Residentes franceses e italianos crescem quase mil por cento em 12 anos

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Italianos e franceses têm sido, ao longo dos últimos 12 anos, os povos que mais têm crescido na procura do Algarve para viver com base na paixão pelo país e no prazer de vida, com crescimentos que, no caso dos italianos, roçam os 1.000% naquele período, segundo dados do SEF

A França é a terceira comunidade estrangeira mais numerosa na região (depois dos cidadãos do Reino Unido e Brasil), com 6.328 residentes fixos no final de 2021. Em 2010 tinha apenas 916 cidadãos, o que representa um acréscimo de uns significativos 570% em 12 anos.

Mas os campeões do crescimento populacional na última dúzia de anos foram os italianos, que passaram de 534 residentes em 2010 para 5502 no ano passado, o que perfaz um crescimento recorde de 930%!

À exceção dos nepaleses (2683 residentes em 2021), que vêm exclusivamente para trabalhar, e dos suecos (a comunidade de maior crescimento, mas apenas com 2.318 residentes atualmente), grupos com apenas um terço dos volumes populacionais dos franceses e italianos, estes dois últimos países foram os que mais cresceram em matéria de representatividade populacional no Algarve.
Campeões demográficos no Algarve, os cidadãos do Reino Unido apresentaram uma queda acentuada de 2020 para 2021: de 23.027 para 20.770 residentes. Os segundos do ranking dos maiores residentes, os brasileiros, têm tido subidas sustentadas, mas pouco significativas, relativamente a italianos e franceses: passaram de 7.587 para 15.878 residentes nos últimos seis anos, muito longe das inflacionadas percentagens galesas e transalpinas. Também protagonistas de uma emigração de caráter laboral, os romenos têm-se mantido em torno dos 7 mil residentes nos mesmos seis anos, de 2015 a 2020.

Tudo começou pelas razões fiscais
“Há uma grande similaridade de comportamentos e de motivações entre as comunidades francesa e italiana”, reconhece o presidente do Turismo do Algarve, João Fernandes, sublinhando o paralelismo dos respetivos crescimentos anuais e as próprias razões para o “boum” dos últimos anos: “À semelhança dos franceses, muitos italianos escolheram Portugal aproveitando o estatuto do residente não habitual”, explica o especialista em turismo algarvio, em referência a uma benesse conferida por vários Governos, entre os quais o português, para evitar duplas tributações, nos países de origem e de destino. Assim, desde 2009, os imigrantes reformados que escolham Portugal como país de residência estão dispensados de pagar impostos no nosso país. Isso significa, na maioria dos casos, acréscimos da ordem dos 30% a 40% nas reformas líquidas no caso de continuarem nos países de origem. Desde há cerca de dois anos, da isenção total passou-se para o pagamento de 10% de imposto.
A juntar à isenção dos impostos sobre o rendimento, outra vantagem aliciou muitos franceses: o aumento brutal do imposto sucessório, que passou para 30% sobre o valor dos bens herdados em França fez muitos cidadãos “fugir” do País e Portugal foi um dos refúgios.
No entanto, segundo disse ao JA o cônsul honorário de França no Algarve, Patrick Agostini, 57 anos, essa razão – significativa nos primeiros anos do mandato de François Hollande, a partir de de 2012 -, já é praticamente inexistente: “Hoje já ninguém vem por causa do imposto sucessório e as pessoas que só vêm por isso ou não ficam ou são muito minoritárias”, disse.

Gerações mais jovens começam a descobrir o Algarve
“Outro fator que fez com que os franceses começassem a crescer, foram as segunda e terceira gerações de imigrantes que vinham cá passar uma ou duas semanas de férias e que passaram a comprar casa, muitos deles fugindo aos 30% de imposto sucessório e isto em simultâneo com o estatuto de residente não habitual”, enfatiza João Fernandes, que não deixa de referir que um dos fatores de crescimento de ambas as comunidades é a maior notoriedade para o Algarve daqueles países, efeito das fortes campanhas promocionais da organização a que Fernandes preside.
O cônsul francês Patrick Agostini destaca como motivos para o súbito crescimento francês, sobretudo, fatores como a insegurança pública em França, destacando: “Há muitas pessoas que estão aqui por sossego. As pessoas são simpáticas em Portugal. Quem vem aqui viver não quer chatices. E em França os bens imobiliários estão a perder valor todos os dias por causa da imigração interna. Andam toda a vida a trabalhar e depois a casa começa a perder valor. Preferem vender e comprar no estrangeiro”.
Cônsul honorário italiano há quase 10 anos no Algarve, Francesco Berrettini, 58 anos, valoriza a hospitalidade portuguesa como razão primordial para o estrondoso crescimento de 930% no número de residentes transalpinos em apenas 12 anos. E narra: “Em 1999, quando vim para cá, o país não estava na rota das férias dos italianos. Depois houve uma promoção, em 2017 a 2019, os anos do ‘boum’. Agora já há uma migração de netos e de filhos que estão a descobrir o Algarve. Mudou um pouco o perfil demográfico do Algarve. Para uma faixa etária mais baixa. Continua com uma preponderância de reformados, pessoas mais idosas, mas estão a chegar pessoas mais novas. Descobriram o País, gostaram”.
O diplomata salienta que o que os seus compatriotas mais valorizam é a hospitalidade dos portugueses, a comida e o clima, E a segurança, sobretudo para os que vêm das grandes cidades.

Pelo menos um quinto dos residentes são estrangeiros
Curiosamente, a legislação do residente habitual, que “zera” o pagamento de impostos em Portugal, data de 2009, mas só foi verdadeiramente descoberta em 2016. A verdadeira explosão demográfica italiana é posterior a esse ano: “Em 2008 tínhamos 400 pessoas, até 2014 eram 500. Depois em 2015 eram 600. Em 2016 eram 1300. Em 2017 eram 2300. Em 2018 passaram a 3.500. Em 2019 passaram a quase 5000. Desde 2016 a tendência foi significativa”, historiza o cônsul honorário.
De resto, à parte estes epifenómenos, o crescimento da imigração estrangeira no Algarve é enorme: em 2010 o número de estrangeiros residentes na região era de 71.818, passados 10 anos eram 103.565, um crescimento de 44%. Isto é, hoje, um quinto da população algarvia é estrangeira. E isto pode ser apenas a ponta de um iceberg, pois, reconhecidamente, há muitos estrangeiros não registados.
Observador do fenómeno da imigração do seu país, Paolo Funassi, 45 anos, residente em Albufeira, constata que os italianos vieram em massa nos últimos 5 anos. “A maioria dos italianos estão em Vila Real de Santo António (VRSA), Quarteira e Olhão. E isto por uma questão económica também: por exemplo, na altura em Olhão os alojamentos eram muito mais económicos, o que já não acontece”.
Comunidade unida por natureza, criam associações e comunicam pelas redes sociais, mas querem distância da confusão: “Os que vêm para passar a reforma não querem confusão. Como tal, Albufeira não interessa. VRSA é tranquilo. Há uns 500 italianos só na cidade de VRSA. Têm lugares específicos onde se reúnem. Em Quarteira também se reúnem sempre no mesmo bar”, enfatiza Funassi.

Marika e o marido, Alberto

Para a maioria, isenção de impostos deixou de ser razão principal da vinda
É o caso de Enrico Venti, 75 anos, reformado desde 2012, em Portugal há cinco anos, depois de uma análise de outras paisagens: Canárias (Lanzarote), Espanha, Tunísia. Ficou em Portugal, com a esposa Patrícia, 67 anos. Encontra-se amiúde com compatriotas, têm uma associação.
Como quase todos os demais, reconhece que o tratamento fiscal foi a primeira razão da vinda. Mas aos poucos descobriu “um país muito agradável, um país seguro, ritmo lento, o que para nós é muito bom. Para nós em Itália a vida era muito rápida”. E hoje garante que continuaria por Portugal mesmo sem o benefício: “Portugal é uma paixão. Estou aqui 8 a 9 meses. O Verão é agradável, o clima seco e calor. O povo português eu amo. Gosto do respeito das regras. Aqui tudo é muito calmo. Posso deixar a porta aberta, que não sou assaltado.
Também residentes em VRSA, Marika, 54 anos, e o marido Alberto, 66, veio de vez em 2018. Foram três anos de reflexão: “A situação na Itália era complicada, burocracia, delinquência, criminalidade, preços altos. Pensámos mudar para outro país. Tunísia, Portugal, Espanha. Em 2015 visitámos todo o Portugal e gostámos muito deste país. Quando o meu marido se reformou começámos a vir aqui, porque a atração era também o fator fiscal”.
Hoje, como acontece com a maioria, o fator fiscal já não é preponderante: “Portugal é melhor para a segurança e criminalidade, é o mais importante. O custo de vida é mais baixo. A gentileza dos funcionários cá é maior. Os funcionários quando comprámos casa foram tão simpáticos que lhes dissemos no fim que é um prazer pagar impostos aqui!”, ironiza Marika, ex-dentista, que esperou pela reforma do marido para vir e comprar casa. Com vista para o Guadiana e Ayamonte.
Residente junto a Loulé, a italiana Patrizia Kirn ainda está longe da idade da reforma. Tem 58 anos. Veio “a reboque” da reforma do marido, Vincenzo, de 74 anos. Nascida na ex-Jugoslávia, chegou em 1988 a Itália e foi próximo de Bolonha que conheceu o seu atual marido, médico de profissão.
“Há quatro anos, o meu marido propôs vir para Portugal. Deixei o trabalho um ano antes de ele se reformar. Decidimos que era melhor eu ficar em casa e fazer uma vida mais tranquila. Deixei de trabalhar em 2015, ainda antes de vir para Portugal”, explica a italiana de origem croata.
Tirado um curso de português, o casal fixou-se próximo de Loulé. Reconhecem que vieram por causa das leis fiscais favoráveis e da isenção do pagamento de impostos, mas…” Se me tirassem agora essa lei havia muitos motivos para ficar. Faltam seis anos para acabar a isenção mas vamos cá ficar depois desses seis anos”.
Como acontece com praticamente todos os imigrantes entrevistados pelo JA, Patrizia não poupa elogios ao cantinho lusitano: “Portugal dá muita segurança (primeira coisa). E há uma coisa que há um estado, regras, as pessoas respeitam as regras. São uns latinos disciplinados, com influência do Atlântico e da Inglaterra. As filas são disciplinadas, não como em Itália. O céu é sempre azul, há pouca indústria”.

Vicenzo Ruotolo e a esposa Doménica

“Experimentei nas ilhas Canárias e depois voltei para Portugal”
Ali ao lado, mas em terras mais litorâneas, o também italiano Vicenzo Ruotolo, 71 anos, escolheu Quarteira para viver: “Vim para cá pela fiscalidade, primeiro. No meu caso o desconto é de 10 anos. Cheguei em 2016. Toda a gente vem porque não paga impostos. Mas depois há um clima de serenidade, pouca delinquência. Morava no centro da Itália, Marche, numa cidade elegante, perto do mar. Ficava bem lá, mas pagava muitos impostos. Eu era dirigente de empresa farmacêutica. Se não estivesse em Portugal, pagaria em impostos 42% da minha reforma”, calcula.
Sobre o povo português, considera-o, sobretudo, pacífico: “Um povo que não se revolta, tranquilo, maravilhoso. Um país tranquilo. Em Itália temos um governo de merda. Experimentei nas ilhas Canárias e depois voltei para Portugal”, explica Vicenzo, que há seis anos está em Portugal em casa própria, com a esposa Domenica, 74 anos.
Como enunciou o cônsul italiano ao JA, há gerações mais jovens, ou menos idosas, e em plena vida ativa, entre estes novos imigrantes. É o caso de Franco Lorenzi,52 anos, que chegou de Bergamo há 26 anos para abrir uma pizzaria na marina de Vilamoura. Chegou sozinho, hoje tem uma companheira, portuguesa, de 36 anos, Ana. Planeia ter filhos.
“Tinha cá um irmão a viver, tenho uma raiz portuguesa, mas vivíamos na Itália. O meu irmão chegou cá em 1981. Eu cheguei em 1996. Vim porque gostava de Portugal. O lado português da minha mãe foi mais forte”, diz, enfatizando que mantém um “relacionamento espetacular” com os portugueses.

Fabio e Sabrina

“Aqui resolve-se numa semana o que leva dois anos em Itália”
Francesco não é caso único entre os que decidem investir em Portugal: Fabio Chiodini, 60 anos, tem dois restaurantes em Albufeira. “A minha mulher [Sabrina, 58 anos] fazia sempre férias em Portugal, há 40 anos. Ela já gostava de Portugal. Começámos a chegar aqui para férias, começámos a ver casas. Tinha um restaurante em Itália, Bolonha. (Ela) Viemos há 12 anos para Portugal. Há 15 anos atrás viemos primeiro, seis meses por ano, para tentar organizar a mudança de Itália para cá. E há 12 viemos definitivamente, no princípio de 2011.
Amantes do clima algarvio, do sol, da luz, da paz, é no povo que Fabio mais aprecia as qualidades: “Há uma grande diferença relativamente a Itália. Aqui as pessoas são mais humildes. Menos vaidosos. Aqui a vida é mais calma. É muito mais fácil tudo, incluindo trabalhar. Uma das coisas foi a segurança. Italiano tem que ter mais dinheiro e a moradia maior que o vizinho, carro maior. Quer ser mais rico do que o vizinho. Pagamos impostos como os portugueses. Só não termos a burocracia como em Itália já é um descanso grande”.
E adora a escassa burocracia portuguesa, comparativamente com a Itália: “Se eu tiver um problema com um restaurante, vou à câmara, a câmara explica, na Itália precisava de 2 anos ou 2 e meio, polícia municipal. Aqui quando há um problema no máximo em uma semana está resolvido. Quando os portugueses falam mal de Portugal, nós mandamos ir a Itália!”.

“Estou sempre em férias”
A disciplina portuguesa é, também, elogiada pelo casal Michele Tarquini e Francesca, com 79 e 63 anos respetivamente, residentes em Lagos, para quem os portugueses chegam a ser “exageradamente respeitosos a conduzir os carros, param sempre dois metros antes da passagem de peões, o contrário de Itália”.
“Há muita disciplina. Inicialmente é um pouco fechado. Se eu faço esforço para falar a língua, o português é muito gentil. E no supermercado, o empregado conduz diretamente ao local do produto, coisa que só vi só Portugal. A segurança é muita. Duas horas depois de ter sido abandonado, um saco ainda estava na praia. Não há problemas de roubo”.
Trabalhei até aos 75 anos, tinha um restaurante em Bolonha. “Um dia o meu maior amigo veio ao meu restaurante para me dizer que decidiu mudar para o Algarve. Eu só conhecia o centro de Portugal, Lisboa/Cascais. O meu amigo já tinha visitado o Algarve e decidiu vir morar em Lagos. Isto foi em 2017. Ele convidou-me para passar 20 dias em Portugal.
A decisão fio repentina: “Acabei de trabalhar em 2018 e depois 15 dias já estava aqui. A minha escolha foi confirmada com a vida que levo aqui. Nesses 20 dias aluguei um apartamento, depois voltei para Itália e depois vim definitivamente”.
“Em Lagos gosto da vida, que não é uma vida de reformado, estou sempre em férias”, sublinha Tarquini, que elogia a cidade, “muito bem organizada com eventos e como aqui há muitas comunidades estrangeiras, que moram aqui todo o ano, não só no verão. Há muitas atividades com apoio do município, que permitem os estrangeiros contactarem os portugueses e pessoas de outras nacionalidades. Fazemos grupo multiétnico para discutir, fazer brincadeiras. Frequentamos muito poucos italianos, queremos compreender melhor a mentalidade local. Não frequentamos comunidades fechadas, como os italianos. Os nossos amigos são portugueses e internacionais.

Patrice e Louise Chaumien

“Depois de 2017 nunca mais fui a França”
Os elogios a Portugal surgem também em língua francesa: “Os portugueses são muito gentis, acolhedores, a paisagem é maravilhosa. É um povo pacífico, amável, doce e fala bem inglês. Quando falo português eles respondem em inglês!”, enfatiza o gaulês Patrice Chaumien, 75 anos, que escolheu Portugal depois de umas férias bem passadas com a mulher, agorea com 68 anos.
Aos 81 anos, o também francês Maurice Bardot é tesoureiro de uma associação francófona que compreende 300 associados, a esmagadora maioria de origem francesa. É a Associação Franco Portuguesa Ria Formosa. Tem Biblioteca, Café teatro, bar, jogos.
“Era informático na IBM. Em 1995 deram-me a reforma antecipada, com 54 anos. A minha mulher tinha um apartamento no Algarve, em Cabanas. Comprámos em 2013 e passámos a vir seis meses por ano, quando ela pediu reforma antecipada e veio seis meses por ano. Em 2017 vendemos a nossa propriedade em França e viemos definitivamente”, explicita o ex-informático, que continua a viver no sotavento algarvio, com sua mulher Alice, 58 anos.
“Depois de 2017 nunca mais fui a França. Vou, isso sim, ver o meu filho aos EUA”, afirma o natural de Paris, que deplora a forma como os franceses tratam os portugueses, mesmo em Portugal: “Os franceses comportam-se muito mal face aos portugueses, acham-se superiores”.

João Prudêncio

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