“Portugal sou eu!” Que seria de Portugal sem ti?!

Há alguns dias (aparentemente, dia 26 de Abril) vimos iniciar-se nas televisões, nas rádios, nos jornais e nos painéis publicitários, uma campanha de promoção de produtos nacionais, integrado no Programa “Portugal sou eu!”. Embora o símbolo do programa não seja novo, não me recordo de ter visto, nos tempos mais chegados, qualquer campanha a ele associada. Fui indagar e encontrei na net (claro!) o tal programa, em cuja página inicial se reza assim: ”O Programa «Portugal Sou Eu» visa a dinamização e valorização da oferta nacional com assinalável incorporação de valor acrescentado e a promoção do consumo informado por parte dos consumidores, através de uma marca ativa e identitária da produção nacional.” A frase-chave desta campanha, que aparentemente já existe há cerca de dois anos é “Que seria de Portugal sem ti?”, em que este “ti” é substituído por uma série de produtos tipicamente nacionais como o azeite, a sardinha, o azulejo, o fado e muitos outros produtos portugueses. Pergunto-me porque só agora tal campanha se tornou visível e porque não tem ela um carácter permanente. Entendo que os outros (isto é, os não portugueses) só serão tentados a consumir produtos portugueses se nós também os consumirmos, e isto é verdade desde o sol algarvio até às conservas de sardinha, da própria sardinha ao Vinho do Porto e do calçado ao azeite (que vi anunciado em Itália há muitos anos, como o melhor azeite do Mundo!). Isto, para já não falar dos têxteis portugueses, outrora símbolo da altíssima qualidade portuguesa! Deve-se promover o consumo de produtos portugueses, tal como todos os países fazem relativamente aos seus produtos, do hambúrguer americano ao queijo francês! Todos sabemos que, em tempo de crise -e que melhor altura para falar dela(s)?- sempre se recorre à prata da casa, que é como quem diz, aos portugueses! É assim quando há baixas no turismo, em que os Algarves deste país, de norte a sul, se tornam subitamente acessíveis aos portugueses, é assim na exportação de calçado, é assim em tudo porque, no limite, tudo o que existe em Portugal deveria servir, em primeiro lugar, aos portugueses. Nós somos a massa crítica inicial de tudo o que por cá se concebe, fabrica ou produz. Todos os outros, os estrangeiros, fazem contas, analisam a concorrência e optam pelo melhor binómio qualidade/preço à chegada aos seus países. Nós somos portugueses e deveríamos sempre poder optar pelo que é nosso, porque quanto mais local, mais economicamente equilibrado, menos poluidor e mais próximo dos nossos próprios parâmetros culturais. A talhe de foice, pergunto-me se esta campanha não deveria ser extensível ao mais identitário dos produtos nacionais: a língua portuguesa? Bem sei que a língua portuguesa falada por portugueses representa somente cerca de 5% dos falantes de português neste Mundo, mas compete-nos a nós defendê-la, acarinhá-la e, sobretudo, usá-la! Não o fazendo, corremos seriamente o risco de ter de aceitar o português do Brasil (onde está a esmagadora maioria dos seus falantes) como fluxo principal desta nossa língua. Então, não haverá Acordos Ortográficos que nos valham, sendo que este último já foi um nado-morto (formalmente rejeitado, recorde-se, pelo actual Presidente da República antes de o ser). Mas as coisas pioraram de então para cá, com a moda aceite (e diria que incentivada pelos sucessivos Governos Portugueses) de promover o inglês como segunda (quase primeira) língua deste país. Veja, como exemplo, a tentativa (reconheço que frustrada) do ministro Manuel Pinho com o seu “AllGarve” ou os nomes de duas faculdades pagas por todos nós: Nova School of Science and Technology ou Nova School of Business and Economics. Devo dizer que nesta última, que visitei, está tudo (ou quase) escrito em inglês!!! E se é assim nas instâncias oficiais que deveriam proteger o português, imagine-se nas outras! Claro que num povo que há pouco saiu de uma das mais baixas escolaridades europeias, se o português e o seu culto já não eram brilhantes, imagine-se o inglês. Como nota jocosa mas triste, há semanas (ou)vi num programa domingueiro alguém berrar aos microfones da SIC “Muita atenção!” para logo dizer num triunfante e erudito inglês “Very attentions!” (tenho todo o registo, mas não revelo quem foi por decoro). Chego a ter vergonha de ver o “armar ao pingarelho” nacional e tudo querer dizer em inglês! Circular por todo o país é estar permanentemente a tropeçar em coisas escritas em inglês, quantas vezes bastante mau! Fazem-me lembrar o outro a quem foi perguntado se sabia inglês e respondeu “Oui!”. Replicou o perguntante: “Mas isso é francês!”. “Então também sei francês!”, rematou o segundo! Para já, ainda é anedota…
Olhando para Espanha (que tanto nos atormenta, com o competitivo preço da gasolina!) ou para o Brasil (para só nomear dois países), constato que até o sotaque do inglês é modificado para poder ser albergado no idioma local, tal como se fez desde sempre em todos os idiomas. Recordo que o “Forró” origina o seu nome em (Music) “ For All”! Por cá, era o que se fazia quando havia orgulho e afirmação na nossa língua e assim a disseminamos pelo Mundo, tornando-a na 5.ª língua mais falada! Recordemos que Lencastre é a versão portuguesa de Lancaster, Borgonha de Bourgogne, Pequim de Beijing e assim por diante. Agora, é frequente ouvirem-se “versões originais” que mais não são, muitas vezes, do que versões originais erradamente inglesadas. Uma tristeza! Um evidente desprezo pela língua-mãe que revela um confrangedor provincianismo que já Eça criticava! Parece até que estamos desejosos de nos desfazer do português! Sinceramente, acho que teremos de inverter este estado de coisas o mais rapidamente possível, porque é a própria língua portuguesa, tal como a conhecemos, que está em risco! Não esquecendo que o comércio começa sempre pela introdução da língua, dá para perguntar, tal como o faz a tal campanha que só se dedica ao comércio, “Que seria Portugal sem a língua?”. A resposta será tristíssima!
Sinceramente, não sei o que fazer. Talvez um abaixo-assinado, talvez uma exposição à Assembleia da República. Tenho, contudo, consciência que alguma coisa haverá que fazer, porque a língua portuguesa, tal como qualquer sistema deste mundo, tem de ser preservado e cultivado, sob pena de desaparecer. E agora é tudo tão rápido!
“Que seria de Portugal sem ti?”

Fernando Pinto

Deixe um comentário

Relacionadas

+ Exclusivos

1 COMENTÁRIO

  1. Nós, Portugueses, povo com algumas assinaláveis virtudes, somos pródigos em malbaratar aquilo que, por vezes, de melhor temos.

    O caso da língua, da nossa língua, o Português, que foi o instrumento, por excelência, com que espargimos a nossa presença pelo mundo e aquilo que, mais do que tudo, é a marca da nossa identidade, como povo, é, dessa nossa costumeira atitude laxista, um exemplo bem paradigmático.

    Há meia dúzia de anos, de férias, em Portimão, dirigi-me para almoçar a um restaurante.
    Pedi o menu e que vi eu ?
    O cardápio de cada prato com as descrições em todos os idiomas mais conhecidos – Alemão, Inglês, Francês e Espanhol.
    Pedi ao empregado que me atendia o favor que chamasse o gerente e explicasse o motivo por que, na nossa própria terra, não tínhamos o direito a que a nossa língua figurasse na lista.
    Embatucou e não me soube responder.
    Agradeci e sai, tendo ido almoçar a outro local.

    Os famigerados Acordos Ortográficos têm sido, a partir de 1911 – data em que foi implementado o primeiro – o principal motivo pela dispersão e descaracterização das diferentes grafias existentes, no mundo de países lusófonos, designadamente, no caso do Brasil.
    Opostamente, quer o Francês, Inglês ou Alemão mantiveram intacta a sua estrutura etimológica recebida do Grego e do Latim, na parte lexical que integra aquelas línguas com origem nestas duas línguas-mães.
    Por esse preciso motivo, se lermos um texto, em língua inglesa, seja no Reino Unido ou na Austrália, ele é vazado na mesma grafia.

    Mais haveria a escrever sobre este tema, porém, não me posso alongar.
    Apenas aqui deixarei a seguinte reflexão de um dos mestres da nossa língua e um dos seus mais brilhantes cultores :

    “Um homem só deve falar, com impecável segurança e pureza, a língua da sua terra. Todas as outras as deve falar, orgulhosamente mal, com aquele acento chato e falso, que denuncia logo o estrangeiro. Na língua verdadeiramente reside a nacionalidade. O cosmopolitismo do verbo irremediavelmente lhe dá o cosmopolitismo do carácter. Por isso, o poliglota nunca é patriiota”.
    (Eça de Queiroz)

    Não é por acaso que, quando nos deslocamos no estrangeiro, longe da pátria, e nos cruzamos com pessoas que se venham a expressar em Português, em nós cresce um misto de conforto e emoção, pela audição da língua-mãe.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite o seu comentário!
Por favor, digite o seu nome

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

JA_NEWSLETTER

JORNALISMO DE CAUSAS AO SERVIÇO DA REGIÃO.SIGA AS ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Tamanho da Fonte
Contraste