REPORTAGEM

O dia em que os testes chegaram ao monte

Testes int Alta Mora
Créditos fotográficos: Gonçalo Dourado

Durante quase um dia, a reportagem do JA andou pelo interior do concelho de Castro Marim, nas freguesias do Azinhal e Odeleite. Depois da sede de concelho e das povoações maiores, foi ali que, na semana passada, passou a carrinha da saúde e os voluntários para a grande operação de testagem massiva lançada pelo município. Aqui damos conta do que vimos e de como reagiu a população, maioritariamente idosa, nesta pioneira chegada dos testes a alguns dos povoados e montes mais isolados do interior algarvio

Chegou à paragem do autocarro meia hora antes da “carreira” que a haveria de levar, depois das duas da tarde, para o mundo dos testes que só conhecia da TV, um “autocarro” em forma de sofisticada furgoneta, com o pomposo nome de “unidade móvel de saúde”, cheia de humanoides vestidos de astronautas, que dali a mais ou menos uma hora lhe enfiariam um objeto estranho pelo nariz acima.

Rosa Dias


Do alto dos seus 87 anos, com a inimputabilidade que só a idade confere, Rosa Dias declara-se afoita quanto ao escarafunchanço imposto pelas gentes de branco: “Não vai custar. E se custar muito, grito. A gente quando é velho já pode fazer o que quiser, a partir de uma certa idade já tem carta branca. ‘Coitada é velha!’”, atira a viúve na direção da reportagem, desconfiada do gravador, desconfiada da conversa, ela que não sai dali, do seu monte de Alta Mora, freguesia de Odeleite, desde que o filho sobrevivente a trouxe de Santarém (e a voz quase se lhe apaga quando nomeia a cidade ribatejana, olhando desdenhosa o gravador, como se dissesse “isto não é conversa para caranguejolas, isto é só para si. San-te-rém. Chiu”).


Meia hora depois vê-la-emos no meio da fila, que às duas da tarde se forma sem que percebamos como, no pequeno monte do interior do concelho de Castro Marim.


Antes, há-de atirar ainda aos ouvidos do repórter e às entranhas da malquista máquina de som a exorcização final da sua temeridade:

“Medo é coisa que a gente não deve ter, é medo. Resguardar-se o que se possa, medo não. Senão, se andar sempre aflita, morre do susto”.

(…)

João Prudêncio

(leia a notícia completa no Jornal do Algarve de 4 de março de 2021)

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