Avarias: O cinema de volta

Na RTP1 passa, ao Domingo à tarde, o filme “Gladiador” com Russell Crowe no principal papel, como se dizia em tempos. Parece que veio com quinze dias de atraso, mais coisa menos coisa, em relação à Páscoa. Filmes de romanos (mesmo num inglês dos lados de Oxford, daí o ditado “em Roma sê inglês”), estão para a quadra pascal como o Eládio Clímaco – já não dá erro no dicionário Google – para os “Jogos sem Fronteiras”. Ao mesmo tempo, no canal Holywood passava mais um filme-catástrofe, daqueles em que a Terra devolve, multiplicado por vinte, tudo o que de mal os habitantes (não todos, mas uma boa fatia deles, entre os quais não me incluo) lhe fizeram.

Se há uma altura para o “Sozinho em Casa” e os “Harry Potter” (o Natal), não existirá uma semana para os filmes em que uma sucessão de sismos, ventos ciclónicos e ondas gigantes mostram como o Homem está a tratar mal o ambiente? Além da expiação da – nossa – culpa, o argumento é, por sistema igual: o tipo que tem culpas no cartório – algum usurário ou cientista de pouquíssimos escrúpulos que brincou com coisas sérias – acaba a pagar com a vida, exactamente no momento em que se apercebe do mal que fez e, numa atitude de coragem dá o corpo às balas. Talvez passarem estes pastéis indigestos no dia do Ambiente não fosse má ideia; entrava mais uma vez em cena o bem contro o mal, com a vitória indiscutível (e aborrecida) do lado do bem. Os problemas destes filmes (ou a sua prescrição sem limites) é que além do grau de infantilidade que em geral transportam (não é em si um problema, mas não exagerem), é que somados às notícias que diariamente fazem eco da triste situação do nosso planeta, convencem-nos que qualquer coisa que façamos – incluindo acordar, levantar e tomar o pequeno-almoço só para arranque – faz mal ao ambiente. Daí, até que a malta ande com medo da própria sombra, a meio caminho da depressão. O presente parece mau, o futuro não virá muito melhor, mas não exagerem.


Passou na RTP2 “Um conto chinês”, uma coprodução espanhola/argentina. Filme em que um chinês (que não fala uma palavra de espanhol), vai até à Argentina em busca de um tio e acaba por, no meio de uma série de situações rocambolescas, “ser adoptado” (do resumo do filme) por um solitário de mau feitio, sem paciência para dividir a vida. Mas é da solidão que Roberto (o solitário de mau feitio, que depois se vai modificando), se cura no fim. O filme não é nenhuma maravilha, roça mesmo, a espaços, a ingenuidade, mas as situações de puro absurdo, salvam-no. O ponto, é que será na comparação com as produções médias portuguesas um prodígio: mostra que sem grandes orçamentos se pode constroir cinema interessante. Desde que não queiramos fazer os dois extremos; a “obra prima” ou o “lixo popular”.

Fernando Proença

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