CULTURA

Remate certeiro: Em letra vadia… a fome anunciada por António Aleixo

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As questões humanitárias estão cada vez mais na ordem do dia, mas ao mesmo tempo, o humanismo continua a ser uma cotovelada em cheio no rosto dos exilados sem pão, nem trabalho e a fome emerge em cada momento.


Trazem para adornar esta vida que percorremos aos soluços, o trabalho apressado da ciência, que continuam a lutar contra o desconhecimento e apavorados, ouvimos Trump, o triunfador da lixivia, como salvador do seu povo, ou então, o coveiro Bolsonaro, que não o sendo, enterra diariamente sem dó nem piedade, um povo que nasce e morre a cantar…


Por aqui, quer queiramos quer não, as questões humanitárias, são a linha que mais vezes temos que amansar, para que não nos percamos na ilusão, num tudo perfeito nas novas tecnologias, e as vozes das rádios e das televisões, e os rostos dos jornais a nos mostrarem adversidades e choques profundos, entre a realidade e as causas que nos têm vindo a conduzir para o medo e o desassossego.


O eco, de que os pais que não tenham dinheiro, ou as contas em dia, os filhos não podem regressar às creches, sem sabermos até agora, qual será a resposta, esta sim humanitária, da Segurança Social, porque nós, também sabemos que estas instituições, as creches, também têm soberbos encargos: alimentação, higiene, ordenados, transporte, material didático, e portanto também tem que ter um forte resposta económica, por forma, a não começar por aqui, pelas crianças, o nosso processo da desilusão, em relação às questões humanitárias.


Quase que me apetecia, no aconchego do meu sofrimento, e desculpem a comparação, que se tratassem essas crianças como sem fosse sem-abrigos, que os ajudassem de igual modo, e a par disso, que as entrevistas destas mil associações que representam as creches, não surgissem à boca do microfone tão duras, tão violentas, sem olhar de esperança, sem um conhecimento profundo da cartilha maternal de João de Deus, ou deste eco fantástico de Augusto Gil: «Mas às crianças senhor, porque lhes dás tanta dor…»


Estava eu a gaguejar sobre este momento que em junho/julho, desejamos que não afecte nem crianças, nem pais, nem encarregados de educação, nem famílias, nem as instituições, pensando até, que talvez se arranje por ai, dos dinheiros disponibilizados pela Comunidade Económica, desviados do NOVO BANCO – que vamos ter todos que pagar, alguns trocos, para ajudar ao equilíbrio destas famílias, ao equilíbrio, à moral e ao amor por essas crianças, – quando comecei a ler, umas quantas linhas, sobre a Sebenta escrita em Letra Vadia, que em breve publicarei, saindo então desse conflito de hoje, que é o regresso das crianças às creches…


Existe cada vez mais um vazio prolongado todos os dias por dentro das nossas vidas e quem fazem lembrar as curvas e as linhas achatadas, que tanto se fala, como soma científica sobre o nosso cada vez mais visível, esperamos que sim, desencontro com o coronavírus.

Para evitar que os vasos voltem a magoar alguém, a minha vizinha colocou agora rolos de papel higiénico na varanda


Todos os dias abro a janela e respiro o mundo e vejo na minha frente, uma parede alta com dezoito janelas. Só uma acolhe o ruído sarcástico das persianas, que tanto a subir como a descer, trazem um ruído cansado, de sofrimento, de fora de prazo.


Hoje, da minha janela, onde afinal não consigo ver o mundo, mas imagino, ainda não vi passar o meu amigo Nandinho.


Já foi um rico comerciante da nossa praça, mas o desgosto com a mulher, aquela que até o levou ao altar e em missa cantada confessou: Na vida e na morte. Na saúde e na doença…


Mas mal ele saiu de casa, naquela manhã adornada pelo sol, embora no olhar aos campos, sem visse alguma neblina matinal, ela, a sua esposa, se engravatou com o taxista, dez anos mais velho, mas com muitos anos de estrada, e que estava a ser tratado de uma angina de peito. Dito e feito, morreu sem ter caído em cima dela.


Nandinho, nesse dia até chegou a casa mais cedo, levando consigo e lindos ramos de flores. Doze dias de casado, era data a comemorar…


A sua Ignácia, diga-se, Ignácia Del Rio, era andaluza, de Lepe, era filha de um cabo-verdiano, Lourenço da Luz, que em tempos, o barco onde trabalhava, deu à costa em frente da Punta da Umbria, e de Dolores Velasquez Del Rio.


Ela nunca quis como seu, o nome do pai, e o marido, o Nandinho, só estiveram casados doze dias, também não quis que nenhuma parte do seu nome, Fernando Raposo Gonzaga de Freitas, entrasse no cartão de cidadão da Ignácia.


Ela que ficasse com o Del Rio, da mãe, talvez um dia desencalhasse e começasse a navegar por esse rio e por outras paragens, como afinal acabaria por acontecer, quando o taxista morreu, precisamente quando se preparava para anunciar o seu décimo terceiro dia de casados. Depois ainda dizem que «o treze» não dá azar. Aqui um azar tripartido. Para ele, para ela e para o taxista, que até o obrigaram a fazer a autópsia só para se certificarem que estava mesmo morto…


A minha vizinha Ana Capuchos, cujo nome verdadeiro era Ana Andorinha da Silva, mas como tinha nascido no Hospital dos Capuchos, em Lisboa, toda a terra a conhecia, primeiro pela Anita Capuchos, e depois com o correr da idade, pela Ana Capuchos. Aliás, ela ficou mais famosa, quando em certa ocasião aparece em cena António Capucho, um político do PSD, que nunca tinha vindo ao Algarve, mas uma vez, vá lá perceber que a submissão é eterna, o Capucho, neste caso o António, foi o primeiro da lista dos candidatos do PSD pelo Algarve.


Pois a minha vizinha, que nem sequer conhecia o Capucho e até desgostava comparações, pois uma das coisas que nunca gostou foi de política, morava janela, janela com a minha, às vezes para falar com ela, que tinha um bocado de falta de ouvido, tinham que utilizar um megafone, mas lá íamos conversando.


Era também uma pessoa muito atenta aos vaivéns do Nandinho. Também se preocupava com ele, que até parecia em certos momentos ter uma vida errante, sem sentido.


Todos os dias mais ou menos à mesma hora, entre as 11,00 e as 11,30 o Nandinho saia de casa com passos feitos de silêncios, e o silêncio parecia maior, porque tinha colocado uma borrachinha nova na ponta da sua bengalinha que também lhe suportava o caminhar.


Nandinha, tinha arranjado esta espécie de bengala, de um pau de limoeiro, que lhe fora oferecido por um amigo, e com uma faquinha, como que limpou todas as arestas da vara, endireitou, colocou-a até durante um mês sob o colchão, e era a sua bengala para ajudar à sua mobilidade.


Antes sem a borracha, ouviamos os seus passos bem à distância. Agora não, ele caminhava sem nos apercebermos, daí ficarmos à janela, porque também nos preocupávamos com ele.

Então Nandinho – gritava a Ana Capucho.


Nandinho levantava a cabeça, para distinguir melhor de onde vinha o chamamento e depois de descobrir lá acenava…


O grande perigo que poderia vir da Ana Capuchos, é que ela tinha muitos vasos, alguns sem flores no parapeito da janela, e já não era a primeira vez que sem querer empurrava um vaso, do sexto andar cá para baixo.


Um dia, uma das soltas de vasos, porque forma dois que caíram nesse dia, só por sorte é que um Cabo da Guarda, que por ali passava, não foi desta para melhor.


Ainda foi chamada a guarda aí umas dez vezes, porque a Ana Capucho era muito surda e não ouvia quando a chamava, mas ficou tudo em águas de bacalhau, pois ela confessou que nesse dia havia muito vento, e os vasos desceram lá de cima por culpa do vento.


Nandinho saia de casa todos os dias, e ia direito ao Café do Senhor Zé Vermelho. Filho de um conhecido comunista, que morrera na prisão em Peniche.

Recriação da fuga da cadeia do Forte de Peniche de Álvaro Cunhal pela Escola de Teatro de Cascais e do Núcleo de Espeleologia de Óbidos no Forte de Peniche


Na ocasião, a sua morte fez correr muita tinha, porque foi sempre uma morte mal explicada. A última versão, que é aquela que está apensa ao processo, fala de que o José Abrantes Cordeiro era este o seu nome, teria escorregado a caminho da casa da enfermaria, na altura um guarda, eles sempre muito amistosos e prontos, até o ajudou a levantar. É isso, sem tirar nem pôr que consta no processo.


A nota oficial sobre o seu falecimento, recorda ainda que a PIDE – Policia Internacional e Defesa do Estado, limitava-se no último parágrafo, era dois, a escrever: Faleceu hoje, dia 14 de Maio de 1956, na Cadeia de Peniche, onde se encontrava detido por conspirar contra o Estado Novo, José Abrantes Cordeiro, casado, natural do concelho de Loulé, com última morada, em Monprolé.


O corpo só passado dez dia sé que foi entregue à família, mas foi uma confusão tremenda, porque ninguém queria ficar com o corpo.


Dizia-se a voz solta que o José Cordeiro seria sepultado com honras militares, mas nesse dia, os militares fizeram greve e só apareceu, por que era amigo da família o reformado cabo Dionísio, que tinha sido preso em Goa, por ocasião da petição feita pelo senhor Neru para que Portugal abandonasse os territórios.


A paixão do cabo Dioniso por ter servido o exercido, foi tão grande, que até falecer em 1986, já com 92 anos, andou sempre fardado.


Um dia, houve um acidente em Manteigas, onde residia em casa de uma filha, e quando chamaram a guarda, foi ele que tomou conta da ocorrência. O Cabo Dionísio era natural da Califórnia, um sítio que pertence à freguesia de Salir, mas aquilo que ele mais gostava, e raro faltava a algum, era ir a funerais. Aliás, dizia mesmo: – gramo ir a funerais.


Nandinho à ora certa saiu de casa, só o fazia no período da manhã. Depois regressava a casa e dormia uma folga até ao dia seguinte. E lá ia direito ao café do Zé Vermelho, mas com o nome de registo, de Gaivota.


Lá chegado, e depois de fuma o habitual cigarrito e se tivesse estivesse agradável ficava cá fora, pedia um brandy e ali ficava à conversa até à hora do almoço.


Entrava, sentava-se e vinha o que estava na ementa que fosse do seu agrado, ou que menos trabalho dessa à cozinheira: – eu não quero dar trabalho a ninguém dia ele.


Pedia o almoço. Nesse dia era frango guisado com esparguete e o habitual jarrinho de vinho tinto. – Quero Pias – pedia ele, e de imediato a generosa empregada, natural de Balurcos, que antes tinha trabalhado num café em Montes Novos, que tinha mais peito que barriga, dizia: – Está aqui senhor Nandinho.


Nandinho, quando ouvia o tratamento de senhor, emocionava-se. Ele já tinha sido reconhecido assim, durante muitos anos.
Não era uma pessoa muito alegre e contava sempre a mesma história, que o pessoal acolhia como se fosse uma anedota, mas o ar sério com que historiava, hoje todos acreditam que fosse mesmo verdade.


Quando terminou o almoço, e antes de pedir a fruta ou doce, que estavam incluindo no preço, Nandinho, que se sentava sempre na mesma mesa, a um segundo da porta da rua, levantou-se e foi lá fora fumar outro cigarrito.

Quer pudim ou fruta – Disse a empregada.

Menina, posso fazer como sempre! – Pode, disse a menina, que já rondava os 46 anos…fazer como sempre, era trocar o pudim ou a peça de fruta, por mais um brandy.

Outro? Questionava a empregada. – Então depois de um brandy, um jarrito de vinho e agora outro brandy?

Menina – respondia o Nandinho – Já viu algum motor funcionar a água…


Ele fumava cigarros provisórios. Bem antigos, aliás, já nem existiam no mercado, os quais tinham sido uma oferta bem grossa, do seu antigo sogro, Lourenço da Luz, pois quando do naufrágio do barco onde andava, O Patrulha do Mar, levavam na altura um grande carregamento de tabaco, mas que as autoridades nunca detectaram por vinha numa espécie de falso porão. E durante os meses, até regressar a Tanger, onde o barco estava registado, esteve longos meses aportado a Ponta da Umbria, e ele entrava e saia sem quaisquer entraves…


Nandinho não era católico, aliás, quando do seu casamento, com Ignácia Del Rio, que até teve lugar a missa cantada, que durou treze dias apesar do compromisso proclamado diante do altar: Na saúde e na Doença. Para a vida e para a morte, ele jurou a pés juntos, que nunca mais iria à igreja e tudo faria para que tal não acontecesse. Mesmo assim, quando tinha um copo a mais, para ele a primeira pessoa era Deus…- obrigado meu Deus – dizia o Nandinho.


Eu nunca vi, mas havia quem dissesse que ele guardava sempre um crucifixo no bolso…

Neto Gomes

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