O que me liga ao Algarve

Foi com imensa alegria que li o último número do Jornal do Algarve, comemorativo dos 65 anos! Na verdade, não obstante ter nascido no norte do país estou, por muitas vias, ligado ao Algarve. A minha família paterna distribuía-se por Vila Real de Santo António, Tavira, Isla Cristina, Sevilha e, creio também, pelo Baixo Alentejo. Estas “partições” familiares eram muito comuns em finais do século XIX e inícios do XX. O meu pai, filho de enfermeiro militar que terminou os seus dias profissionais como enfermeiro na Mina de São Domingos, veio para aqui nos seus tempos de estudante liceal, considerando-se algarvio. Anualmente, os seus colegas de turma de liceu organizavam um jantar e, nos verões, uma ou outra sardinhada. Nós, os filhos, fomo-nos conhecendo nesses convívios anuais e ainda hoje somos amigos. Esse é o caso do Prof. João Guerreiro, filho do Prof. Manuel Guerreiro, que fazia parte dessa turma. Nesses jantares e em muitas outras ocasiões, conviviam o poeta Leonel Neves, o multifacetado Tóssan e o arquiteto Manuel Laginha, para além de muitos outros, uns mais conhecidos, outros menos. Os melhores amigos do meu pai (Luís Vieira Pinto), eram dessa turma fabulosa. E, claro, as histórias das brincadeiras próprias de adolescentes na década de 30 povoavam de memórias divertidas as pachorrentas tardes das sardinhadas estivais.

Sempre admirei o cultivar de amizades de toda a vida e a coesão entre todos, muito para além das naturais diferenças e mesmo divergências que, naturalmente, havia! Ainda hoje recordo com saudade esses convívios e esses amigos que, de alguma forma, substituíram os tios e tias que não tive.


Já na minha vida adulta, eu próprio trabalhei durante bastantes anos sobre o património cultural algarvio (e alentejano), assim conhecendo de uma forma mais profunda toda a região. Das inúmeras obras que promovi ou em que colaborei, recordo a reconstrução da Ponte medieval de Tavira, no tempo do Presidente Fialho Anastácio, que então tive o privilégio de conhecer. Fruto das grandes chuvas desse ano, uma parte da ponte ruiu e teve de ser reconstruída. A Direcção Regional dos Edifícios e Monumentos do Sul, de que eu era então responsável, colaborou activamente com a Câmara Municipal e conseguimos, em conjunto, uma obra que nos garante, ainda hoje, uma bastante melhor resistência da ponte às enxurradas. A consequência imediata dessa reconstrução foi a retirada de todo o trânsito automóvel que, até então, se fazia por ela e que, em minha opinião, beneficiou toda a circulação pedonal da cidade. Com maior ou menor impacto, dirigi obras um pouco por todo o Algarve, de Vila Real de Santo António à Ponta de Sagres.


Em 1993, por iniciativa minha, promoveu a Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais com o ICCROM de Roma, o CRATerre-EAG de Grenoble e a C. M. de Silves, sob a égide do ICOMOS (International Committee os Monuments and Sites), a 7.ª Conferência Internacional sobre o Estudo e a Conservação da Arquitectura de Terra, então denominada “Terra 93”, juntando mais de 300 técnicos de inúmeros países, no que foi, até então, a maior conferência desta tecnologia de construção em todo o Mundo. Assim foi lançado o nome de Silves, do Algarve e de Portugal e das tecnologias por cá existentes, nos mapas mundiais deste tipo de construção. É por isso com algum orgulho que vejo, hoje em dia, que a Arquitectura de Terra (taipa, adobe, tabique, etc.) já não é algo desconhecido (e mesmo proscrito), mas uma tecnologia construtiva com cada vez mais futuro tanto cá em Portugal como um pouco por todo o Mundo.


A minha imagem do Algarve é por isso múltipla, mas sempre muito gratificante para mim, incluindo ainda os meus inúmeros colegas de curso que daqui são oriundos e com quem ainda hoje mantenho relações de amizade.

Recordo também que, era eu muito criança, passava grande parte das férias grandes com os meus avós nortenhos (da região de Aveiro) que alugavam uma casa na praia do Furadouro para onde íamos gozar a praia. Praia é uma forma de dizer, porque eram mais os momentos em que nos recolhíamos do vento (bem fresco) na barraca, que aqueles em que conseguíamos apanhar algum sol, sem falar do frio que é aquela água! Isto, até um ano em que o meu pai pôde também ir connosco. Ao fim do terceiro dia sem sol, decidiu que íamos mas era para o Algarve! Remédio santo: a partir desse ano (creio que 1959), passámos a fazer férias em Albufeira ou na Ilha de Faro.

Retenho, portanto, na minha memória, uma Albufeira quase sem turismo e em que um dos grandes divertimentos da noite eram as apostas (dos adultos, não das crianças!) de quantas cadeiras e mesas era preciso levantar (suponho que no exterior do Café Bailote) para que passasse a camioneta de carreira que, por aquela altura, saia da (então) vila. Os que perdiam pagavam a conta! Havia também os bailes na esplanada sobre a praia (ainda antes da construção do hotel), com concursos de máscaras (e até de guarda-chuvas, lembro-me eu) que animavam as cálidas e remansosas noites da vilegiatura. Recordo também uma tarde em que o Mestre Xico (único banheiro na altura, e bastava), andou pelas ruas com um brinco de diamante, a perguntar de quem seria, que o tinha encontrado no túnel, junto à praia. Nisto, uma senhora sentada numa esplanada jogou as mãos às orelhas e, dando por falta de um brinco, exclamou “É meu!” Ainda não tinha dado por falta dele e já o Senhor Francisco lho estava a dar, no meio de muitos e sinceros agradecimentos. São estórias destas que fazem parte de mim quase desde que me conheço e que me voltam à memória sempre que tenho o ensejo de vir a esse querido Algarve.


Depois, muito depois, através da encantadora Susana (que literalmente nos encanta com a sua fabulosa voz), tive o privilégio de conhecer o Fernando Reis, a Luísa Travassos, a Marta Reis e toda essa adorável família. Foi assim que comecei a ver estas minhas croniquetas publicadas neste prestigiado e rigoroso jornal que, congratulemo-nos todos, já cumpriu 65 anos e outros tantos para cumprir! Parabéns a todos os que o fizeram e que o fazem!

Parabéns ao Jornal do Algarve!

Fernando Pinto

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