OPINIÃO

O covid e a vespa asiática

OPINIÃO | JOÃO PRUDÊNCIO

A politização e radicalização do estado de pandemia em que vivemos, e as suas previsíveis sequelas, é uma das mais perversas consequências do estado de extremização em que se vive atualmente um pouco por todo o mundo. Porque põe em causa a própria ciência, que devia ser consensual e aceite por todos. Bolsonaro, Trump, Putin, Maduro, Daniel Ortega e Lukashenko desprezam a doença. Será que estes radicais têm razão?

Do outro lado, parece haver uma turba irracional para quem o covid-19 é pior do que a Gripe Espanhola, ou a Peste Negra, que dizimaram milhões de pessoas num tempo sem vacinas. Na Idade Média a Peste Negra terá matado entre 75 e 200 milhões de pessoas e dizimado 60% dos então 80 milhões de europeus, ou seja, 50 milhões de pessoas. A Gripe Espanhola, que foi “ontem” na linha do tempo, infetou 500 milhões de pessoas (1/4 da população mundial) e matou entre 17 e 50 milhões.

Ao pé destas grandes hecatombes, a covid-19 é um anão entre gigantes: 35 milhões de casos e 1 milhão de mortos. É trágico, terrível, mas está longe daquelas duas pandemias e de outras ao longo da história da Humanidade. Sobretudo se tivermos em conta as altíssimas taxas de sobrevivência ao vírus: 99,997% nos infetados até aos 19 anos, 99,98% dos 20 aos 49 anos, 99,5% dos 50 aos 69 e 94,6% nos infetados acima de 70 anos.

Apesar do terror do número 1 milhão (mesmo em Portugal são 2000, o que é horrível), a mortalidade é quase insignificante (embora devamos ter muito cuidado quando está em jogo a vida humana. Uma vida não é “comparável” a nada nem “despicienda”, é uma vida e tem um valor absoluto!): supõe-se que o vírus mate 5 a 10 em cada 1000 infetados, ou seja, entre 0,05% e 0,1%. Comparativamente com outras doenças, como o cancro, o covid é uma doença leve: atendo-nos a Portugal, no cancro do estômago, a taxa de sobrevivência situa-se nos 32,2%, subindo para 87,6 % no cancro da mama e para 90,9 % no cancro da próstata, no cancro do cólon situa-se nos 60,9 %, na leucemia é de 89,8 %, no pâncreas 10,7 % e no cancro do pulmão 15,7%. Isto quer dizer, apontando só este último caso, que só sobrevivem cerca de 16 em cada 100 doentes com cancro do pulmão. Comparado com isto, o covid é “nada”! Portugal tem 60 mil cancros por ano e 30 mil mortos (50%), enquanto em sete meses a pandemia causou cerca de 80 mil casos e 2000 mortos. Por este lado, parece que estamos a fazer uma tempestade num copo de água e a inflacionar a importância do covid-19.

Mas não é bem assim. Só para falarmos deste último número, ele dá-nos a perspetiva do que está em causa com o covid-19 e não está com o cancro, os AVC ou os acidentes rodoviários e explica porque os números são enganadores e portanto não podemos ser radicais. Falo da grandeza dos números. Nas outras doenças e causas de morte, o grau de contágio é nulo, desprezível ou está controlado e os números quase não variam anualmente. No caso do covid, em meio ano houve muitos mais casos do que cancros num ano inteiro. E isto apesar do muito controlo, confinamento, máscaras, cuidados extremos no comércio, serviços e transportes. Por este caminho, em março do próximo ano (no primeiro aniversário da pandemia, ou da sua face visível), o covid será de longe a doença com mais casos e (pelo menos) uma das mais mortais.

É, portanto, no alto grau de contágio e não na perigosidade aparente relativamente à letalidade que está o maior risco da pandemia atual. Porque essa aparência de perigo tornar-se-á real no dia em que os números explodirem. O perigo real desta pandemia não é a letalidade, é a sua alta taxa de contágio, o número associado ao tal “R”. E esse contágio arrastará consigo, inevitavelmente, um número de óbitos suscetível de deixar para trás as outras doenças e causas de morte.

Claro que a turba medrosa não tem razão, sobretudo se compararmos os números da atual pandemia com os das precedentes. Mas os senhores da “gripezinha” (e agora há por aí muitos também à esquerda) também não têm razão. Mesmo sem tomarmos em conta as eventuais futuras mutações, esta gripe pode tonar-se mais perigosa do que as restantes doenças e causas de morte. O seu perigo, como acontece com a vespa asiática, está no número, mais do que nos casos considerados isoladamente. Se deixarmos de nos proteger e tomar medidas, como defendem alguns, facilmente ela se tornará tão cruel como outras pandemias. Vejam o que acontece já na Índia, EUA e Brasil, onde partes substanciais das populações deixaram de lado proteções e cuidados.

João Prudêncio

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