OPINIÃO

Remate certeiro: O meu abraço ao amigo e Presidente Jorge Sampaio

Neto Gomes
OPINIÃO | NETO GOMES

Vamos ver como vou conseguir sair de baixo deste terrível compressor, onde sinto que apenas consigo respirar, mas nada mais mexo a não ser as pestanas.


É assim que me sinto, mais ou menos perto das 23,00 horas, quando procuro dar vida a edição 101 do Remate Certeiro, com a tremenda, direi heróica responsabilidade, de escrever meia dúzia de linhas, sobre o PRESIDENTE JORGE SAMPAIO, às quais colo um humilde sentimento.


Várias horas depois do mundo inteiro – o tal compressor a que me refiro – já ter escrito e falado, sobre Jorge Sampaio, que poderei ainda escrever que não ouse repetir, nem quebrar a importância deste homem bom e generoso, que ocupa a maior e a mais brilhante tela, evocando para sempre um dos mais HUMANOS políticos do nosso tempo.

Evocar, com as mãos tão secas como trémulas, a vida e a memória de Jorge Sampaio, é descermos até ao mais fundo dos porões do navio onde nos escondemos, e como quem procura construir a partir de uma sopa de letras, uma a uma, todas as palavras, como se levava então para o tabuleiro da impressora o texto que desejaríamos editar.


Conhecemos Jorge Sampaio, quando era Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, quando daqui, da capital do País, partiam para a estrada as grandes voltas as Portugal. Partiam e chegavam…


Logo no arranque das nossas primeiras palminhas, O PRESIDENTE começou a coleccionar por nós alguma simpatia e mais próximo ficámos quando veio a saber que eramos algarvios de Vila Real de Santo António, também pela âncora familiar que o prendia “À cidade Pombalina”, através de sua esposa Maria José Ritta.

Pelo tempo fora, e sob as vibrações da Volta a Portugal, fomos cruzando o olhar, roçando um sorriso, tangendo um ou outro abraço.


Quando em 1996 Jorge Sampaio concorre pela primeira vez às presidenciais, temos a felicidade e a honra de sermos um colaborador activo durante a campanha que percorre o Algarve de lés a lés, dando a nossa voz e palavra como speaker, até pela colaboração estreita que tinha na altura, como assessor do saudoso Arsénio Catuna. De igual modo fazia parte da equipa liderada pelo Dr. Luís Filipe Madeira, que era o seu mandatário.

Foram dias incontáveis, um pouco por todos os lugares do concelho de Loulé e do Algarve, levando a boa nova, que seria, como veio a acontecer, a vitória do Dr. Jorge Sampaio, como Presidente da República.


Em 2005, antes de terminar o seu mandato e a convite de Júlio Barroso, que concorria mais uma vez às eleições autárquicas em Lagos, como candidato do PS, Jorge Sampaio esteve na cidade lacobrigense, no comício festa, onde também estivemos presentes a convite do candidato, como speaker no encerramento da campanha. Aliás, já na primeira eleição em 2002, altura em que Júlio Barros, contou com a presença de Maria de Belém, também lá tínhamos marcado presença.


Nessa noite, antes de depois do Comício Festa estivemos algum tempo à conversa com Jorge Sampaio, com quem me cruzei inúmeras vezes, nas longas franjas da vida e nas quais participei como speaker, como por exemplo nas provas organizadas pelo Maratona Clube de Portugal.

Recordo-me que em certa altura, momentos antes de uma cerimónia de pódio, e na tenda VIP, já antes tinha estado á conversa com Carlos Moia, o saudoso Jorge Coelho, Presidente da Assembleia Geral do Maratona Clube de Portugal. Jorge Sampaio, entre sorrisos, deixou-nos o recado: Quero só ouvir três ou quatro palminhas… Abraçamo-nos, num gesto bem rapidinho, enquanto pegávamos na nossa arma de trabalho, o microfone, e lá fomos dando voz às coisas que me passavam pela cabeça, entre elas, o facto de cumprirmos com o pedido do Senhor Presidente, isto é, não prolongar as nossas palminhas.

Obrigado por este abraço PRESIDENTE SAMPAIO


Em 2009 foi a última vez que conversámos, o que não é para a admirar, porque não podemos andar todos pelas mesmas ruas.

Nessa ocasião e como coautor com o saudoso e querido amigo António Rosa Mendes, estávamos a escrever um livro sobre o centenário da República, que seria dado à estampa, em Outubro de 2010.

O livro intitulado: 100 anos de República, 100 anos Personalidades, editado pelo Governo Civil de Faro, sob a égide da Comissão Nacional dos 100 anos da República, que incluía 100 personalidades, que nasceram de um vasto leque de sugestões com origem na Governadora Civil, Dr.ª Isilda Gomes, Universidade do Algarve, Forças Políticas e algumas apresentadas pelos autores da obra.

Deste leque de 100 personalidades nasceu o nome do industrial conserveiro José António Rita, pai de Maria José Ritta, esposa do Dr. Jorge Sampaio.


Coube-me fazer, esta entre outras biografias, existindo a responsabilidade de apresentarmos o texto ao biografado, e no caso do mesmo já ter falecido, seria feito contacto com uma familiar mais próximo.


No que se refere a José António Ritta, e por sugestão do Dr. Jorge Sampaio, estreitámos contactos com o seu gabinete, creio que se situava na Casa Regalo, na Tapada das Necessidades. E depois de uns e-mails para cá e outros para lá, la fizemos seguir o nosso texto e simultaneamente uma fotografia, que conseguimos recuperar de uma revista, cujo texto e foto foram dias depois aceites.


Ainda que tivéssemos recebido por e-mail a confirmação, dias depois, através do Governo Civil, chegou-nos um cartão do Dr. Jorge Sampaio, a agradecer e a ficar contente, por saber, que além de speaker, acabávamos de ficar ligado a uma obra tão importante e bem significativa para o centenário da República.

Claro que não posso negar, que senti um profundo choque, como que se tivesse abalroado contra uma parede, quando me chegou a notícia do falecimento do Dr. Jorge Sampaio.

Não apenas pela dúzia e meia de dedos de conversa que tivemos, mas pela forma serena como nos olhava, pelo sentimento de gratidão com que sempre reconheceu o nosso trabalho, mas sobretudo a nossa disponibilidade.


Costuma-se dizer, que no meio de uma floresta, neste caso com as dimensões do País, Jorge Sampaio nunca deixou de conhecer a sua árvore e em cada momento fortaleceu o brilho dos seus olhos, a que tantos chamavam de emoção, no crescer de cada movimento, que protegesse os mais francos.

É sua a frase 25 de Abril sempre, e foi este sinal, que mais fortaleceu a sua luta pela liberdade, pelos compromissos assumidos pelo 25 de Abril.


Por vezes o olhar para o cais e ver um barco descer o rio sem tripulantes, era para ele como se Abril estivesse a espraiar-se distraidamente, sem horizontes, numa estranha desconexão, com os valores da democracia e da liberdade.


Jorge Sampaio foi sempre um homem bom e brilhante. Um estadista de enorme personalidade e que olhava para os seus opositores políticos, com simpatia e sentido de Estado.

Firme, prudente, sabia pensar e decidir. E depois de decidir… Não vacilava.


Deixava com um simples olhar a certeza, a confiança, o sentido de responsabilidade, a coerência, a acção.

Sim. Os homens também choram. Repetimos, os HOMENS, por isso, o mundo viu tantas vezes as lágrimas de Jorge Sampaio.

Lágrimas por todos nós. De Lisboa à Síria, passando por Timor. Timor que amou e acreditou na libertação do seu povo, do nosso povo, como ninguém.


E enquanto o pano, desta humilde homenagem a Jorge Sampaio começa a descer – quando nos sentimos a libertar do tal compressor que vos falei no começo deste abraço ao meu querido PRESIDENTE, – iluminamos o palco brilhante de Jorge Sampaio, com uma pequenina Luz, de Jorge de Sena, cujo poema, na voz de Maria do Céu Guerra, fizeram arrepiar de paixão e de todos os sentimentos, as seculares paredes do Mosteiro dos Jerónimos:

Uma pequenina luz bruxuleante
Não na distância brilhando no extremo da estrada
Aqui no meio de nós e a multidão em volta
Une toute petite lumière
Just a little light
Una picolla, em todas as línguas do mundo

Uma pequena luz bruxuleante
Brilhando incerta mas brilhando aqui no meio de nós
Entre o bafo quente da multidão
A ventania dos cerros e a brisa dos mares
E o sopro azedo dos que a não vêem
Só a adivinham e raivosamente assopram

Uma pequena luz, que vacila exacta
Que bruxuleia firme, que não ilumina, apenas brilha
Chamaram-lhe voz ouviram-na, e é muda
Muda como a exactidão, como a firmeza, como a justiça
Brilhando indeflectível
Silenciosa não crepita
Não consome não custa dinheiro
Não é ela que custa dinheiro
Não aquece também os que de frio se juntam
Não ilumina também os rostos que se curvam
Apenas brilha, bruxuleia ondeia
Indefectível, próxima dourada

Tudo é incerto, ou falso, ou violento: Brilha
Tudo é terror, vaidade, orgulho, teimosia: Brilha
Tudo é pensamento, realidade, sensação, saber: Brilha
Desde sempre, ou desde nunca, para sempre ou não: Brilha

Uma pequenina luz bruxuleante e muda
Como a exactidão como a firmeza, como a justiça
Apenas como elas
Mas brilha
Não na distância. Aqui
No meio de nós
Brilha

Neto Gomes

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