disto tudo e da vida.

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E sempre ela lá nas fotos, bebé, menina, jovem, também sempre no palco, a sua voz sempre em nós, aquecendo a tarde cálida de uma primavera precoce.


Depois de Não Doeu (Luísa Sobral), a primeira das únicas duas músicas do show que Susana escreveu: Luísa (dedicada à mãe Luísa Travassos, que compôs a meias com Marcos Frederico) e, algumas canções depois, Meu Pai, com letra e música de sua autoria.


E não era só de canções que se faziam os momentos daquele espetáculo lindo: havia textos, chegaram a palco vindos de antanho almas bonitas que já por cá não voam, de Pablo Neruda e Vinicius de Moraes, a Sophia de Mello Breyner. E prosas de amigos, sobre Fernando Reis, a Vida, o Jornal do Algarve e outra vez a Vida.


Momento alto do espetáculo, repleto de significado emotivo, soam os acordes de Toda Una Vida, de Antonio Machin, cantor espano-cubano particularmente querido de Fernando Reis.


Depois de discorrer, como um pássaro, sobre canções de Ary dos Santos, Homero Esposito e Sueli Costa, o público que enchia plateia e balcão do cineteatro arrancou um encore com ovação de pé, encore fabricado com uma música tradicional mexicana (La Martiniana) e a icónica Cancion com Todos, de César Isella, com a cantora ao acórdeão.


Reveladora, a popular letra de Martiñana é a súmula daquela tarde comovente e que bem que assenta num rogo de pai para filha: “Diz menina quando eu morrer não chores sobre a minha tumba, senão eu sofro. No entanto se cantares eu vou viver para sempre”.

João Prudêncio

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