OPINIÃO

Pontos-de-Vista

OPINIÃO | JOSÉ LARCHER
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Não tenho competências específicas para falar do Algarve, empreitada a que a partir de hoje e ousadamente me proponho. Nasci em Lisboa num milénio que já não existe. O meu Portugal rural durante muitos anos consistia numa deslocação à Beira Alta durante o período de férias para estar com os avós. Tive que esperar pelos meus quinze anos para conhecer a mágica região que o Algarve era nos anos 60. Cheguei sozinho, num comboio ronceiro, com uma mochila às costas, e instalei-me num parque de campismo em Quarteira, depois de um longo percurso a pé sob um Sol cruel. Era o calor de um Algarve antigo e mouro que se intensificava nas estradas estreitas, bordejadas de alfarrobeiras e figueiras, e cactos, muitos cactos, que produziam figos dulcíssimos e selvagens. A praia de Quarteira era um areal larguíssimo que se estendia até um “Country Club” muito selecto, uns bons metros para leste (existirá ainda?…) e a um parque de campismo.


Um dia, nesse areal imenso, socorri uma menina de idade aproximada à minha, que tinha sido picada por um peixe aranha e que sofria de dores excruciantes. Transportei-a nos meus braços – ao tempo suficientemente fortes para tal empreitada – pelo areal acima, até ao banheiro, que naqueles tempos era um autêntico faz-tudo, que com mezinhas e raspaduras a aliviou da dor. Este episódio foi marcante na minha vida, porque seria esta mesma personagem a que eu acompanharia ao altar uns anos mais tarde. Em Quarteira havia um Casino que realizava bailes com regularidade, nos quais, noite após noite, eu me apaixonei por uma pessoa diferente. Tive também a sorte – porque não ia acompanhado de pergaminhos de qualquer espécie – de ser recebido na casa paterna do meu futuro e querido amigo Zé Cabeçadas, do qual, infelizmente, nada sei há mais de cinquenta anos… Esse Algarve foi para mim praia e mar, dança e coração em perpétuo sobressalto, amizade sincera e muita singeleza. O ritmo naquele tempo era lento e cálido. A modernidade ainda vinha bem longe. O Algarve era um Portugal diferente, um outro Reino.


Quinze anos depois e durante dois ou três anos, passei férias com um grupo de amigos em Ferragudo, onde durante o dia velejava no rio Arade num indolente Vaurien, e à noite, nos cais de Portimão, jantava sardinhas e pimentos acompanhados pelo forte vinho de Lagoa, o que desatava as línguas e pacificava os corações. Esse Algarve foi para mim o da maturidade, da família e dos amigos. Foi o Algarve do Sol, do mar e das sardinhas. E não devo esqueçer os figos, as laranjas e o vinho de Lagoa. A modernidade traduzida na expansão imobiliária aproximava-se a passos largos da região, mas a deslocação de automóvel ainda era incómoda e demorada. Todos nós parávamos em Canal Caveira, que ficava a meio caminho, para comer um cozido à portuguesa, e a travessia da Serra do Caldeirão dava direito a paragens forçadas para as crianças vomitarem. O Algarve, todavia, ainda era o Reino dos Algarves, um outro Portugal.


Sei que é imperdoável, mas durante quinze anos não regressei ao Algarve. Razões familiares e profissionais, e talvez outras, me impediram. Quando, nos primeiros anos do novo milénio e do novo século, desembarquei na Via do Infante, após duas horas de condução numa auto-estrada magnífica, apercebi-me das mudanças e, como Velho do Restelo, comentei para mim próprio: “Deram cabo disto tudo!”. O meu novo destino era Cabanas de Tavira onde iria adquirir um apartamento turístico. Nesse local, durante uma dúzia de anos passámos férias, eu e a família. E encontrei e fiz amigos. Quase todas as noites íamos com um bando de crianças a Tavira “tomar café”, e nos assentos de pedra da velha ponte que cruza os rios Séqua e Gilão, contavamos-lhes a história da princesa moura e do princípe cristão que sob os seus arcos poderosos se tinham enamorado. E os filhos e os netos cresceram a gostar do Algarve. Já não do Algarve mouro e mágico, mas de um Algarve funcional e prático, que aproveita o seu passado como atractivo turístico, mas que, infelizmente, nesse percurso perdeu muito do que o caracterizava.


Fez dois anos no mês de Março passado – mês fatídico esse… – que troquei o meu apartamento inicial por um outro em Vila Real de Santo António; uma casa de cidade, não um erzats turístico. Um sítio onde seria possível viver boa parte do ano. Porquê esta cidade e não outra? Bom, “o coração tem as suas razões, que a razão desconhece”, lá diz o filósofo, mas vou mesmo assim tentar responder.


Penso que o que em primeiro lugar me seduziu foi a sua localização excêntrica: mais uns passos e a cidade inteira caíria nas águas que a cercam. Vila Real de Santo António está encostada a uma linha de fronteira que a demarca com a imponência das coisas imutáveis. Como aqueles animais acossados que, encontrando uma parede inexpugnável, se voltam para o perseguidor com a intenção de venderam cara a própria vida, assim a cidade se volta toda para Oeste, para Poente. Nela termina o caminho para Sotavento, pois o Sotavento é mesmo aqui, nesta cidade adossada ao rio e ao mar e a um país irmão. O seu ponto-de-vista é extremo e isso, valha-nos a geometria, concede à sua visão um ângulo de abertura máxima para contemplar o resto da região. Deste ponto-de-vista a cidade pode contemplá-la com a agudeza que as últimas fronteiras conferem ao olhar.


Em segundo lugar, porque o centro histórico é muito interessante e consegue manter alguns traços arquitectónicos característicos e a frente ribeirinha é de um encanto mágico inexcedível (será este talvez um olhar exagerado de um amoroso).

Depois porque, por coincidência, num romance que publiquei recentemente, O Tintureiro Francês, faço uma descrição da fundação da Vila em Santo António de Arenilha, e ponho o Sebastião José de Carvalho e Melo a ser informado do andamento do projecto que tanto acarinhou. E estas coisas, depois de investigadas e escolhidas, deixam marcas e memórias em quem as escreveu. Enfim, talvez tudo isto não passe de literatices com fraca aderência à realidade.


Pois que Algarve será então este que me proponho conhecer e descrever em futuras crónicas? Essa é uma pergunta para a qual não tenho resposta, e pode ser até que não a queira ter, pois é sabido que os melhores caminhos são aqueles que se fazem caminhando.

José Paulo Larcher

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