OPINIÃO

RAFAEL CORREIA: A morte de um pintor de sons

OPINIÃO | RAMIRO SANTOS
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Era um homem seco. De físico e de trato. Reservado, tímido até. Na vida, como na profissão.
Ele e a velha nagra, os dois e mais ninguém, percorreram vezes sem conta o país profundo e esquecido. Em busca da história, do som, da conversa, da riqueza de pormenor, numa simbiose perfeita entre o homem, a máquina e a natureza. E, depois, nas manhãs da telefonia, aos sábados, com todos os sentidos acordados, acendiam-se todas as emoções, dos sítios, lugares, dos trilhos, dos vales perdidos, das modas e dos regatos a correrem frescos na conversa sem tempo.

Rafael Correia era um eremita da rádio – um perfecionista que não deixava nada ao acaso ou por mãos alheias – que veio trazer o mundo rural a todos os que, longe dele aspiraram sempre a ele voltar um dia. O Lugar ao Sul, tornou–se, naturalmente, o ponto de encontro das nostalgias de um país profundo e longínquo para uma camada de gente que nunca perdeu verdadeiramente a sua ligação à terra e para uma certa elite urbana que começava a não se rever no modelo das sociedade modernas.

Mas era preciso saber pisar o chão, conhecer a geografia das emoções e bater à porta certa. E Rafael Correia, sabia fazê-lo como ninguém. Não precisava de muita conversa, para ter conversa. Bastava insinuar. Porque ele não entrevistava, nem interrogava. Ele falava como se fossse um deles: o pastor, o artesão, o vendedor, o tocador de harmónio, a tecedeira, o cantadator de modas. Era mais um, igual a todos os deserdados da vida à mesa da conversa, onde nunca houve lugar para os grandes ou pequenos poderes desta paróquia. Notáveis, só os homens e mulheres do povo anónimo que se reuniam no Lugar ao Sul e o país que se lhe juntava nas manhã mágicas da rádio.

Lugar ao Sul mosaico de aguarelas frescas e coloridas


As centenas de programas que realizou constituem um espólio cultural inestimável de um país em vias de extinção. Há quem lhe chame o Giacometti da rádio, pelo trabalho de recolha das tradições orais e culturais e do nosso património natural e histórico. Mas, perante a imensidão desse trabalho que Rafael Correia nos legou, eu prefiro encará-lo como se estivesse perante um mosaico de aguarelas frescas coloridas de um pintor de sons!

Na verdade, Rafael Correia tinha essa magia de transformar o som em imagem sonora. Sem que se perdesse, ao ouvi-lo, o cheiro fresco da terra, o ribombar do trovão, o aroma, das plantas ou o sabor do pão quente acabado de sair do forno em abóboda de pedra. Escutá-lo era aprender as receitas e as mezinhas do campo, numa verdadeira farmácia popular, sentir o vento a soprar nas searas e o cantar do grilo, nas margem da ribeira. E até aquilo que a nossa imaginação pudesse alcançar: como a felina corrida da lebra por entre a folhagem do vale verdejante lá ao fundo…

Outras vezes, surpreendia-nos trazendo da serra o perfume do rosmaninho e do loendro, o cheiro do branco da cal das casas, o sabor das primeiras linguiças do ano, o assobio das modas que ninguém mais canta nas telefonias mas que teimam em andar ainda na boca do povo.

O programa Lugar ao Sul, foi um dos mais bem sucedidos e duradouros programas do serviço público de radiodifusão e deve ser justamente considerado parte integrante do património cultural imaterial dos portugueses e, por consequência, inscrito na memória coletiva do povo algarvio.

Rafael Correia durante 30 anos, correu o país, de microfone e gravador,a registar vozes, histórias, lendas, canções, usos e ofícios que o país tem a obrigação de saber valoriza, divulgar e preservar. Este património faz parte da identidade do povo português.

Contudo, se fosse hoje, Rafael Correia e o legado que deixou ao país, não teriam, provavelmente, lugar na rádio pública, cada vez mais centralizada. As delegações regionais são uma carticatura do que já foram no passado. Sem projecto local, a RTP quer vender o edifício histórico e o terreno envolvente para especulação imobiliária, no campo da Senhora da Saúde, em Faro.

Voltar a ouvir o Lugar ao Sul – em arquivo no site da RTP – é revisitar um país escondido por detrás do biombo, como se fosse um enorme mosaico de surpresas e descobertas: pessoas, lugares, casas, cores, aromas, cantigas e tradições.
O Rafael Correia partiu, mas deixou-nos este imenso e riquíssimo património. Não ficaria nada mal se todo esse espólio, devidamente organizado e catalogado, passasse a figurar num futuro núcleo museológico que antigos profissionais daquela rádio pública defendem para o velho e histórico edifício que há quem pretenda demolir para fins pouco culturais.

Ramiro Santos

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