CULTURA

Remate certeiro: Memórias de uma Tertúlia

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Dois meses depois a Tertúlia presidida por Aniceto Pulga voltava a reunir, tendo como ordem de trabalho, o Covid19 e a depressão.


Nessa reunião, marcaram presença apenas nove, dos onze elementos, que a compunham e nesse dia eram para ter estado presentes apenas oito, pois ninguém contava com a chegada do Asdrúbal Alho, preso por falsificação de notas de 50€, e que agora tinha beneficiado de uma saída precária devido ao falecimento da sogra.


Entretanto os outros dois faltosos, eram o João Graveto e o Osório, este sempre conhecido como o Osório da Inês, alcunha que já vinha de moço, quando a sua irmã Inês, era a moça mais apetitosa da terra e até a consideravam «boa como o milho».


No seu conjunto, constituíam a Tertúlia, há mais de dez anos, onze amigos, onze porque se consideravam uma equipa, mas nem todos eram filhos da pouca sorte, e até tinham as mais diferentes profissões, embora só seis deles (Agostinho Boa Morte, empregado bancário, Fabrício Alemão, funcionário da tesoureiro da fazenda publica, António Cabeça, remador da alfândega, Carlos Azia, empregado de uma farmácia, Chico Palha, que fazia trabalhos de empreita e o Aniceto Pulga, o presidente, que era proprietário de uma loja de acessórios para telemóveis), tivessem uma vida mais arejada, apesar da depressão em que viviam.


Dos restantes cinco, dois estavam presos, o já citado Asdrúbal Alho, tipógrafo, e o Jacinto Alfinete, enquanto que o José Canhoto, estava em casa em teletrabalho e o Osório, que tinha ido ao centro de emprego, procurando saber como paravam as modas, na qualidade de Delegado Sindical, porém, os dois últimos, ainda estiveram à porta do local onde se desenrolava a Tertúlia, mas as regras eram iguais às de um concerto de música clássica, isto é, quando se apaga a luz, já não entra ninguém.


É um facto, que nem todos tinham pedigree, mas olhando de viés, descobriam em cada tertúlia um outro horizonte, mas por vezes também devido à pandemia e à depressão, viam tudo muito mais medonho, como o tecto do céu sempre enegrecido, parecendo que a noite tinha acontecido…


A meio da tertúlia, sobretudo no verão, sob um tecto onde até contava as estrelas, olhavam ao céu com espanto, e todos pareciam orar em silêncio, num tão estranho e profundo silêncio, que parecia que já tinha sido cumprida a liturgia…


De repente, o António Cabeça, começa a desfolhar o jornal, de forma desordenada, já nem descortinava, onde começava e onde acabava, parecia que os arruaceiros das tertúlias, neste mundo onde caminhamos agora, tinham sido todos expulsos, ou abandonado o sagrado, onde bebíamos uns copos, muitos ficávamos mesmos enfrascados, pois só com esta espécie de anestesia tínhamos coragem para falarmos mal de nós próprios, e da depressão que aos poucos nos ia consumindo.


Até a tertúlia parecia estranha. Nunca se falava de quem não se visse, isto é, só se discutia e se dizia bem ou mal, de quem estava presente, e os ausentes, por mais que justificassem, tinham sempre falta.


Todos sentiam que era desrespeitador faltar à tertúlia, porque ela só acontecia de dois em dois meses, todos tinham tempo suficiente para se organizarem, e era preciso ter um grande galo, como nós costumávamos dizer, se a tia morresse logo no dia da tertúlia.


O tema desta vez, como de costume, era sobre todos os que estavam presentes, mas tendo como alvo e na ponta da mira de cada um, o Convid19 e da depressão, ainda que todos soubéssemos, que seria mais fácil falar sobre a pandemia, pois não há gato, nem cão, que não fale, com uma liberdade, que em vez de nos afagar, ainda nos afoga mais…


Em contrapartida falar da depressão, isso são coisas para conversas mesquinhas, coisas que só os saloios não percebem. E depois já não sabemos, qual a depressão de que estamos a sentir, se a depressão que nos afadiga a vida, nos traz medos, nos agudiza, nos mata, nestes jogos estranhos, se a depressão meteorológica.


Cedo percebemos, que alguns até se pouparam nas perguntas, olhando de vez em quando às revistas poisadas sobre a mesa, do género daquelas revistas que estão nos consultórios médicos, que já têm mais de três anos, perdendo-se por isso a noção do tempo, o que até faz aumentar a depressão.


Anicete Pulga ficou no centro da mesa, que era sempre o pior lugar, porque dava de esquina com uma coluna, que quando se encostava parecia que lhe entrava pelas estranhas. Mas fazia parte do ritual, e nem se admitiam queixas, e também ninguém lhe iria perguntar, «se estás mal muda…»


Aqui não havia essas coisas. Todos, um dia, mais tarde ou mais cedo, como os escravos, ficariam encostados ao tronco, aqui em forma de coluna…


Os arruaceiros, eram aqueles que faltavam, porque quebravam as regras das presenças, e não estar presente, não tinha absolvição, porque ninguém tinha sido convidado a integrar a tertúlia. Cada um aparecia por si próprio, logo, essa paixão, esse voluntarismo, era já por si, toda a força da tertúlia, por isso, se referia tantas vezes, que para a integrar era preciso ter pedigree…


A tertúlia de hoje, como antes anotámos, era sobre o Covid19 e a depressão, e estava em cima da mesa, os testes mais recentes feitos em Portugal, lá para os lados de Guimarães, onde D. Afonso Henriques foi Rei e Senhor, e ainda por cima, eram testes sobre as coisas da bola.


Segundo, o Jacinto Alfinete, que também era mecânico de carros roubados, dois ou três jogadores do V. de Guimarães tinham sido testados. O Alfinete, levantou o braço, sinal que queria falar, e o Aniceto, que presidia, depois de pedir uma cerveja, à viúva Matilde, dona do Bar, onde se reuniam, na praia das Águas Perdidas, que eram águas que vinham do Cerro da Bufa, e que ninguém aproveitava, questionou:

– Esta coisa que aconteceu com os testes aos atletas do V. de Guimarães, não é assim tão grave como a imprensa pintou. Pronto, o laboratório do Senhor Gomes, que o pai até é presidente do futebol, disse que estavam infectados com o Covid 19, mas logo a seguir, segundo disseram, tinha sido engano. Uma coisa simples. Um engano qualquer tem.


No outro lado da mesa, um pouco encostado à esquerda, como era costume, estava o José Canhoto, relojoeiro, mas no desemprego, pois os relógios modernos não têm arranjo, e quando estão avariados, são reciclados, como contadores da água.

– Levanta a voz, ó Canhoto – gritou o Alfinete – Aqui não chega nada. Fala mais alto.
Fazendo sinal com o polegar, Canhoto, adiantou – Eu também acho que foi um pequeno engano. Aliás, o pior que aconteceu, foi a família destes jogadores terem sido levadas pelo INEM, para o Hospital Marquês de Pombal, todos com princípio de ataques cardíacos, devido ao susto que apanharam. Portanto, foi uma coisa simples – acrescentou com toda a solenidade, o Canhoto.


Atirando o jornal para cima da mesa e dando sinais de impaciência, esbofeteado pela depressão, pediu para usar da palavra o Asdrúbal Alho, natural de Britelo, uma freguesia de Celorico de Basto, e que tinha vindo para o Algarve trabalhar em artes gráficas, empregando-se da Tipografia Stencil, em São João da Venda, e que quando tinha um copito da mais, interrompia a tertúlia para gritar: Eu sou de terras de Basto, aqui basto eu…


Asdrúbal, gozava agora uma saída precária da prisão, devido ao falecimento da sogra, onde cumpria dois anos, por ter sido apanhado a fazer notas falsas de 50€.


Fez sinal ao Alfinete, repito, que presidia e começou a falar: – Eu não venho aqui dizer nada sobre o coronavírus, ou a depressão.

– Mas ou Alfinete, não podes fugir do tema, – sublinhou com voz grossa, o Aniceto Pulga, que presidia.
Alfinete parecia muito agastado, e ainda que conhecesse as regras, deprimido como estava, agravado pela falta de solidariedade por parte da mulher, insistiu e argumentou – Desculpem, mas estou mesmo chateado à brava, não é por regressar amanhã à cadeia, aliás, estou melhor lá dentro do que cá fora, mas pelo facto da minha mulher, mal me viu cá fora, devido à morte da mãe, me ofereceu um relógio à prova de água. Perdi a cabeça, pois não se oferece a um homem uma coisa à prova de água e obriguei-a a ir trocar por um relógio à prova de cerveja.
Alfinete. Interrompeu, para avisar o Asdrúbal, que aquele assunto não estava na ordem de trabalho, e que tinha rapidamente que terminar ou agarrar na depressão ou no Covid19.


A Tertúlia começou a ficar com tamanha depressão, que o Alfinete, já não deixou falar ninguém, pois também se notava que a viúva Matilde já não tinha mãos a medir, e agora, eram dezenas de garrafas de cerveja e uma garrafa de água, o Canhoto, só bebia água, parecendo aquela Tertúlia um barco de marinheiros à beira do naufrágio, com o Aniceto agarrado à coluna, como se estivesse agarrado ao mastro.


O primeiro a saltar borda fora, foi o Agostinho Boa Morte, que não contando com a altura do lancil, mas se calhar também encalhou na sua própria sombra, esborrachou-se no passeio, mas num instante se ergueu e sacudiu o pó das calças com tanta força, que acabou por rasgá-las.


Minutos depois estávamos todos cá fora. A Tertúlia seria retomada na próxima semana, pois os assuntos a tratar, quase que nem saíram das campas das ideias.


Era urgente normalizarmos a conversa. Sentirmos o pulsar de todos, afinal eramos uma equipa, embora nem todos estagiassem no mesmo sítio.


Asdrúbal, sentia que não teria possibilidade de vir à reunião, a não ser que lhe morresse outra tia, ou a sogra do seu primeiro casamento, pois o parentesco, apesar do graus de afastamento nem que ele tivesse que chorar ao colo do guarda prisional, e mostrar toda a sua depressão, acabaria por ganhar mais uma saída precária.


Agora, na rua, eram marujos perdidos, que olhávamos ao longe e imaginávamos em cada luz, o barco da nossa aventura.
O que a tertúlia tinha de bom, é que ninguém falava em trabalho. Só uma vez, quando o Pulga, atacou o Canhoto, dizendo-lhe: – foste um grande burro, apanhaste dois anos, por causa da falsificação das notas de cinquenta, se tivesses feito notas de vinte, já estavam cá fora…


E quando, já nem as Tertúlias chegam ao fim, neste tempo onde as lamúrias nos vão consumindo, por mais que carreguemos corajosamente no ventre da boa disposição, todo o nosso melhor, é porque um mundo estranho pegou em nós, como se fossemos aviões de papel, que nos fazem chorar, quando em voos rasantes chocam contra as paredes da vida.
Vamos ver se para a semana, ninguém falta à Tertúlia. Quero ver como acaba a depressão…

Vilhena Mesquita e as recordações em memória de Rosa Mendes

António Rosa Mendes


José Carlos Vilhena Mesquita, passou pelo Facebook, no dia 21 de Maio, para dar voz ao nosso querido e saudoso amigo António Rosa Mendes, no dia em que se fosse vivo, mas ESTÁ VIVO EM TODOS NÓS, faria 66 anos de idades.


Vilhena Mesquita, em nome de todos nós, o que lhe agradecemos, lembrou-o, escrevendo:


«O meu saudoso amigo e colega, António Rosa Mendes, se fosse vivo, faria hoje 66 anos de idade. Todos o recordamos com muita saudade e eterno respeito, pelas suas ideias e convicções, pela sua forte personalidade, e, sobretudo, pela sua obra académica e intervenção cívica.


Recordo-me dos seus dotes de oratória, do seu bom-humor, do seu sarcasmo queirosiano, e do seu algarvismo. Acima de tudo, o António era um apaixonado pelo seu Algarve natal.


Em sua homenagem e em memória da nossa amizade, aqui vos deixo o testemunho que escrevi logo após ter conhecimento da sua morte».


Apenas por razões de espaço, não nos permitimos relembrar o que então escreveu Vilhena Mesquita, mas que o Jornal do Algarve, na altura, deu à estampa.


António, nós aqui no Jornal do Algarve, também temos muitas saudades tuas, mas vamos vivendo, com tudo o que nos deixaste, sobretudo, a tua paixão aberta, leal e única por todos nós.


António. Sempre foste o maior e de pantufas davas baile, num mundo académico então bem difícil, em relação, aos que agora, nem de saltos altos, sem fazem ver e ouvir…

Neto Gomes

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