O juiz siciliano a quem a Mafia assassinou o irmão é o novo Presidente de Itália

O novo Chefe de Estado italiano Sergio Mattarella
O novo Chefe de Estado italiano Sergio Mattarella

Palermo, capital da Sicília, 6 de janeiro de 1980. Piersanti Mattarella, Governador da ilha, vinha da missa quando foi assassinado pela Mafia. Morreu nos braços do irmão mais novo a caminho do hospital. A imagem do crime correu mundo e deixou os italianos em estado de choque, apesar de a Itália estar a viver os chamados ‘anos de chumbo’ no combate ao crime organizado. Sobre essa época, quem não se lembra da série televisiva “O Polvo” e da personagem do juiz Corrado Cattani que tão bem ilustrava o combate ao poder da Mafia na Sicília e não só?

Até esse dia de Reis que foi fatal para a família Piersanti, Sérgio, seis anos mais novo do que Piersanti, era um pacato e pouco comunicativo juiz que gostava de estudar e dava aulas na Universidade de Palermo. O assassinato do irmão, um democrata cristão que tinha sido eleito presidente da região da Sicília em 1978, fê-lo ter um segundo rumo na vida, um novo fôlego, despertando para a política e para a urgência de fazer cumprir a lei e a Constituição do país.

Até ontem andava num Fiat Panda

À semelhança do seu antecessor, Giorgio Napolitano, Sergio Mattarella, o quarto filho de Maria Buccellato e Bernardo, vem de uma família da Itália do sul com tradições anfifascistas. Mais de esquerda, os Napolitano, democratas-cristãos, os Mattarella. Bernardo, nascido em 1905, pai de Sérgio e Piersanti, foi deputado e várias vezes ministro a partir de 1948.

A aspereza da dura vida do sul de outros tempos ensinou-lhes o valor da sobriedade. Na véspera de tomar posse como Presidente de Itália, Sergio Mattarella foi apresentar a demissão formal do cargo de Juiz do Tribunal Constitucional. Usou um Fiat Panda na deslocação.

Em 1987, fez a sua estreia em cargos governamentais como ministro dos Assuntos Parlamentares do Executivo de Giovanni Goria. Dois anos mais tarde, já com Giulio Andreotti à frente do Governo, assumiu a tutela da a pasta da Educação. Demitiu-se a 27 de julho de 1990, juntamente com mais quatro ministros da ala menos conservadora da Democracia Cristã, num protesto contra um projeto de lei para o setor da rádio e televisão que iria favorecer o império mediático de Silvio Berlusconi.

Os membros eleitos do Forza Italia, o partido de Berlusconi, foram convidados a votar em branco na sexta-feira, 30 de janeiro. Berlusconi não gostou do nome escolhido por Renzi para Chefe de Estado e disse na última quinta-feira que se sentia traído pela sua “família”.

Sergio Mattarella foi eleito presidente de Itália com 665 votos a favor, na quarta volta da votação parlamentar. Mas só precisava de 505 votos para ter a maioria absoluta.

Católico como Renzi, e idoso como os antecessores

Matteo Renzi, primeiro-ministro de Itália, podia ser filho de Mattarella. Os dois homens têm pouco em comum na forma de fazer política, mas são ambos católicos e centristas. Renzi é um político das redes sociais, Mattarella um homem de leis que não confunde eficácia de atuação com ruído mediático, e diz que não é por se falar muito e alto que se é mais respeitado.

O novo habitante do Palácio do Quirinale transmite a imagem de credibilidade e respeitabilidade que a Itália e os italianos procuram desesperadamente. O ex-primeiro-ministro Enrico Letta, diz que ele vai ser for “um excelente Presidente, uma versão católica de Napolitano”, o único homem que foi reeleito para o cargo de Chefe de Estado da República italiana. E um líder com “grande autoridade” acrescenta Letta sobre Mattarella.

Tal como os seus antecessores, Sergio Mattarella tem muitos cabelos brancos. Os italianos preferem Presidentes seniores. Valorizam a idade, a experiência, e a prova desta realidade é que Francesco Cossiga, o mais jovem dos últimos seis Presidentes, tinha 65 anos quando foi eleito em 1985. Napolitano foi eleito pela primeira vez em 2005, um mês antes de completar 80 anos. E Sandro Pertini instalou-se no Quirinale com 82 anos.

RE

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