OPINIÃO

Pontos-de-vista

OPINIÃO | JOSÉ LARCHER

Eis-me de novo na vossa companhia.


Encerrei a minha crónica anterior com duas promessas: uma, a de reflectir sobre o futuro de um Algarve antropomórfico que quis partilhar comigo os seus sonhos de paz e abundância; outra, a de fazer um brevíssimo escorço sobre a bizarra aliança estabelecida entre o aguerrido Dom Afonso Henriques e o poeta e místico Abû al-Kâsim Ahmad Ibn Qasî, um árabe nascido em Silves e que até mereceu a honra de uma estátua equestre junto ao castelo de Mértola, do qual em tempos idos foi o senhor (e que bem merece uma visita).


O tratamento do segundo tema pareceu-me mais fácil de abordar e, para além do mais, trata do passado e é sabido que antes de reflectir sobre o futuro se deve estudar o que já lá vai e, sobretudo no caso do Algarve, estudar o passado árabe, herança cultural pouco estudada mas que lateja há mais de um milénio adentro das nossas fronteiras.


Dito isto, arregaço as mangas e atiro-me à história: o episódio que vou contar teve lugar por volta de 1140, poucos meses depois da derrota dos Almorávidas na batalha de Ourique – milagrosa vitória e mito fundador de Portugal – a partir da qual Dom Afonso Henriques, por sua alta recreação, começaria a usar o título de Rei.


Na verdade, no início do século VIII já os destemidos exércitos do califado omíada de Damasco tinham desembarcado na Hispânia e, batalha após batalha contra os reis visigodos, tinham conquistado Córdova – nela instalando a sede do califado -, Toledo e virtualmente quase toda a península. O domínio omíada durou perto de quatrocentos anos e teve o seu apogeu nos fins do primeiro milénio. Teve uma trama histórica naturalmente complexa, com vitórias e derrotas, alianças e traições mas, no fluxo e refluxo da história, o califado exerceu um irresistível encanto e, talvez por isso, desde tempos recuados os árabes estejam ligados na memória do nosso Povo ao maravilhoso, ao belo e ao requintado.


A partir de 1002, com a morte de Almançor, o último governante omíada, o califado desagregou-se em pequenos feudos – as taifas. Não tardará muito até forças militares inimigas, aproveitando a fraqueza da fragmentação, começarem a perfilar-se nas fronteiras. Eram maometanos, mas não árabes; eram berberes provindos do Saara, do Magrebe, das vastíssimas regiões da África ocidental: os Almorávidas. Ano, após ano, conquista após conquista, aliança após aliança, apossaram-se de toda a vasta região anteriormente sob domínio omíada, e iriam regê-la durante mais de meio século. Não podemos esquecer que durante este período os reis francos da Península (e entre eles o conde D. Henrique e seu filho Afonso), nunca cessaram os esforços de reconquista e, assim, nas instáveis fronteiras estabelecidas entre os reinos cristãos e o mundo muçulmano – quer fossem reinos unificados, quer simples taifas – assistia-se a um contínuo bailado de vitórias e derrotas.


Mas voltemos de novo a Ibn Qasî e à aliança com D. Afonso I de Portugal. O caso é que os Almorávidas defendiam um pensamento antropomórfico de Deus e, realçavam os seus aspectos humanos. Por seu lado Ibn Qasî, chefe religioso e sufi nascido em Silves, defendia uma interpretação despojada e pura do Corão e sobretudo o conceito de unidade divina, o que deu origem a uma cisão religiosa e à criação do movimento dos muridinos, seita mística e guerreira que passou a combater pelo regresso do Islão à sua pureza inicial.


O caso é que, a dada altura (1142), Ibn Qasî rebelou-se contra o poder almorávida e apelou ao auxílio dos Almôadas que não lho negaram, dando origem a um demorado conflito entre as diversas partes. Mas, surpreendentemente, Ibn Qasî enganara-se a respeito da pureza de intenções desses novas aliados e não demorou muito até se rebelar contra eles e, na sequência dessa revolta, realizar importantes conquistas (entre elas a de Mértola).


Atrevo-me agora a entrar no campo da filosofia política e, mesmo sabendo que Maquiavel só escreveria o seu Príncipe uns séculos depois, tentar compreender esta aliança à luz da táctica política de um homem ambicioso (o nosso Afonso Henriques). Na verdade, Ourique fora o sinal da vontade de Afonso em apossar-se pela força da espada do riquíssimo al-Garb mas, apesar dessa vitória contra os Almorávidas, ele bem sabia que tal alinhamento de circunstâncias dificilmente se repetiria. Ora, a revolta de Ibn Qasî caía-lhe como sopa no mel: um muçulmano “algarvio” a sublevar-se contra os dominadores muçulmanos era-lhe altamente conveniente. De facto, neste período de meia-dúzia de anos, posterior à aliança entre os dois príncipes, entre a instalação de uns senhores e a desinstalação de outros, Ibn Qasî chegou a conquistar boa parte do al-Gharb al-Ândalus.


Por ocasião da aliança estabelecida entre Ibn Qasî e Dom Afonso Henriques, trocaram-se intenções mas também coisas.

Desconhecemos o que teria o mouro ofertado ao português, mas conhecemos o que este ofereceu ao seu novo aliado: um cavalo, um escudo e uma espada, tudo coisas com um profundo significado. Pode suspeitar-se até que o alcance da aliança entre Ibn Qasî e Afonso Henriques tenha envolvido um altíssimo simbolismo espiritual, e não apenas um mero oportunismo político. Na verdade, encontram-se pontos de contacto filosófico e religiosos entre o Sufismo e a influente Ordem Templária, da qual Dom Afonso Henriques foi membro e herdeiro em Portucale, e talvez essa coincidência seja uma das causas explicativas da aliança entre eles estabelecida. O ideal ecuménico dos Templários casava-se bem com uma aliança entre o cristão Templário e o sufi e chefe dos Muridinos. A esta luz, a aliança entre os dois soberanos ganha uma simbólica e um alcance até hoje quase ignorados. Tudo terminaria, hélas, em 1151, de maneira assaz maquiavélica, com o implacável assassinato do revoltoso, a mando dos almôadas.


E é assim que por vezes a história dispõe de uma forma que não agrada nem a gregos nem a troianos: o nosso rei perdeu o seu aliado e os almôadas ganharam nos muridinos um implacável inimigo. Mas isso são outras histórias.

José Paulo Larcher

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