REPORTAGEM

O pesadelo de um verão sem “noite”

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Há um mês que as portas das discotecas estão fechadas, as pistas de dança vazias, reina o silêncio no império da música. Os bares, igualmente fechados por imposição do Governo, há semanas que estão impedidos de servir um simples cocktail. Vias emblemáticas e habitualmente apinhadas, como a rua da Oura, em Albufeira, e a marina de Vilamoura estão agora desertas. Com o aproximar do verão, e sem luz ao fundo do túnel, as preocupações dos proprietários multiplicam-se a cada dia que passa. O sonho de uma noite de verão transforma-se em… pesadelo de verão sem noite

“O impacto é enorme. Estamos a sofrer muito com isto tudo, ficamos completamente condicionados e sem poder trabalhar”, disse ao JA Miguel Gião, sócio-gerente do bar Columbus, em Faro, e de mais dois restaurantes na capital do Algarve.
O estado de emergência imposto, e já renovado, encerrou todos os bares e discotecas a nível nacional. Não há data prevista para os estabelecimentos de diversão noturna voltarem a abrir as portas aos seus clientes.

O sócio-gerente de 38 anos espera conseguir receber os primeiros amantes da noite lá “para o final de maio ou princípio de junho”, mas tudo “depende da situação após o período da Páscoa”, cujo isolamento durante a época festiva é considerado como importante para a contenção do vírus segundo o Governo.
Apesar dos apoios anunciados pelo Governo, Miguel considera que os bares estão “condenados, ou seja, está cada um por si porque as medidas apresentadas não são suficientes. Se o Governo é o nosso maior sócio, tem aqui um papel fundamental na gestão e saúde dos negócios”.

“As únicas medidas que estamos neste momento a praticar, lançadas pelo Governo, são o lay-off, a fim de evitar o despedimento de pessoas, visto que a nossa mão de obra é qualificada”, salientou o sócio-gerente ao JA.

Em relação a medidas de crédito e apoio à tesouraria que o Governo tem neste momento disponíveis, Miguel considera-as como, “no mínimo, repugnantes” e espera que “ativem outro tipo de medidas” porque estão “impedidos de faturar”.
“O verão começa no dia 21 de junho, mas esperamos abrir as portas antes dessa data”, referiu Miguel, quando questionado sobre a época alta do turismo no Algarve, afirmando ainda que tem consciência que não vai ser igual aos anos anteriores, “mas será a oportunidade para oxigenar a tesouraria da empresa que está muito débil neste momento”.

Quando reabrir portas, a gerência vai “adaptar o menu ao novo estilo de consumo, focar no cliente local, aperfeiçoar ainda mais o serviço e atendimento ao cliente e proporcionar conforto para o cliente passar mais tempo no bar”.
No entanto, nessa altura “será fundamental aplicar serviços de limpeza constantemente, evitar muitas pessoas ao mesmo tempo dentro do bar e separar as mesas com uma distância regulamentada”.
 
Baco sem bafo


A poucos quilómetros do Columbus, fica o Bafo de Baco, em Loulé. O bar, mais dedicado a concertos ao vivo, também se encontra fechado.
“Infelizmente esta pandemia vai ser um problema muito grave para toda a hotelaria em geral, com a agravante de continuarmos a ter encargos com o estado, que sendo desde sempre nosso sócio maioritário, nos obriga a manter custos com obrigações sem termos qualquer rendimento nas empresas”, referiu ao JA o proprietário Horácio Costa, de 52 anos.

Para minimizar os prejuízos, Horácio considera que “se fosse possível recomeçar a 1 de junho, para quem funciona com o turismo, o mal seria reduzido, mas já estamos pelo menos a perder um mês a trabalhar razoavelmente bem”.
O proprietário já pediu lay-off para o funcionário que tem a tempo inteiro, mas continua à “espera para ver o que vão fazer mais de concreto, para alé da conversa na imprensa”.

“Quem toma a decisão de abrir uma empresa é logo considerado rico por ser patrão e é sempre maltratado pelo Estado. Não compreendo porque motivo o patrão, que também ele acaba por ser funcionário, não tem direito a apoio para poder manter a empresa”, confessou Horácio ao JA.
O proprietário deu ainda um exemplo, continuando a sua crítica ao Governo, que é o espelho da vida e a opinião de muitos portugueses: “Se morar em casa alugada e pagar renda do seu estabelecimento mais vale abrir logo falência porque a maioria destes estabelecimentos não faturam o suficiente para poderem se dar ao privilégio de ter despesas estando fechados”.

Quando voltar a abrir, “em meados de maio”, pensa Horácio, vai “trabalhar só como bar e com o desenvolver da situação, resolver o que será melhor para o seu funcionamento”, suspendendo, por agora, os concertos ao vivo que são a imagem de marca daquela casa algarvia.
“Não nos podemos esquecer que, por muito que seja possível estar a trabalhar, não se faz ideia de como vão estar as fronteiras e como vão reagir as pessoas para tentarem voltar a uma rotina que tinham anteriormente, onde o contacto é inevitável”, destacou Horácio.

Em relação aos apoios concedidos pelo Governo, Horácio considera as medidas como “fracas porque a maioria dos locais são pequenas empresas, onde o proprietário vive também do seu trabalho na empresa e não tem direito a apoio”.
“A ajuda deveria ser bem pensada e darem um apoio de acordo com os fatores de risco dos bares para podermos estar mais algum tempo fechados, mas com direito a uma compensação para se poder viver. No meu caso, já trabalho há 28 anos sendo o estado o sócio maioritário da empresa em que não meteu nunca um cêntimo e sempre teve rendimentos”, confessa e sugere o proprietário louletano.

Horácio considera que “chegou a hora do Estado tomar responsabilidades na empresa para mantê-la e voltar a ter rendimentos após esta pandemia, em caso contrário arrisco a dizer que muitos espaços vão fechar e o problema que se irá criar poderá ser muito mais complicado de resolver”.


 
Verão em risco?

A discoteca Lick, em Vilamoura, apesar de abrir algumas vezes durante o inverno, a sua grande aposta é no verão, que é quando tem casa cheia, com milhares de pessoas todos os dias.
Agora para a época da Páscoa, estava agendado o início da temporada e segundo Fernando Pacheco, sócio-gerente do espaço, estava tudo planeado “para noites absolutamente fantásticas no Algarve”.

Após o cancelamento de quatro eventos, Fernando salienta que o COVID-19 vai ter “um impacto enorme”, pois as discotecas fazem parte “de um setor muito importe da economia, especialmente no Algarve, onde o Turismo é uma alavanca poderosa para o distrito”.
“O facto de não podermos prever como tudo se irá desenvolver num futuro imediato, complica e põe em risco uma operação que envolve um trabalho antecipado de muitas pessoas que, no Lick, começa quando a temporada do ano anterior termina”, referiu Fernando ao JA.


Segundo o sócio-gerente, “o facto do contato entre as pessoas ser restrito, influencia de maneira crucial um setor em que esse fator é definitivo. Os clientes vão aos clubes para interagir de maneira lúdica, e isso inclui todos os tipos de interação física, que no momento é o principal fator de risco”.
A empresa já solicitou o lay-off “para alguns funcionários”, mas Fernando Pacheco acha que “neste momento, devido à urgência e à novidade da situação, as medidas estão sendo tomadas conforme as necessidades imediatas, e isso gera situações precipitadas de ambos os lados”.


O principal objetivo de Fernando, e que sugere a todos, é ficar em casa para “entre todos, podermos salvar o verão algarvio. É uma missão de toda a sociedade para que tudo volte a ser como antes”.
 “Continuamos com a esperança de abrir este verão”, confessa Fernando. Devido a essa esperança, nenhuma atuação já agendada para o cartaz deste ano foi cancelada, numa altura em que 90% da programação está feita.

Com cerca de 30% a 40% de artistas internacionais confirmados, o sócio-gerente considera que esse “é um desafio extra, pois é impossível, neste momento, prever como serão as comunicações entre Portugal e cada país em julho e agosto.
Fernando Pacheco está “certo” que este verão “é muito possível que artistas do continente americano tenham mais complicações para viajar neste verão do que outros que viajam de outros pontos”.


Neste momento, a empresa “continua com todo o entusiamo e esforços para poder abrir”, com trabalho a partir de casa.
“Estou ciente de que existem muitos setores que exigem uma atenção particular, as quando falamos do mundo das discotecas, falamos de muitos empregos e dinheiro investido, que depois é considerado um setor marginal”, revela Fernando.

Ao exigir importância e atenção, salienta que o setor dos estabelecimentos de diversão noturna no Algarve “é ainda mais relevante pelo Turismo e pelo impacto internacional que tem na imagem desta região, voltada para o mundo”.
 “O lazer de qualidade é cada vez mais importante na vida da comunidade e não deve ser esquecido” e “precisa de ser apoiado mais do que nunca, pois é um dos principais fatores de atração turística para Portugal em geral e o Algarve em particular”, concluiu.

Festa de verão habitual no Medusis Club, junto à piscina


 
Duas soluções para o verão


No Medusis Club em Almancil, segundo o sócio-gerente Hugo Ranito, só há duas soluções para o próximo verão: abrir e trabalhar durante quatro meses ou fechar e pensar no próximo ano.
“Se tivermos permissão do Governo para abrir, em segurança, vamos trabalhar a temporada de quatro meses. Se a pandemia durar, estamos fechados, vamos respeitar essa decisão e vamos preparar o próximo verão”, confessou Hugo ao JA.
Neste momento, além do trabalho administrativo, continua-se a organizar “o verão que está a chegar”, apesar das previsões não serem as melhores.

“Este momento é oportuno para rever a nossa maneira de trabalhar e de planificar melhor o nosso tempo”, salientou o sócio-gerente. 
O COVID-19, segundo Hugo, “vai permitir-nos pensar mais, adaptar a nossa maneira de pensar e de trabalhar”, pois apesar de ser “muito mau”, será “muito positivo para o mundo atual e o ser humano”, esta paragem que o planeta está a viver.

Gonçalo Dourado




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