REPORTAGEM

Pandemia despertou entreajuda entre algarvios

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A pandemia de COVID-19 aterrorizou a população, mas ao mesmo tempo gerou uma onda de solidariedade e de voluntariado nunca antes vista. Famílias que antes conseguiam viver na sua normalidade, passaram a ter muitas dificuldades económicas e tiveram de recorrer a instituições, associações solidárias, apoios do Estado
e das autarquias e até a novas ações de voluntariado e solidariedade que surgiram com o vírus

O Governo português foi o primeiro a anunciar medidas de apoio para praticamente todos os setores da população, seguido das autarquias e de instituições e associações solidárias, que não têm tido mãos a medir desde março.


As associações e instituições de solidariedade social não param há dois meses. Todos os dias há novos pedidos de ajuda de famílias com várias bocas para alimentar, créditos, contas e rendas para pagar e muitos foram aqueles que com a chegada da pandemia foram diretamente para o desemprego.


O voluntariado tem sido uma ferramenta fundamental para as várias entidades solidárias. São pessoas de bom coração e que apenas têm um objetivo em comum: ajudar quem mais precisa, principalmente em mais uma época de crise em que ninguém teve culpa.

“Ainda há muitas pessoas solidárias e com bom coração”


Daniela Salvador tem 23 anos e, desde abril que sai de sua casa em Altura, no concelho de Castro Marim, para ajudar quem está a passar por dificuldades.


Para estar mais próxima das pessoas, criou um grupo no Facebook intitulado “Apoio Social VRSA (COVID-19)”, “depois de ser membro de um outro grupo com a mesma finalidade, mas do concelho de Tavira”, revelou a jovem ao JA.


O objetivo principal daquele grupo é ajudar quem precisa. Através de publicações no grupo ou de mensagens privadas com Daniela, as pessoas mais necessitadas podiam fazer os seus pedidos e receber os produtos em sua casa, na maior rapidez possível.


Entre os pedidos, a comida era o mais solicitado pelas famílias que “agradecem sempre”, além de outros pedidos que, por vezes, os voluntários não conseguiram responder porque “as pessoas não doam esse tipo de bens, como por exemplo amaciador para a máquina de levar roupa”.


“Algumas destas pessoas já estavam nesta situação de dificuldade antes desta pandemia, mas outras nunca se viram com este problema e precisaram de ajuda alimentar”, referiu Daniela, que entregou vários bens nos concelhos de Vila Real de Santo António, Castro Marim e Tavira.

Daniela Salvador


Até ao final deste projeto solidário idealizado por Daniela Salvador, que terminou esta semana, foram feitos mais de 60 pedidos de ajuda e foi “possível responder a todos, felizmente”, salientou a jovem ao JA.


Durante as duas primeiras semanas, a casa de Daniela era o armazém desta ação solidária, de onde seguiam todos os produtos pedidos para as famílias. Devido ao elevado número de produtos e de pedidos, a jovem decidiu procurar apoio na Junta de Freguesia de Vila Real de Santo António.


“A maior parte do feedback foi muito bom. Sabemos que há sempre pessoas que criticam, mas nós não damos importância pois fazemos o nosso trabalho tal como o coração nos manda”, revelou.


Esta iniciativa veio demonstrar que o sentimento solidário está bem presente no povo algarvio e que “ainda há muitas pessoas solidárias e com bom coração”, confessou a jovem ao JA.


Os voluntários desta iniciativa contribuíram com alimentos, roupa, bens essenciais para crianças e outros produtos que as pessoas precisavam e que Daniela agradeceu “de coração”.


Para “não haver excessos em algumas famílias”, Daniela pedia o número de pessoas do agregado familiar e esteve sempre em contacto com a Reefod de Vila Real de Santo António, “um meio pequeno” que a jovem confessa eventualmente saber “a situação de maior parte das pessoas”.


Esta iniciativa teve o apoio da Câmara Municipal de Vila Real de Santo António e das Juntas de Freguesia, além de mais dois voluntários.


No entanto, o grupo do Facebook vai “manter-se ativo para troca de bens entre pessoas e até mesmo para ajudar alguma família que esteja mais necessitada”, revelou Daniela ao JA.


“Este tipo de iniciativas são importantes durante todo o ano. Se pudesse, fazia isto o ano inteiro, mas infelizmente não me é possível. Com o aparecimento desta pandemia, houve mais pessoas a passar dificuldades e foi surgindo este tipo de grupos por pessoas ditas independentes, como eu, que não sabia nada de assistência social e comecei tudo do zero, sempre com vontade aprender. Fico com esta recordação boa para o resto da minha vida”, concluiu Daniela.

Associação de Portimão oferece 100 refeições diárias


A Teia D’Impulsos, uma associação de Portimão criada em 2011, tem atualmente vários projetos solidários em curso e serve cerca de 100 refeições diárias a quem mais necessita, através do Centro Paroquial, uma vez que “foram descobertas famílias que passavam dificuldades”.


“Antes da pandemia, era servidas diariamente cerca de 50 refeições. Atualmente são servidas cerca de 100 refeições diárias. Durante a pandemia o pedido de ajuda duplicou e este número tende vir a crescer nos próximos meses”, referiu a direção ao JA.


A iniciativa “Convocados para Ajudar” é feita em parceria com o Centro Paroquial de Nossa Senhora do Amparo, em Portimão, e pretende angariar alimentos para, posteriormente, servir as refeições.


Após a receção dos alimentos, a gestão de distribuição dos bens alimentares fica a cargo do Centro Paroquial, que ajuda quem por lá passa. No entanto, a pessoa com necessidade tem de realizar uma entrevista e os dados são posteriormente confirmados com uma base da Junta de Freguesia e da Segurança Social, permitindo “assim dar apoio a pessoas que têm reais necessidades”, indicou a direção da Teia D’Impulsos ao JA.


Esta associação foi criada “por um grupo de amigos impulsionadores que tinham como objetivo trazer dinamismo à cidade de Portimão” e, durante a pandemia de COVID-19, criou a iniciativa Impulsos Solidários, “que consistiu na criação de linhas telefônicas de apoio para todos aqueles que se sentissem sozinhos e isolados tivessem com quem falar”, salientou.


A Teia D’Impulsos durante os dois últimos meses “recebeu alguns pedidos de ajuda, nomeadamente ao nível de transporte de bens alimentares para outras associações”.


Segundo a associação, este tipo de iniciativas têm demonstrado “um verdadeiro espírito solidário dos algarvios”, que mesmo antes da pandemia “já contava com cinco padrinhos de projeto que se mostraram disponíveis a para a prestação dos seus serviços”.


A associação tem vindo a ser contactada por diversas pessoas a título individual, que pretendem contribuir de alguma forma. A entrega de alimentos pode ser feita no Espaço Raiz, na Rua Francisco Daniel, de segunda a sexta-feira entre as 10:00 e as 18:00 e no Centro Social de Nossa Senhora do Amparo às segundas-feiras das 09:00 às 17:00 e de terça-feira a quinta entre as 09:00 e as 15:00.


O apoio monetário também é importante para a continuação deste tipo de iniciativas solidárias e podem ser feitas transferências bandárias para o Centro Cultural e Social da Paróquia de Nossa Senhora do Amparo através do IBAN PT 5000 4572 0140 2566 1474 040.


Além dos recursos humanos da associação, estes projetos sociais envolvem 15 voluntários e dois colaboradores assalariados, que neste momento unem esforços para contribuir para uma melhor qualidade de vida de várias famílias algarvias, necessitando de bens alimentares como ovos, enchidos, alhos, cebolas, leite, conservas, carne de frango e rojões de porco.


Voluntários transformam-se na telescola


Uma das mais recentes iniciativas da Associação Movimento Juvenil (MOJU) de Olhão é o acompanhamento ao estudo online, “através da realização de sessões de estudo acompanhado por videochamadas e do apoio à realização das tarefas escolares através das redes socias”, revelou a presidente da MOJU, Catarina Arraes, ao JA.


Esta iniciativa tem sido uma mais valia, após a suspensão das aulas presenciais devido à pandemia de COVID-19, com os voluntários da MOJU a manter as rotinas de estudo de jovens sem acesso a computador com internet, entregando tarefas escolares enviadas pelos professores aos jovens “que de outra forma não teriam acesso às mesmas”.

Voluntários da MOJU distribuem tarefas escolares a alunos sem computadores


Atualmente, são entregues as tarefas escolares a cerca de 63 crianças e jovens, que, desta forma “não ficam excluídos do ensino à distância”.


Com a ajuda dos voluntários, “os técnicos dos projetos imprimem, entregam os trabalhos às crianças e recolhem os que foram feitos para serem digitalizados e enviados às respetivas escolas”.


“As aulas à distância representam um desafio adicional para os pais e familiares, que muitas vezes já têm dificuldades e já se encontram sobrecarregados, conciliando o trabalho com as tarefas domésticas e com as atividades escolares”, referiu a associação ao JA.


A associação está também a prestar apoio psicológico à distância a vários jovens, pais e familiares, além de continuarem “a trabalhar com os programas do IPDJ para promover a participação dos jovens em áreas como o voluntariado, a ocupação dos tempos livres, a formação e a capacitação, adaptando-se aos novos tempos”, salientou a presidente.


A desmotivação e a ansiedade que os jovens sentem por se encontrarem em casa tem sido outro dos problemas que a MOJU tem enfrentado, através de propostas de atividades diárias e semanais de ocupação dos tempos livros como concursos, desafios e workshops.


“Desde o início do período de isolamento já foram lançadas mais de 100 propostas de atividades para os jovens se manterem ocupados, em torno de temas do seu interesse. Os mais participativos e criativos até têm tido direito a algumas recompensas”, confessou a MOJU.


A associação tem ainda uma parceria no projeto “Fique em casa que a junta vai”, com a Junta de Freguesia de Olhão, no qual contacta as colaboradoras quando as suas hortas “têm produtos que possam ser doados”, de onde nasceu o “Planta 1 Doa +1”, “no qual são dadas bolsas a 6 voluntários para realizarem hortas em casa e no final parte dos produtos fica para a família dos mesmos e outra é doada a essas entidades que recebem esses pedidos”, destacou Catarina ao JA.


Quando a academia acalmar, os voluntários internacionais da associação estão “a planear plantar árvores e relva para podermos ter mais espaços verdes”. Catarina referiu ainda ao JA “voluntariado é acima de tudo um gosto que temos, e nunca uma obrigação. Claro que há que ter um certo grau de responsabilidade e compromisso”.


A MOJU tem uma atividade a nível regional e internacional e foi fundada em 2007, sendo constituída por “um grupo de jovens crentes da importância da participação juvenil na construção da sociedade”, segundo disse a presidente da associação ao JA.

Gonçalo Dourado

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