“Quero os meus animais e a minha casa de volta”

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Tem 85 anos e vive há 16 em fábricas abandonadas. Os espaços, em ruínas, não possuem as mínimas condições de higiene e habitabilidade. Dedica o dia a dia a cuidar dos seu cães, animais abandonados que vai recolhendo na rua. Chegou a ter 200 e o caso já foi considerado um problema de saúde pública. As autoridades já tentaram resolver a situação, mas José Gregório teima em não se desfazer dos animais

DOMINGOS VIEGAS

Há histórias de vida e do quotidiano que podem ser adjetivadas das mais variadas formas e outras que, simplesmente, roçam o surrealismo. É o caso de José Gregório, 85 anos, que vive há mais de 16 anos em fábricas abandonadas de Vila Real de Santo António porque estas são o único local que encontrou para poder repartir um espaço com os seus cães.

As autoridades, tanto autárquicas como a Segurança Social, já tentaram resolver esta situação por várias vezes, mas José Gregório exige condições, não só para si mas também para os animais: “Quero uma casa com um bom quintal, para poder ter os meus animais, e de preferência sem vizinhos por perto”, explica, à porta de uma antiga fábrica de conservas, onde vive com cerca de uma dezena de cães. Agora são dez, mas já foram duzentos.

Conta que pagou sempre a renda da casa onde viveu até 2000, ano em que esta foi demolida para a construção de uma urbanização. “Fui para Espanha, ajudar num canil, e quando voltei já só lá estava o terreno. Eu nunca deixei de pagar a renda, mas derrubaram a casa e o tribunal não me deu razão”, explica.

A partir daí começou a viver em fábricas abandonadas, sem nunca se desprender dos seus cães, muitos dos quais animais abandonados que foi recolhendo na rua. Há cerca de dois anos, quando foi internado no hospital pela primeira vez, por problemas respiratórios, as autoridades depararam-se com cerca de 200 cães na antiga fábrica onde José Gregório residia, localizada a norte da cidade, perto do cemitério.

Os cães foram entregues ao canil intermunicipal, enquanto a porta e janelas do espaço foram “seladas” com tijolo e cimento. Estava em causa um problema de saúde pública.

“Estou com a ideia de os voltar a trazer para cá. E quero continuar a recolher animais abandonados da rua. Quero os meus animais e a minha casa de volta”, diz, à porta da velha fábrica quase em ruínas e sem quaisquer condições de habitabilidade.

Antes de se ter instalado nesta antiga fábrica, José Gregório também chegou a viver junto ao canil localizado no concelho de Castro Marim, mas acabou por sair de lá por desentendimentos com os responsáveis daquele espaço. As assistentes sociais já tentaram que fosse internado, mas José Gregório recusa: “Querem internar-me, mas eu não deixo. Não quero. Não sou nenhum cadastrado”, repete.

Acabou por voltar para a zona norte da cidade de Vila Real de Santo António e, mais uma vez, para outra fábrica em ruínas. É aí que sobrevive atualmente, sem as mínimas condições, tal como já acontecia na anterior, e com uma reforma de cerca de 400 euros que, conta, vai quase toda para alimentar os cães.

Quando lhe perguntámos se aceitaria uma casa com condições e a entrega dos animais para o canil, José Gregório foi perentório: “Isso nunca. Os animais são carne da minha carne. E o canil também está cheio e não tem condições para ter lá mais cães. Quero uma casa com condições para poder viver com os meus animais”, exige.

(reportagem publicada na edição impressa do Jornal do Algarve de 15/12/2016)

Comentário

  • Posso até compreender as razões do homem, mas está em causa a saúde pública. Penso que as autoridades deveriam atuar de forma a garantir-lhe condições de habitabilidade, mas já as exigências dele quanto aos animais, acho demais. É que por mais boa vontade que ele tenha, os animais também não vivem em condições adequadas. Urge mesmo uma solução para este caso.

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