Os governantes são nossos empregados

Uma coisa inacreditável do meu ponto de vista é o servilismo que, nós portugueses, tendemos a ter a governantes. Não sei o que nos passa pela cabeça. Porém, vendo determinadas atitudes de servilismos em relação a políticos parece que os deuses do Olimpo desceram à terra.

Já vi isso acontecer várias vezes. O maior exemplo que vi aconteceu quando visitei a residência oficial do primeiro-ministro num dia que estava aberto ao público. A meio da tarde, o primeiro-ministro apareceu.

É difícil descrever em palavras exatamente o que aconteceu, mas vou tentar. Quase imediatamente formou-se uma grande fila para o cumprimentar. Não acho nada de errado nisso. O que acho errado é a forma como a maioria das pessoas cumprimentou o primeiro-ministro. Só faltava fazer beija-mão.
Não sei o que se passava na cabeça de quem o cumprimentava o primeiro-ministro. Mas uma coisa parece-me certa. Do seu ponto de vista, estavam a lidar que vinha de esferas mesmo muito altas.

O que vi acontecer com o primeiro-ministro já vi acontecer, em menor escalar, com presidentes da câmara e outros governantes. A meu ver, deve ser algo cultural que já vem de longe. Da época do fascismo e, provavelmente, muito para trás.

Porém, do meu ponto de vista, não é algo bom. Os governantes são pessoas como outra qualquer. Podem até ser brilhantes Porém, não é só a política que tem pessoas brilhantes. E, infelizmente, uma parte importante dos governantes está não são pessoas brilhantes no que fazem.

No entanto, acho que o mais importante não é serem pessoas como as outras. Uma coisa que nos esquecemos muitas vezes é que os políticos eleitos, em geral, e os governantes, em particular, são nossos empregados. Não estou a dizer isto num sentido metafórico. Estou a escrever isto num sentido muito literal e repito: os governantes são nossos empregados.

Vou colocar as coisas de um ponto de vista “empresarial”, o que talvez não agrade a muitos leitores. Porém, tenho de colocar a situação de alguma forma forma e escolhi esta.

Nós, Portugueses, somos “acionistas” da “empresa” Portugal. Nas eleições cada um tem direito a um voto. Muitas vezes não concordamos quem deve ser eleito para dirigir o país ou uma câmara. No entanto, uma coisa é certa. Estão a dirigir toda a “empresa” Portugal ou parte dela. Assim, são nossos empregados.

Arrisco a dizer que uma das razões principais porque, muitas vezes, os governantes não atuam como nossos empregados é esquecermos que o são.

Ivo Dias de Sousa

Professor da Universidade Aberta – ivo.sous@uab.pt