OPINIÃO

Necropolítica à brasileira

OPINIÃO | LEONARDO GOLDBERG
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O Brasil vive uma realidade política com poucos precedentes históricos. Bolsonaro, que adota uma estratégia política que remete à história dos conceitos antitéticos assimétricos, ou seja, que nomeia um inimigo e o expurga de seu círculo como se tratasse de um par oposto, mesmo que esse inimigo de facto não exista, assume ares delirantes diante da irrupção da Pandemia. Grande parte de seus aliados políticos foram arremessados para fora da redoma e nomeados de “comunistas”, incluindo elementos de seu núcleo duro. A mídia, a Organização Mundial da Saúde, os médicos sanitaristas e até o congresso já foram alvos tal nomeação. Nada muito novo historicamente: o século XX testemunhou diversas figuras que ascenderam ao nível popstar da política, e a partir de tal nível, seus fans são acometidos da mesma idolatria sem reticências que permeia a indústria do entretenimento.


Aquele ícone que provoca uma identificação no vis-a-vis, o “cidadão médio”, que pareia toda uma população por baixo, tem muito mais liberdade no exercício de medidas públicas completamente ineficientes que aqueles que encarnam um ideal paternalista/maternalista, os que realmente evocam a resiliência a partir de uma posição de suporte. Angela Merkel é uma dessas que, com sobriedade solene, aposta na ciência e na razoabilidade para encarar o golpe viral e seus efeitos no cotidiano, economia, política. Mas isso vende pouco e joga o ónus do desemprego e dos efeitos político-económicos secundários naqueles que tiveram pulso firme e frieza para determinar exceções pontuais nas nossas vidas cotidianas.


Estrategicamente, colocar todas as fichas em uma política de morte e em um tensionamento constante manteria o governo brasileiro atual no prumo do poder através de uma política do medo. Mas tal conta só se fecharia se os mortos fossem apagados, rabiscados, retirados da esfera pública e esquecidos. É isso que manteve, até certo ponto, o estalinismo praticamente intacto por uma memória editada, vide posteriormente a revelação do Massacre de Katyn. É isso que mantém e permite aberrações políticas como Rodrigo Duterte: este último fez questão de não apagar seus crimes originais e, pelo contrário, os reitera publicamente. Mas isso só se torna publicamente permissível pois o faz acompanhado de uma narrativa que retira dos seus inimigos – também nomeados assimetricamente como opostos – a dignidade humana. E esse é o ponto central que poderá quebrar lideranças assustadoras que deveriam ter permanecido em programas de entretenimento e que agora conduzem grandes nações.


A morte causada pela covid-19 atinge todos os extratos políticos e apesar de não equalizar suas vítimas em termos de tratamento – os mais pobres, infelizmente, permanecem desassistidos comparados com os mais ricos – desmantelará desinformações na prática. Em 1348, na irrupção da Peste Negra, uma desinformação gerada em Toledo, na Espanha, que dizia que judeus espalhavam veneno no mundo cristão, foi responsável pela dizimação de ao menos 60 grandes comunidades judaicas na Europa. A Igreja condenou oficialmente de forma dura a perseguição, afinal, ela tinha a dimensão da ineficiência do morticínio.


Apesar de não sabermos exatamente o que é eficiente ou não em relação à Covid-19, é bem claro o que não é: bradar sua inexistência, atribui-la a teorias conspiratórias e nomear inimigos de forma contínua. A morte não se deixa captar por gritaria. O que podemos fazer é cuidar dos nossos doentes, honrar nossos mortos e atravessar a tempestade.

Leonardo Goldberg

Psicanalista, Doutor em Psicologia pela USP (Universidade de São Paulo),
autor de “Das tumbas às redes: luto e morte na contemporaneidade” (Benjamin Ed.)

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