OPINIÃO

Remate certeiro: Um, dois, três aqui vou eu…

Remate certeiro
OPINIÃO | NETO GOMES

Um, dois, três aqui vou eu… Parece dizer a abstenção à democracia que ainda temos

Por todo o País, e claro no Algarve, já tomaram posse todos os autarcas eleitos, nas recentes eleições, entre o jubilo da vitória, algumas nunca antes conseguidas e a desilusão de quem não esperava perder, onde se misturam num lado e outro, os chamados traidores da democracia, que em jogadas de oportunismo, trocaram dedos por anéis, julgando que depois os penduravam nas orelhas.


Algumas foram as vitórias com as quais rejubilei, como por exemplo em Loulé (Vítor Aleixo) e em Portimão (Isilda Gomes). Mas sejamos sérios, porque também não posso negar, a alegria que senti com a vitória do meu amigo Luís Encarnação, em Lagoa, que foi outro dos momentos onde a democracia ainda é uma coisa séria, contra o vergonhoso combate ao oportunismo. Gente sem vergonha…


Também não nego que sou amigo do Luís Gomes, mas também gostei da vitória do Álvaro Araújo, porque é uma luta que vinha de longe, e em democracia, também não se pode pensar: Eu vou ali concorrer e já volto.


Portanto, este é o nosso curto comentário sobre as mais recentes eleições autárquicas, e que não visa olhar profundamente ao que aconteceu, mas tão só, este virar de página. Que sejam capazes de cumprir todos os ditos e reditos…


Mas também é verdade que sentimos que cada vez mais estamos a afastar do País o seu próprio povo, e a constante abstenção em diferentes actos eleitorais, é o cenário mais evidente. E quando o povo se fasta a democracia corre sérios e nefastos riscos, pois a ausência de participação na vida do País, mesmo que seja apenas com o bisturi, é um grave sinal, do que aí vem. Não será já amanhã, mas a rápida corrida do CDS à conquista do eleitorado que fugiu para o Chega, é o desespero que um Partido, ao qual politicamente nada nos liga, e que a chegada do partido de André Ventura, à vida autárquico, é um terrível cheiro a passado. Terrível e perigoso, por isso gritamos:


Um, dois, três aqui vou eu… Parece dizer a abstenção à democracia que ainda temos


E um País sem povo não existe. Já nem nos vamos referir aos mais de dois milhões de portugueses que vivem na pobreza.


Já nem nos vamos referir às reformas miseráveis, vergonhosas, em contraste com outras e outros, que fizeram a mesma coisa, mas estavam no lado certo onde parava o comboio. E alguns deles até já mudaram de comboio, mas não jogaram fora a reforma. E nós até lidámos com tantos destes atrevidos oportunistas.


E por isso sentimos que começa a fugir-nos de entre os dedos, os valores da democracia.


Defendo, e estamo-nos a referir à nossa geração e à que nos segue, que quando o Chega entra nas nossas casas, na chamada casa da democracia, sentimos, nós e os da nossa geração e a geração que nos segue, o regresso a momentos muito complicados, esvaziados de democracia.


Não tínhamos ilusões. Nós e os da nossa geração e da geração que nos segue, sentimos que estamos cada vez mais fragilizados, ainda que não possamos ignorar que também somos culpados, como diria o Salgueiro Maia, “ao Estado a que isto chegou”.

Ai, que saudades ai, ai (https://restosdecoleccao.blogspot.com/2010/02/uma-bomba-de-gasolina-da-shell.html)


Nas ruas, nas farmácias, na loja do vizinho, na taberna, no mercado do peixe e da verdura, nas creches, nos lares da terceira idade, nas diferentes instituições sociais, nas bombas de gasolina (só ir à lua é mais caro que os combustíveis em Portugal), nos supermercados. E não estamos a ver o senhor Ministro das Finanças, ir às compras com 450€ de reforma, o custo de vida está pela hora da morte.


Estamos angustiados. Deprimidos. Sem esperança. Sem vozes que nos façam acordar desta espécie de sono falso, cruel, nefasto.


Angustiados e perdidos, também pelos sinais que nos chegam. É o Sócrates a dizer que está inocente. É o Armando Vara a dizer que está inocente. É o Luís Filipe Vieira a dizer que está inocente. É a justiça que não sabe do Rendeiro. É a mulher do Rendeiro, que não sabe onde guardou os quadros. É o primo que anda sempre vestido de negro a pedir que não lhe apliquem mais impostos. E o povo, que por enquanto ainda existe, a ser constantemente tramado. A ser colocado entre dois muros, quase sem poder respirar.

Mantenho a minha fidelidade a António Costa. Pois se quando tinha boa perna e bom impulso nunca saltei de um barco para outro ou nunca mudei de comboio, não seria agora que o iria fazer, todavia é urgente que nos cheguem outros sinais. Outro respeito…


Ontem a pandemia, agora a greve dos médicos, amanhã a dos enfermeiros, depois a dos camionistas, depois ainda a dos professores e finalmente a greve das greves. E de São Bento, diz-se que nada passa. E o Prof. Marcelo, diz que o empate era bom…


Claro, que acreditamos que orçamento vai passar, pois o PCP e o Bloco ficariam sem futuro imediato se o Governo caísse. Mas é urgente que se melhore a vida dos portugueses, pois a Bazuca tem que ser jogada numa mesa de bilhar e não numa mesa de snooker que tem demasiados buracos e nem sabemos onde as bolas vão cair.


Mas o mundo também anda todo a encalhar na alcatifa e de tal modo que até a própria FIFA quer realizar um campeonato do Mundo, em zona de conflito, tendo como cenário Beirute, acreditando-se por isso que a final possa ser na Faixa de Gaza.

Já cá não está a amiga Maria Guerreiro,
a Rainha da Estupeta

Lá se foi a rainha da estupeta. Tinha 93 anos e mil histórias


Foram muitos e muitos anos contando as ondas do mar até ao regresso a casa do seu Joaquim, pescador a vida inteira, mas uma vida curta, pois num repente e quando se preparava para regressar ao mar, ficou sentado na borda da cama…


Joaquim Ferreira Catarro, marido da rainha da estupeta, não navegava apenas no seu bote, lançando vezes quantas, por vezes em vão, a rede ao mar.

Também foi companheiro de mil marés, tanto na Maria Rosa como na Conceiçanita, sob o comando do Mestre José Pichinha. Joaquim era o chamado mestre da chata.


Pois é, no outro dia, tantos anos depois, também nos deixou Maria Botequilha Guerreiro, viúva do Mestre Joaquim, a grande Rainha da Estupeta, que teve sempre, o que chamamos de mãos milagrosas.


Deixou-nos perto dos 94 anos e por aqui ainda andam os seus sete filhos, entre eles uma moça, chamada Hermínia, com enorme paixão por cristo e pela Nossa Senhora das Dores, que casou há vários anos com o amigo Arménio, do Tapas.


Viúva ainda muito jovem, a Rainha da Estupeta teve que se fazer à vida, mas nunca perdeu a ligação ao mar, pois seu filho Vítor seguiu as pegadas do pai.


E em infinitos invernos, como muitas outras mulheres, era vê-la na praia, no areal de Monte Gordo, esperando o bote do Vítor, espreitando pelo nevoeiro, que uma onda lhe mostrasse o barco, e só deixava o terço, quando o seu Vítor regressava à terra.


Maria Botequilha Guerreiro, com quem tivemos a alegria de conviver, era uma mulher de trabalho, forte, aguerrida, boa pessoa e estimada por todos que com ela conviviam. Era uma mulher de palavra, serena, e foi pouco a pouco, transmitindo ao Arménio o segredo da estupeta. Só não sabemos, se ele conseguiu aprender a lição.


Para mim, que sempre fui um apreciador de estupeta, que foi muitas vezes o meu biberão, comer estupeta feita pelas mãos da Maria Guerreiro, depois de sete ou oito lavagens, bem espremida com o atum apertado na chamada rede dos pescadores, era um momento memorável. Comer e chorar por mais.


Já sabemos que Maria Botequilha Guerreiro deixa uma carrada de filhos, netos e bisnetos. Uma enorme família, todavia, o que deixa em todos nós, é uma enorme saudade.


Já não está entre nós, a Rainha da Estupeta, mas terei sempre comigo o sabor, da mais bela estupeta do mundo.

Neto Gomes

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