OPINIÃO

Remate certeiro: Ninguém ganhou as eleições. Empataram

Remate certeiro
OPINIÃO | NETO GOMES

Ninguém ganhou as eleições. Empataram. Agora vão a penaltis…

Eleições 1976. Navegar sem destino

Ele cambaleava margem a margem, fazendo lembrar as embarcações à vela, que vindo das diferentes armações de atum [Livramento, Medo das Cascas, Barril, Abóbora ou até do Ramalhete ou Santa Maria], após dobrarem a barra do Guadiana, numa espécie de estranha bolina e para se furtarem às correntes centrais do rio, procuravam chegar ao cais da lota.


Tinha estado, desde o começo da tarde, procurar saber o resultado das eleições, até que o vinho branco e a noite o transformaram num saco de boxe e o puseram a dormir.


O barulho era tanto na Marisqueira, ao fundo da Rua da Princesa, que a malta já não sabia se estava a ouvir o relato – grandes vozes as do Artur Agostinho, Amadeu José de Freitas e Nuno Brás – que quando era golo, era mesmo golo ou a escutar mais uma Conversa em Família, pela voz do Professor Marcelo Caetano.


Virgolino tinha tido este sonho. Do relato e das Conversas em Família e o salto que deu do banco de madeira onde se sentava, após o primeiro chamamento (toque no ombro), do Senhor Amâncio, teve nele um impacto de um sobressalto brutal.


Teve o senhor Amâncio que o avisar, que já passava da hora e tinha que fechar a porta.

-Calma Virgolino. Já são horas.

-Calma. Mas quem ganhou as eleições? Vim aqui para ouvir as notícias, e afinal deixei-me dormir.

-Quais eleições?

-Prás cambras maestro. Ou ainda estamos em reflexão?


Maestro? Amâncio tinha sido trompetista na banda de Livorno, Itália, mas depois rumou à nossa terra, e ainda andou embarcado na Roseta. Mas um dia por culpa do Rei Humberto, de Itália… veio cá parar, estabeleceu-se como taberneiro, e todos o tratavam pelo Mastro…


Virgolino, olhou do alto do seu metro de cinquenta, para o senhor Amâncio, que ainda que desajeitado no andar, tinha sido praticante de basquetebol. A altura não enganava, e perguntou:

-Já se sabe quem ganhou as eleições?


Virgolino era cliente habitual. Quando se metia nos copos, a euforia dava-lhe para falar sobre história, nomeadamente sobre as descobertas, e às vezes naquela cabeça vinham nomes que nada tinham a ver com as descobertas.

Um dia a discussão andou à volta da chegada ao Brasil. Discussão entre o Miquelino e o Virgolino. De história o Miquelino não sabia nada. Mas ficava ali também até que caísse em cima da mesa, como se fosse um tijolo.


Virgolino contava a dia em que o Fernão Magalhães foi Brasil. Miquelino dizia, que o único Magalhães que tinha ouvida falar, era um senhor que tinha uma oficina perto da Auto Avenida e questionava:

-Será que o Carlos Magalhães, também andou com esses marinheiros de que falas?


O caldo já meio entornado, pior ficou, quando o Miquelino acrescentou: Já andas à mamuja a ver se cai outro copo. Estás quase enfrascado.


Virgolino, que trabalhava na fábrica das chaves. Baixo e magro, mais parecia o Sebastián Del Cano, quando perdeu os papéis, e à boleia do Cristóvão Colombro, regressou a Huelva estafado e faminto. Pouco depois, o Miquelino bateu a asa…

Quem sabe se está aqui a causa da abstenção


Mas o bom do Virgolino, que só queria saber o resultado das eleições, que sonhou com os relatos de futebol e com as Conversas em Família, de Marcelo Caetano foi acordado de repelão. Assim a modos de se atirar para a piscina, e descobrir a meio da queda, que a piscina não tinha água…

Paciente, o maestro foi despertando o Virgolino e quando tudo parecia mais calmo, tudo piorou quando o italo/vila-realense lhe deu conta do resultado das eleições, ficando mais negro que a carvoaria do Chico Carrão, que ficava na Rua da Forca.

-Não. Não pode ser. Então andei dez dias a gritar pelo A e quem vence é o B.

-Calma – disse o maestro: – Até agora ninguém ganhou. Estão empatados. Empatados? Interrogou-se ainda meio a dormir, meio acordado. E agora?

-Agora vão a penaltis! Disse o Camentendes, que também já não se segurava nas pernas.

-Empatados e a penalti! Murmurou ainda o Virgolino. Que num rápido reerguer, assim a modos de chicote, perguntou quando se devia e abalou, sem ouvir o valor da dívida.


Agora num pára, arranca, e ziguezagueada passeio a passeio, margem a margem, como os barcos do atum, caminhava em direcção à Rua Estreita, para encurtar caminho para chegar a casa.


Mas antes parou na Praça Marques de Pombal. Ainda se escutavam uns zunzuns das eleições, mas nada era esclarecedor. Num dos bancos da praça. Temos que ter muito cuidado quando «falamos de bancos», encontrou o Rasga à Manta, que abria e fechava o Diário de Notícias, a quem perguntou:

-O que fazes aqui Rasga, a uma hora tão escura! [era quase uma da manhã].

-Estou a fazer as palavras cruzadas…


Virgolino nem respondeu. Retomou a sua marcha e em frente à Pensão Mateus alguém gritou: – Moço. Virgolino. Mas quem grande barcada. A navegares assim, nunca mais chegas ao cais.


Era o Mar Azul, também meio atolado, mas mais esclarecido, a quem o Virgolino, perguntou:

-É pá! Sabes quem ganhou as eleições?

-Empataram!, respondeu o Mar Azul.

-Então ainda não foram a penaltis?


Mar Azul já nem respondeu, deixando o Virgolino agora porta com porta com a padaria do Raimundo. Estava quase em casa. Dali à Rua João de Deus era tudo a direito…


Mas lá ia resmungando sobre os seus problemas, mas sem perceber, algumas horas depois, quem teria ganho as eleições.


Mas seria verdade que teriam ficado empatados?

Também nas tintas e na arte do pediatra Chico Zé, ninguém perde as eleições


Chegou a casa e a sua Clotilde, xaile sobre os ombros, esperava a chegada do Virgolino, que levou quase dez minutos para acertar com o buraco da fechadura.


Entrou pé ante pé, para não fazer barulho. Mas logo no primeiro passo encalhou com uma das colunas que estava na casa de fora, cuja base suportava uma fotografia da Maria das Dores, mãe da Clotilde.

-Merda. Virgolino. Tal é a tachada, que mesmo assim, meio anestesiado, não gostas da minha mãe.

-Da tua mãe. Então ela ressuscitou?

-Não. Voltaste a deixar cair a fotografia…

-E partiu algum braço?

-Cala-te. Tem vergonha. Vais acordar o teu filho e a vizinhança.


Virgolino, olhou para a sua esposa e perguntou:

-Clotilde! Sabes quem ganhou as eleições?

-Empataram homem do raio

-Mas não tinham ido a penaltis.

-Mas quais penaltis?


A Clotilde tinha razão. Pois se todos dizem que ganharam, é claro que empataram.


Houve empate técnico, dizem os entendidos, entre os que votaram e os que fizeram um grande manguito ao auto eleitoral.

Se calhar quem não foi votar é bem capaz de ter razão, evitando desta forma, ter que se confrontar com alguns gaiatos, que só porque não ganharam as eleições se recusam a tomar posse.

-Mas empataram mesmo?

Gritou Virgolino a sete pulmões e de tal forma, que acordou o filho mais velho, o Narciso, recepcionista da noite, mas que gozava uma folga:

-Sim pai. Empataram e por favor acabe com esta conversa. Faça ponto final parágrafo e continuei na outra linha. Mas continue amanhã, pode ser que já tenham marcado os penaltis….

Neto Gomes

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