OPINIÃO

Os homens nascem maus

OPINIÃO | JOÃO PRUDÊNCIO
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Desde a adolescência que me questiono porque razão não se ensina na escola que não se deve atirar lixo para a estrada, cuspir no chão, limpar o cocó do cão, ou simplesmente reciclar. Para mim nunca se tratou de uma opção individual e sempre consegui divisar a linha que separa o certo e o errado.

Há uma década, quando foi proibido fumar em restaurantes, trogloditas anti-proibicionistas equiparavam fumar com não fumar e defendiam que o fumo num desses espaços era um exercício de liberdade individual tão legítimo como não fumar. Então fumador, sempre me bati contra esta visão, com defensores entre os mais famosos comentadores nacionais.

Evoluímos muito desde que aboliram os cigarros de cafés e restaurantes, mas muito menos do que às vezes nos queremos auto-convencer. Há cocó no chão em quase todas as cidades portuguesas, gente porca que não o limpa; há sempre um idiota no carro à frente que abre o vidro para atirar a garrafa para a berma; há gente que orgulhosamente proclama que não recicla resíduos, arranjando as mais atabalhoadas e insanas justificações.

Como há quem defenda que não se use máscara nestes tempos de vírus em nome da liberdade individual.

Pois é precisamente em nome dessa liberdade individual que um grupo de 100 cidadãos conservadores e reconhecidas personalidades de direita pôs a circular um abaixo-assinado que defende as motivações de um pai, do Norte do País, que decidiu proibir os dois filhos de frequentar a disciplina de Educação para a Cidadania. Os miúdos acabaram por chumbar por faltas. Precisamente aquela em que se aprende, ou deveria aprender, a limpar o cocó do cão, não fumar em espaços fechados e cuspir para o chão.

Claro que, além de despertar consciências contra enormidades tão indubitavelmente porcas e objetivamente mentecaptas – satisfazendo o meu velho anseio de Juventude -, a referida disciplina ensina matérias menos flagrantemente néscias mas muito mais profundamente significantes e radicais nas suas consequências: Direitos Humanos, igualdade de género, sexualidade.

Na prática, como o nome indica, a disciplina ensina a ser cidadão. Ensina valores e comportamentos que não podem ser assacados em exclusivo às famílias. É isso que abespinha gente como os subscritores do abaixo-assinado Cavaco Silva, Passos Coelho e Dom Manuel Clemente e irritou até à rutura um pai que não hesitou em servir-se dos filhos, a ponto de os fazer reprovar de ano, para escarrapachar publicamente o seu manifesto político.

Não, os pais não são donos dos filhos nem a democracia é neutra. Para a democracia há valores. A vida vale mais do que a morte, a liberdade está acima da repressão, o respeito pelo outro é soberano. São estes os valores que o Estado é obrigado a incutir nos seus cidadãos e que não são resgatáveis pelos pais ou tutores parentais sob nenhum pretexto.

E não comparem a disciplina de Cidadania com Religião e Moral, advogando a opcionalidade de ambas. Esta última é ideologizada e, apesar de opcional, é uma forma de vestir os filhos com as roupagens religiosas dos pais, instrumentalizá-los em nome da religião, com o beneplácito do Estado. Lavar-lhes os cérebros em nome das opções subjetivas dos pais. E conspirar contra a Ciência. A religião devia ser excluída do ensino público. E do privado. Os pais não são donos das opções ideológicas, filosóficas e religiosas dos filhos e não devem ter qualquer palavra a dizer na fase da imaturidade de pensamento. Aí, o sistema educativo está errado!

A disciplina de Cidadania, ao contrário de Moral e Religião, não impõe visões parcelares, subjetivas ou ideológicas. Ela pretende incutir valores e regras do sistema democrático nos cidadãos de amanhã. Os valores do respeito pelo outro, pelas opções do outro, pela cor de pele do outro, pela vida do outro, pelo ambiente, pelas leis universais do amor ao outro e à vida universal, não são, não podem ser, valores opcionais.

Não, definitivamente, ser cidadão não pode ser uma opção. É uma obrigação! E ensiná-lo é uma obrigação do Estado, inegociável em nome de qualquer agenda política ou ideológica de um qualquer encarregado de educação. É como as vacinas obrigatórias: não se negoceiam. Com a saúde das crianças não se joga, com a cidadania também não.

Porque, como dizia o poeta Gedeão, “os homens nascem maus./Nós é que havemos de fazê-los bons”.

João Prudêncio

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