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Ria Formosa: mais de 90 por cento dos cavalos-marinhos desapareceram em 20 anos!

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Já foram dois milhões, hoje restam pouco mais de 100 mil. Os cavalos-marinhos da Ria Formosa continuam a desaparecer a olhos vistos. Depois de milhões de anos a dominar as pradarias, no intervalo de 20 anos quase foram extintos. A culpa, dizem os especialistas, é do Homem. Da pesca, da poluição, da enorme pressão humana sobre as zonas costeiras. Mas há esperanças no horizonte. Na Ria vão nascer em breve dois santuários para as duas espécies em causa

De 2 milhões para pouco mais de 100 mil. Uma destruição da ordem dos 95%. Este é o número avassalador que mudou, por uns bons anos, a vida do realizador João Rodrigues, 30 anos, que confessa ter sentido um tremendo choque quando lhe mostraram em números da devastação de cavalos-marinhos na Ria Formosa. Vai daí, decidiu fazer um artigo de revista (que a National Geographic apadrinhou), um livro, um filme.

“Fiquei chocado quando soube que no espaço de 15 anos a população de cavalos-marinhos da Ria Formosa diminuiu de 2 milhões para 100 mil. Perguntei o que andava a ser feito para sensibilizar as pessoas, responderam que nada!”, explicita o cineasta de “Cavalos de Guerra”, uma curta metragem de 29 minutos que está a despertar consciências para o problema, frequentar festivais de cinema e se prepara para um périplo mundial que inclui Europa e América.

Miguel Correia

De acordo com os dados recolhidos pelo investigador Miguel Correia, do Centro de Ciências do Mar (CCMar) da Universidade do Algarve, em comparação com 2012, ano do último censo das populações de cavalos-marinhos na Ria Formosa, a diminuição atinge 80%. A estimativa aponta para que atualmente não restem mais do que 100 a 150 mil cavalos-marinhos na Ria Formosa. Em seis anos desapareceram quase 600 mil.

Mas o cenário é ainda mais assolador se o compararmos com 2001, quando a investigadora canadiana Janelle Curtis descobriu que em mais nenhum lugar do Mundo (!) havia uma população tão numerosa daqueles peixes: calculavam-se então em 1,3 a 2 milhões os espécimes ali viventes. Depois disso, a abundância de cavalos-marinhos sofreu uma quebra acentuada devido à destruição das pradarias, o seu habitat, mas por volta de 2008 começara a reerguer-se voltando a valores animadores. Perderam-se. Em dez dos 15 locais de mergulho da equipa liderada por Miguel Correia registaram-se agora os piores números de sempre. O cavalo marinho está a morrer.

Tão cauteloso como quase sempre acontece com os cientistas, Miguel Correia, 42 anos, não assume que as duas espécies de cavalos-marinhos da Ria (a maior, com um máximo de 25 cm, Hippocampus guttulatus e a menor, com 15 cm, Hippocampus hippocampus) estejam em vias de extinção. Mas quando se fala em números e factos reconhece que a depredação é intensa e a espécie está em perigo.

João Rodrigues

Tripulações de barcos de recreio atiram lixo para o fundo do mar
Menos cuidadoso, o cineasta de “Cavalos de Guerra” não tem medo das palavras: “Não é altura para sermos comedidos. Se o cenário está negro há que assumir e agir. Esta sensibilização das pessoas, vindo tão tarde, parece que é colar com cuspo, mas é preciso agir já. ”, sustenta João Rodrigues, que enuncia os fatores da depredação a que se vem assistindo e observa que são quase todos antro-pogénicos. Quer dizer, causados por mão humana.

Entre outros, o realizador acusa boa parte dos donos das embarcações de recreio que percorrem e estacionam na Ria: “Não há controle, são 300 ou 400 veleiros tudo a descarregar porcaria. Alguns mandam os sacos de plástico com o lixo para o fundo com cimento ou chumbo para ficarem lá”, acusa.
Apesar de, reconhecidamente, a poluição na Ria ter diminuído após a entrada em funcionamento da ETAR Faro/Olhão, a poluição por esgotos em algumas zonas da zona dunar também é apontada como causa da quase extinção das espécies.

Mas é principalmente para a pesca que se viram os dedos acusadores dos especialistas: “Estão sob várias pressões e a última que foi identificada foi a pesca ilegal na Ria Formosa para o mercado da medicina tradicional chinesa. Os primeiros relatos ocorreram em 2016, quando houve uma gigantesca apreensão em Málaga, Espanha, a uma família portuguesa de Olhão. Foram intercetados mais de 2100 de cavalos-marinhos, 7 kg de espécimes secos. Iam ser vendidos a um comerciante chinês para a medicina tradicional”, lembra Miguel Correia.

Tal como os pepinos do mar, as barbatanas de tubarão e os chifres de rinoceronte, aos cavalos-marinhos a ignorância asiática aponta efeitos de cura, seja da asma, seja da impotência sexual, entre outras maleitas. A captura é quase sempre feita pela calada da noite, nas águas da Ria. Com recurso a escafandro, garrafa de oxigénio e luz de lanterna. São profissionais.

Incentivar pescadores a deitar os cavalos-marinhos borda fora
Mas as acusações mais altas vão para a chamada pesca de arrasto, ou à vara. “O arrasto representa uma dupla perda, pois é um tipo de pesca em que, para além de os cavalos-marinhos serem capturados, se destrói também o seu habitat, as pradarias marinhas”, afirma Miguel Correia.

Alimentando-se de pequenos crustáceos peixes e larvas, que por seu turno se alimentam de plantas, os cavalos-marinhos têm nas pradarias o seu habitat natural. Quando o arrasto destrói as pradarias marinhas acaba por destruir a base da sua cadeia alimentar.

“Não é uma apanha dirigida aos cavalos-marinhos, mas dirigida às espécies mais pequenas, como os cabozes, linguados, chocos. Dantes havia muita apanha de cavalos-marinhos e os pescadores voltavam a deitá-los ao mar. Queremos voltar a incentivar isso como boa prática”, enuncia.

Genericamente, explica o investigador da Universidade do Algarve, “são espécies vulneráveis a muitos fatores de pressão. E as zonas costeiras são muito influenciadas por impactos humanos, poluição, sobre-pesca, destruição de habitat. E isso torna as espécies muito vulneráveis e os cavalos-marinhos são espé-cies muito sedentários. A sua morfologia foi alterada, a sua cauda é preênsil, o que significa que a usam para se agarrarem a várias estruturas. Devido ao seu sedentarismo, ocupam uma área muito restrita. Toda a ação nessas áreas vai ter um impacto muito significativo nas populações desses peixes”.

Para proteger as espécies ameaçadas, o Grupo de Biologia Costeira e Hidroecologia do CCMar está a implementar um projeto de estudo das populações de cavalos-marinhos na Ria, que desde 2018 está a revisitar locais já anteriormente estudados, de forma a fazer um novo censo e tentar encontrar medidas de mitigação para fazer face à perda de habitat. Ainda não há dados divulgados dessa nova contagem.

Dois santuários já aprovados são nova esperança para as espécies
Por outro lado, pretende-se implementar as duas áreas marinhas protegidas, que estão a ser planeadas por vários parceiros, num projeto encabeçado pelo Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF). Conta ainda com as parecerias da Fundação Oceano Azul e do Oceanário de Lisboa.

O segundo projeto, a decorrer desde o ano passado, planeia envolver vários centros de mergulho ao longo de todo o País, para recolher informação sobre cavalos-marinhos, não só na Ria Formosa mas noutras zonas.

No âmbito de um trabalho cujos primórdios remontam a 2007 (com um programa de reprodução em cativeiro), o grupo encabeçado por Miguel Correia fez uma campanha de sensibilização: “Contactámos vários atores com interesse na Ria Formosa, a comunidade piscatória, marítimo-turística, os municípios, o ICNF, a comunidade científica, de forma a pensar como ultrapassar o problema e isso resultou num grupo de trabalho e em duas áreas de proteção dentro da Ria.

Esclarece que tais santuários serão povoados na zona nascente da Culatra e no canal entre Faro e Olhão, num canal secundário, não no principal devido à intensa passagem de embarcações.

Essas zonas poderão bem ser a última esperança das espécies que outrora pululavam na Ria, em tão grande quantidade que a zona se constituiu como a de maior população de cavalos-marinhos do Mundo.

Podem ser as espécies-bandeira da Ria Formosa!
Para se ter uma noção das disparidades, o investigador sublinha que, mesmo com a razia de que foram alvo na Ria sotaventina, os 150 mil cavalos-marinhos que, no máximo, se calcula existirem naquela zona marinha ficam a milhas de distância dos 10 solitários espécimes detetados em área de semelhante tamanho na zona de Sesimbra.

Para João Rodrigues, o facto de, ao fim de 15 anos, apesar da pressão gigantesca que incide sobre as espécies, elas lá continuarem, já é assinalável. “São sedentários, não podem fugir,, tem que haver uma coisa que os está a proteger. São autênticos cavalos de guerra”, evoca o realizador, justificando o nome que deu ao seu filme, produzido entre março e setembro deste ano.

Daí à atribuição àquele peixe de um valor simbólico singular vai um passo de anão. “Queremos que o cavalo-marinho seja a espécie-bandeira da Ria Formosa. Que a sua preservação tenha simbolicamente a marca de que a Ria Formosa tem qualidade de vida para as espécies que nela habitam”, deseja o investigador universitário Miguel Correia.

A singularidade da espécie, com traços fisionómicos e caraterísticas sexuais e morfológicas únicas – o macho tem uma bolsa que protege os ovos e, após a fertilização, liberta os juvenis através de movimentos de punção – poderão ajudar a fazer o sucesso dessa bandeira.
Afinal, até por essas razões, não será uma bandeira igual às outras!

João Prudêncio

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